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Cotado para Fazenda, Fonteles diz que Lula sabe da necessidade de dívida sustentável, mas quer agenda ‘ousada’

Sobre a possibilidade de comandar área econômica, governador. diz que não falou do assunto com o presidente e afirmou que não cogita essa possibilidade: ‘Eu tenho um compromisso com o povo do Piauí’

O governador reeleito do Piauí, Rafael Fonteles, afirmou em entrevista ao GLOBO que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva tem consciência da necessidade de garantir uma trajetória sustentável para a dívida pública. Para ele, que foi um dos destaques da campanha presidencial no segundo turno e é um dos citados nos bastidores do atual governo como possível nome para o Ministério da Fazenda, esse processo é condição essencial para reduzir os juros e ampliar o crescimento.

Segundo ele, Lula deverá conciliar, em seu quarto mandato, uma agenda mais ousada de desenvolvimento econômico e avanços sociais com o compromisso de responsabilidade fiscal. Fonteles afirmou que não conversou com o presidente sobre política econômica e tampouco sobre a composição do futuro governo. Em relação à possibilidade de assumir o Ministério da Fazenda, afirmou que nunca tratou disso com Lula e ressaltou que não cogitou essa hipótese.

— Eu nunca parei para pensar nessa possibilidade. Continuo dando a mesma resposta porque é a verdade. Eu realmente não vejo essa possibilidade, não cogito essa possibilidade. Eu tenho um compromisso com o povo do Piauí, não fui nem diplomado ainda, nem tomei posse, então eu sei que as coisas se precipitaram muito porque eu me envolvi bastante no segundo turno — disse.

Na avaliação de Fonteles, uma das principais lições da campanha foi a importância de ampliar a conexão do presidente com a população por meio das redes sociais, estratégia que, segundo ele, deverá ser incorporada à gestão para o governo explicar melhor suas ações. Abaixo alguns dos principais trechos da entrevista:

Qual é o rumo que o senhor enxerga, tanto em termos econômicos como políticos, para o governo Lula após a virada e a reeleição no segundo turno?

Eu queria primeiro enfatizar que, apesar de toda essa especulação na mídia, eu não conversei com o presidente, não tive nenhuma tratativa sobre cargo ou mesmo conversa sobre a política econômica do governo.

Mas o senhor descarta aceitar um convite para o ministério da Fazenda?

Quero frisar isso: é uma situação muito inédita, que nunca aconteceu na história do Brasil, de um governador recém-eleito ser convidado para ocupar alguma pasta, então, realmente, eu nunca nem parei para pensar nessa possibilidade. Eu sou um amigo do presidente, estive muito próximo nessa reta final do segundo turno, dei a minha modesta contribuição e, independente de qualquer coisa, eu vou dar sempre a minha opinião para o presidente no sentido de contribuir para que ele faça o melhor mandato da sua história.

Mas essa resposta acaba não sendo uma negativa de que essa possibilidade está na mesa, governador. Se o senhor fosse convidado o senhor aceitaria?

Eu nunca parei para pensar nessa possibilidade. Continuo dando a mesma resposta porque é a verdade. Eu realmente não vejo essa possibilidade, não cogito essa possibilidade. Eu tenho um compromisso com o povo do Piauí, não fui nem diplomado ainda, nem tomei posse, então eu sei que as coisas se precipitaram muito porque eu me envolvi bastante no segundo turno, não pude contribuir no primeiro turno porque eu estava focando na minha eleição. No segundo turno eu pude dar minha contribuição para a questão do presidente utilizar mais as ferramentas digitais para se conectar ainda mais com o povo nessa nova dinâmica social que existe, as pessoas hiper conectadas. A internet é muito importante para o governante se conectar com o seu povo.

E, voltando ao início, como o senhor enxerga o futuro governo Lula?

Eu vejo o presidente determinado a fazer o melhor mandato da história, honrando os compromissos que ele fez com o povo brasileiro durante a caminhada, durante a campanha, sendo inclusive até mais ousado na melhoria de vida do povo e, obviamente, fazendo tudo com responsabilidade fiscal, como sempre ele fez nos seus governos. Eu friso aqui o fato de ele ter feito os oito anos dos dois primeiros mandatos com superávit primário. Depois isso nunca mais se repetiu.

Nesse terceiro mandato, ele herdou um déficit muito grande e foi reduzindo ano após ano, a ponto de estar previsto um pequeno superávit esse ano. É o que a equipe econômica tem buscado.

Mas o senhor enxerga o presidente sendo efetivamente mais contido na parte fiscal do que nesse terceiro mandato, sobretudo do lado da despesa e do crédito público (parafiscal)?

