O tempo passou, mas a dor e a sensação de impunidade permanecem vivas. Quase três décadas após um crime brutal que chocou o Rio Grande do Norte e ganhou repercussão nacional, o réu Orlando Paulo de Medeiros será, enfim, julgado pelo Tribunal do Júri da Comarca de Caicó (RN). A decisão de pronúncia foi proferida pelo juiz Ricardo Antônio Menezes Cabral Fagundes, que confirmou a existência de indícios suficientes de autoria e materialidade para que o acusado seja levado a julgamento popular.
O crime aconteceu em 12 de julho de 1996, no Sítio Santo Antônio, zona rural de São João do Sabugi (RN). Orlando é acusado de ter assassinado Francisco de Assis Medeiros e sua filha, Francineide França de Medeiros, com quem mantinha um relacionamento amoroso. Segundo os autos, após uma discussão, ele teria executado Francisco com um tiro à queima-roupa e, em seguida, matado Francineide, mesmo diante dos apelos desesperados da vítima. As mortes ocorreram na frente dos filhos dela e de outros familiares.
A barbárie ganhou destaque nacional ao ser exibida no programa Linha Direta, da Rede Globo, em 2002. Desde então, o réu nunca foi preso e permanece foragido, em local incerto e não sabido, o que aprofunda a ferida deixada nas vítimas e na pequena comunidade onde o caso ocorreu. A morosidade e a ausência do acusado diante da Justiça alimentaram durante anos o sentimento de que o crime cairia no esquecimento.
No entanto, após insistentes apelos da família e avanços no processo, o caso voltou a caminhar. No último dia 11 de julho, a família das vítimas deu um passo decisivo ao constituir como assistente de acusação o escritório Dantas & Morais Advogados, com sede na Paraíba. Liderado pelos advogados Dr. Silvio Morais e Jorge Dantas, o escritório tem se destacado pela atuação combativa e qualificada na área criminal, e agora soma forças ao Ministério Público na busca por justiça.
Com experiência consolidada em casos de alta complexidade, Dantas & Morais chega ao processo com a missão de ampliar o alcance da acusação, contribuir tecnicamente com a sustentação do caso e garantir que os fatos não sejam relativizados. A presença do escritório marca uma nova fase do processo — mais firme, mais vigilante e comprometida em romper o ciclo da impunidade que há anos revolta os familiares das vítimas.
Testemunhas ouvidas durante a instrução processual relataram com riqueza de detalhes o horror vivido naquele dia. Os laudos periciais, somados aos relatos de Valdinete Araújo e Josival Carlos, sustentam a versão do Ministério Público e reforçam a gravidade dos crimes cometidos. A defesa do acusado, por sua vez, tentou manobras jurídicas para travar o processo, como a alegação de nulidade da citação e desqualificação de testemunhas, todas rejeitadas pelo juízo.
“A decisão de pronúncia reafirma que o caso deve, sim, ser julgado pela sociedade. E ainda que o réu continue foragido, o processo seguirá seu curso legal”, destacou o juiz na sentença, que também manteve a prisão preventiva de Orlando devido à brutalidade do crime e à fuga desde 1996.
Enquanto o acusado segue foragido, a comunidade de São João do Sabugi e os familiares das vítimas mantêm viva a esperança de que a justiça não falhe. “Foram quase 30 anos de silêncio, dor e espera. O que pedimos agora é que quem souber o paradeiro de Orlando, denuncie. O tempo não apaga o crime e não cala a sede de justiça”, desabafa um parente das vítimas.
A expectativa é de que o julgamento ocorra ainda este ano. Até lá, a memória de Francisco e Francineide segue como símbolo de uma luta contra o esquecimento — e contra a impunidade.
CARIRI EM AÇÃO


