Em 11 museus de Salvador, CORREIO registrou falta de manutenção e apoio

A professora vira para os alunos e ensina: “dentro desse museu há também um presente”. As crianças, de 8 a 10 anos, conheciam admiradas o acervo do Museu de Arte da Bahia (MAB), na Vitória. Nos espaços da memória, o passado é a herança para o futuro. Durante duas semanas, o CORREIO percorreu 11 dos 43 museus de Salvador.

Percorremos os mais antigos, visitados, ricos em acervos e do Pelourinho, área com maior número de museus. Então, revelou-se a realidade que perturba a preservação da memória: a média de 20 anos sem troca nas redes elétrica, os azulejos portugueses descascando e falta de verba.

No último dia 2 de setembro, quando foram reduzidos a uma imensa bola de fogo, o Museu Nacional, no Rio de Janeiro,  e boa parte da riqueza da memória brasileira, parte da história foi queimada. Acendia a luz já forte do alerta sobre as condições desses espaços pelo país.

Em Salvador, situações preocupantes encontradas até no MAB, o museu mais antigo da Bahia, gerido pelo Instituto do Patrimônio Artístico e Cultural da Bahia (Ipac), do estado da Bahia. Lá, não há troca de rede elétrica há 27 anos. No Museu da Ordem Terceira de São Francisco, rachaduras visíveis nas paredes, emaranhados de fios, e a já conhecida degradação da azulejaria azul de 1753.

O CORREIO conversou com museólogos, visitantes e uma professora de Engenharia Elétrica para discutir os riscos nos museus da capital hoje. Os perigos dos fios enrolados, desencapados e remendados incluem curto-circuito e incêndio. O historiador e arquiteto Francisco Senna sintetiza: “Os museus estão sangrando, não tem como a maioria estar funcionando. Eu diria que é um milagre muitos estarem abertos, inclusive sem renovação de linguagem. Só existe uma justificativa: é a falta de investimento no setor”.

Dos museus visitados, seis são de responsabilidade do Ipac. Para este ano, o órgão prevê um orçamento de R$ 864 mil para todos os que estão sob sua tutela na capital. Dos outros, três competem à Universidade Federal da Bahia e dois à esfera privada. “Se não há verba,  acaba existindo (problemas estruturais)”, acredita também a mestre em Museologia pela Ufba, Genivalda Cândido.

Os problemas seguem sem solução aparente na maioria dos casos, com exceção do Museu de Arte Moderna (MAM), cuja reforma da área, de responsabilidade do estado, se arrasta há dois anos.

Caminhar pelos corredores seculares do museu também é sentir o efeito do tempo que corrói e compromete as acomodações do lugar. Após pagar pelo ingresso que custa R$5, o visitante tem acesso as edificações históricas que abrigam, além dos azulejos, peças de arte sacra dos séculos XVII, XVIII e XIX. Mas, as ricas e singulares expressões do barroco brasileiro, divide espaço também com rachaduras espalhadas pelos tetos, emaranhados de fios e até cupins que começam a demarcar lugar, ao passo que dão sinais de destruição.Ao adentar o Museu da Ordem Terceira de São Francisco, no Pelourinho, o visitante é convidado a embarcar em uma viagem no tempo. Seus painéis de azulejos recontam o cotidiano de uma Lisboa pulsante do século XVIII. Foram trazidos para Salvador antes da cidade portuguesa quase ruir por completo após sofrer com um abalo sísmico que desencadeou um tsunami.

Os problemas, a princípio, passam despercebidos aos olhos dos visitantes. Na Sala dos Santos, a primeira exposição permanente do museu, os problemas parecem não se revelar a olho nu. Mas, ao caminhar pelos corredores seculares, inevitavelmente, é preciso voltar a visão para cima para apreciar as pinturas que adornam o teto de madeira.

É lá, no teto, onde os sinais do tempo, do descaso ou da falta de manutenção se revelam. São rachaduras, algumas com cerca de 30 cm, que avançam inclusive para as molduras dos painéis, cortando-os ao meio. Se as vistas se volta um pouco mais para baixo, é possível perceber que o mofo indica que os fungos precisam ser combatidos antes que espalhem por outros espaços – é assim em pelo menos três salas do museu.

Os batentes da escadaria que dá acesso a parte superior da edificação, onde é possível ter a visão parcial da igreja, a muito já carece de reparo e uma caixa de energia num emaranhado fios divide espaço com as obras.

 “Eu não sei se tudo isso é por conta do prédio que é bem antigo ou pela falta de manutenção do espaço”, diz a turista alagoana Meire Soares, 35. Já a turista da cidade de Irecê, no Centro-norte do estado, lamentou os problemas do museu. “Eu reparei que tem muitas salas que precisam de uma atenção maior. O espaço é muito lindo, não pode continuar assim”, comentou a professora Maria de Lourdes Farias, 46.

O Museu Eugênio Teixeira de Leal/ Memorial do Banco Econômico guarda a história do dinheiro e abriga uma biblioteca sobre a história social, econômica, política e cultural da Bahia. Abriga cerca de 5 mil peças, dentre elas moedas, medalhas, mobiliário, placa, documentos e vídeos.

No casarão onde o museu está instalado, na Rua J. Castro Rabello, no Pelourinho, o CORREIO encontrou ponto onde pinturas das paredes estão descascando. Durante a ida da equipe não foi encontrado em local visível extintores de incêndio.

No prédio da Faculdade de Medica, no Largo Terreiro de Jesus, tem dois museus. O primeiro é o Museu Afro-Brasileiro, que apresenta peças da cultura africana e afro-brasileira, tem duas das quatro salas abertas ao público – outras duas estão em processo de preparação para exposições.

Na primeira sala, onde há uma exposição sobre o genocídio da população negra uma fiação exposta no canto direito do teto denuncia que ali havia uma câmera. Na segunda sala, onde há uma exposição de Caribé sobre os orixás, o teto tem marcas de infiltração e o cubo que protege umas peças está remendado com duras por causa de rachaduras. Entre a primeira e a segunda sala está um buraco imenso no teto do prédio e o corrimão de madeira está quebrado em alguns pontos.

O segundo museu abrigado no prédio da Faculdade de Medica é o Arqueologia e Etnologia da Ufba, onde há objetos indígenas, pinturas e fotografias. Na Ala Professor Pedro Augustino, sinais de infiltração na parede de uma sala onde há exibição de um vídeo sobre a rotina indígena, a ausência de um buraco em um outro ponto de exibição mostra que um monitor foi retirado e não colocado de volta.

Na Ala Professor Valentim Calderón um emaranhado de fios e no final da Ala Antônio Matos fiações expostas.
Já o Museu Abelardo Rodrigues, instalado no Solar do Ferrão, na Rua Gregório de Matos, onde há 800 peças entre santos barrocos, gravaras e ourivesaria, não apresentava rachaduras, mofo, infiltrações, peças danificadas, tem dois extintores visíveis.

A arte parece disputar a atenção com os sinais patentes de descaso. O resumo: faltam extintores e sobram rachaduras. Artistas, diretores e frequentadores lutam a sua maneira para a preservação do patrimônio. As respostas oficiais sobre os erros estão em falta. Enquanto isso, a herança da história luta para a permanência.

Correio24h/Foto: Reprodução 

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