Eu entendo que ele vai conseguir conciliar as duas agendas, com a habilidade política que ele tem. Como ele mesmo frisou, estará ainda mais aberto, essa mudança na sua comunicação digital que teve na campanha, eu acho que isso vai ser extrapolado para o governo. Repito, o presidente está mais aberto a fazer um governo ainda mais ousado do ponto de vista do desenvolvimento, econômico, da melhoria da qualidade de vida do povo, sem descuidar da responsabilidade, fiscal.

É que o senhor sabe que o mercado está querendo sinais mais claros, principalmente do lado da despesa, porque se não conter despesa vai ter que aumentar mais imposto. O que o senhor diria para quem está olhando o governo Lula e teme que será mais do mesmo na área fiscal?

Eu nunca falei com o presidente sobre política econômica. Ele tem falado com a equipe econômica muito competente que ele tem atualmente, desde o ministro Haddad, agora o ministro Dario, o ministro Moretti, são pessoas extremamente competentes, responsáveis e que têm conseguido, repito, fazer um trabalho de equilíbrio fiscal certamente melhor do que o governo anterior (Jair Bolsonaro). As provas disso são inúmeras, mas um exemplo claro é esse da melhoria do resultado primário ano após ano. Essa é uma prova inequívoca da responsabilidade fiscal do presidente. Com relação ao futuro, é o presidente que vai apresentar as ações que ele vai desenvolver tanto na linha do crescimento econômico como na melhoria do gasto público. Obviamente, ele está refletindo sobre isso e, no momento oportuno, ele vai se pronunciar, mas eu não comentei com ele sobre política econômica.

Em nenhum momento nessas três semanas mesmo? Em alguns momentos o presidente se comprometeu de fato com o superávit primário, mas não foi além disso…

Não conversei com ele. As propostas que ele apresentou na campanha, sempre fez em diálogo com a equipe econômica para ter segurança de que seriam exequíveis dentro das regras do arcabouço fiscal para os anos vindouros.

E o senhor, como um governador reconhecido nessa área fiscal, que sugestão o senhor daria para o próximo ciclo?

Olha, se eu for dar alguma sugestão, será primeiro para ele, não vou dar publicamente. Ele é o presidente eleito e tem experiência mais do que suficiente, já foi testado e aprovado no governo e nas urnas várias vezes. Ele vai tomar as medidas nesse caminho que eu já falei, de conciliar a agenda dos ganhos sociais, do crescimento econômico e da responsabilidade fiscal.

O senhor acha que o mercado está exagerando nessa inquietação com o quarto governo Lula?

O mercado tem o seu papel, são agentes econômicos relevantes, tem que ser ouvidos, obviamente. Mas o presidente governa para todos os agentes econômicos, toda a população, não apenas para aqueles que lidam diretamente com o mercado financeiro, que, repito, têm um papel importante, mas não são únicos. Economia não é ciência exata, eu costumo dizer isso. É uma ciência social, então cabe várias interpretações, o melhor caminho em cada circunstância. Os próprios economistas mais ortodoxos, divergem em diversas questões. Ele tem compromisso com a responsabilidade fiscal e com a trajetória da dívida pública sustentável no curto, médio e longo prazo. O presidente tem visão clara de que essa trajetória da dívida deve ser sustentável, inclusive para possibilitar a redução de juros e, consequentemente, permitir o maior crescimento econômico, que é o foco principal dele.

O senhor esteve muito perto do presidente em todo o segundo turno, como sintetizaria o recado das urnas após essa vitória, tanto do ponto de vista econômico quanto do ponto de vista político?

O presidente Lula no segundo turno conseguiu se conectar mais com a população. A população se movimentou mais ativamente nas ruas e o presidente se movimentou mais nas ruas e nas redes. Uma coisa alimenta a outra e eu acho que isso é um ganho importante, essa conexão maior do presidente com o povo e vice-versa, através das redes sociais. Isso permite a ele poder explicar de maneira mais clara e mais ágil as suas ações e as suas propostas, como, ao mesmo tempo, receber do povo o feedback, as demandas, o que a população está achando de cada questão que envolve o poder público. Esse é um ganho enorme que o presidente passou a ter e que ele deve levar essa experiência positiva também para o governo.

