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Na ONU, chefes de Estado se encontram em Nova York diante de uma crise histórica

Chefes de governos de diversas nações se reuniram nesta semana em Nova York para a Assembleia Geral das Nações Unidas, cujo início está previsto para a próxima terça-feira, dia 22. No entanto, entre os assuntos tratados, destaca-se uma situação alarmante: o sistema da ONU enfrenta uma crise sem precedentes.

A instituição atravessa uma grave crise orçamentária que levou sua liderança a anunciar um “iminente colapso financeiro” no início deste ano. Adicionalmente, o Conselho de Segurança, seu órgão principal, encontra-se bloqueado por decisões tomadas pelas grandes potências, enquanto observa o maior número de conflitos desde a Segunda Guerra Mundial (1939-1945). Paralelamente, o conceito central do multilateralismo começa a ser questionado por alguns dos principais líderes mundiais.

Esses desafios não são novos, mas se acumularam e intensificaram-se até configurar uma crise que diplomatas e especialistas classificam como inédita na instituição criada em 1945, que agora reconhece a necessidade de reformas urgentes.

Desde o ano anterior, mais países adiaram pagamentos de suas contribuições obrigatórias e diminuíram suas contribuições voluntárias, essenciais para financiar ajuda humanitária em regiões específicas. Agências vinculadas à organização tiveram que redistribuir recursos entre si, reduzir suas atividades ou até interromper algumas operações. Os indivíduos mais vulneráveis são os mais afetados nesse cenário.

No campo da saúde global, duas semanas atrás, a ONU revelou que o programa de resposta ao HIV sofreu um impacto jamais visto desde o início da luta contra o vírus e a doença. A assistência mundial para esse programa recuou 23% em 2025. O programa de testagem foi reduzido em 22%, e a distribuição de camisinhas foi cortada em mais de 90%.

Com um mundo marcado por um número recorde de conflitos, a organização não conseguiu implementar medições significativas para resolver as crises de maior escala, como as ocorrentes na Ucrânia ou no Oriente Médio — responsabilidades que estão sendo transferidas para o secretário-geral, António Guterres, que se encontra nos últimos meses de seu mandato.

As missões de paz foram reduzidas, e o apoio humanitário destinado a aliviar a tragédia social em guerras que, infelizmente, passam rapidamente para a história foi igualmente reduzido. Um exemplo claro é o Sudão, em guerra civil há mais de três anos; recentemente, a ONU informou que a ajuda humanitária ao país do nordeste da África pode entrar em colapso nas próximas semanas devido ao desfinanciamento.

Entre os maiores financiadores, os Estados Unidos estão em déficit de mais de US$ 1 bilhão com a organização. A dívida já era superior, mas foi reduzida no último dia 16 mediante um pagamento de US$ 725 milhões realizado por Washington. O presidente Donald Trump figurou entre os mais críticos da entidade.

Quanto às grandes potências, surge um desafio latente: a inoperância do Conselho de Segurança. Votações sucessivas foram impedidas pelo poder de veto dos membros permanentes, que, ironicamente, são os próprios países envolvidos nos maiores conflitos globais — a Rússia na Ucrânia e os Estados Unidos no Oriente Médio, seja pela intervenção no Irã ou pelo apoio oferecido a Israel na Guerra de Gaza.

Cada vez mais vozes pedem reformas na organização. O Brasil, com sua tradição de participação ativa, figura entre os países que exigem mudanças. O secretário-geral Guterres também manifestou a necessidade de ampliar o número de membros com poder de veto e diversificar a composição para refletir a realidade contemporânea, incluindo potências emergentes além da ordem geopolítica dos anos 1940.

O processo de reforma, conhecido como ONU80, foi lançado pelo secretário-geral no ano passado como iniciativa de modernização e contenção de custos. Até o momento, o processo segue em andamento, e muitos argumentam que a necessidade de reformas é ainda mais evidente.

Os problemas internos da organização devem constar nos discursos dos chefes de Estado, que começarão na terça-feira, com o presidente Lula (PT) assumindo a primeira palestra, seguido posteriormente pelo presidente Trump.

Se estes líderes estiverem dispostos a colaborar na transformação da organização, isso será fundamental. Mas a pergunta persiste: os mesmos dirigentes demonstrarão disposição para trabalhar juntos nesse sentido?

Fonte: Portal Correio

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