A juventude, os idosos, as mulheres tiveram um papel muito relevante nessa vitória do presidente Lula. Então, é claro que ele vai olhar de maneira muito especial para as demandas sociais desses segmentos todos. Ao mesmo tempo, como eu, já falei anteriormente, ele não vai descuidar da questão da responsabilidade fiscal porque, sem equilíbrio fiscal (eu sempre prefiro usar o termo equilíbrio do que ajuste), não vai se ter as condições necessárias para fazer as políticas sociais e econômicas que melhoram a vida do povo. A responsabilidade fiscal, o equilíbrio fiscal, é uma premissa de qualquer governo e o presidente tem consciência disso e sempre demonstrou isso nos seus governos. Então, eu acho que, naturalmente, as pessoas, os agentes econômicos vão perceber essa responsabilidade fiscal do presidente, esse compromisso em garantir uma trajetória sustentável da dívida pública e os mercados, inclusive os mercados financeiros, vão estar em uma situação de normalidade. Eu acredito muito nisso, mas, obviamente, é o presidente que vai. Tratar disso no momento oportuno. Ele vai tirar alguns dias de descanso e deve tratar disso em breve.

O senhor acha que as tratativas sobre política econômica e equipe econômica não são para essa semana, nem para a semana que vem?

Eu acho que ele vai fazer isso até o final do ano, acredito, mas eu não posso falar por ele. Tem um governo a ser concluído, processos em andamento, inclusive em relação à política econômica com essa equipe econômica muito boa que ele tem, com o Dario, com o Moretti, que tem conduzido muito bem o equilíbrio fiscal do país.

O senhor acha que o governo deveria reduzir um pouco o teto de gastos, que cresce a 2,5% acima da inflação?

Eu estou evitando dar qualquer comentário ou opinião sobre política econômica específica porque tem toda essa especulação e eu realmente não falei com o presidente nada sobre isso. Não convém a um governador aliado ao presidente ficar se metendo nisso, dado que esse diálogo não existe.

Na questão política, o presidente vai ter que lidar com um Congresso mais à direita, com uma direita mais radical. Como o senhor vê essa relação e a melhor maneira de lidar com esse Parlamento?

O presidente Lula teve, das últimas três eleições do PT, o melhor resultado. Eu acredito que ele está fortalecido politicamente porque o governante é mais forte quanto mais votos ele tem. Claro que o Congresso é mais à direita, mas o presidente vai ter a habilidade e força suficiente para formar uma maioria ampla e sólida, tanto na Câmara quanto no Senado. O presidente sempre teve essa grande capacidade de negociação, de articulação política, e vai conseguir, nesse mandato, fazer essa governabilidade de maneira ainda mais eficiente do que ele fez anteriormente.

É possível com o atual quadro de emendas parlamentares, em que muitos deputados e senadores têm mais dinheiro que ministros?

Claro que essa questão das emendas é algo relevante, tanto é que está judicializada há bastante tempo. É algo que precisa ser debatido, mas com o próprio Congresso, sobre como melhorar cada vez mais o uso delas em prol do que beneficia realmente a população. Inclusive, uma das propostas de campanha que ele fez foi da tarifa zero aos finais de semana custeada com parte das emendas parlamentares. Claro que isso vai ser uma discussão longa com o Congresso, mas é um exemplo de como o presidente quer que essas emendas sejam utilizadas. Eu não sei quem vai fazer articulação política, não me cabe aqui comentar, mas sem dúvida o presidente sai fortalecido dessa eleição, e com grande capacidade de formar maioria sólida nas duas Casas, com vários partidos. Inclusive (partidos) que apoiaram o candidato adversário poderão, sim, fazer parte dessa aliança em prol do país.

O senhor começa a despontar como uma liderança nacional, já vê no horizonte a possibilidade de alçar voos maiores em 2030, ser um possível candidato do PT à presidência?

Não, não vejo nada disso. Eu estou querendo terminar esse ano meu governo aqui no Piauí muito bem e começar o próximo ainda melhor do que o que fiz nesse primeiro mandato, até porque eu tive mais votos e a responsabilidade é ainda maior.

Por falar em Piauí, os jornais hoje mencionaram que o senhor tem acumulado um déficit primário nesse mandato, mesmo tendo criado uma regra de gastos. Como o senhor explica isso?

O déficit primário é totalmente oriundo das operações de crédito que fizemos para investimentos. O Estado do Piauí tem Capag B+ (classificação de risco fiscal, que vai de A a D), tem despesa de pessoal há vários anos em patamar muito inferior ao limite de alerta, contas bastante equilibradas e com crédito disponível para fazer investimentos. Todo esse resultado primário negativo foi derivado dos investimentos feitos com as operações de crédito. Eu não vejo nenhum problema quando esse aumento de endividamento é para investimento em despesas de capital, até porque essa é uma regra das operações de crédito.

Mas o senhor vê esse cenário de déficit se mantendo nesse próximo quadriênio do senhor?

Não. Acredito que cada vez vai melhorar mais, até porque os investimentos principais já foram feitos e a necessidade de operação de crédito vai diminuindo com o passar do tempo. Eu acredito que o endividamento para investimentos em infraestrutura no caso dos estados, que não mexem com política macroeconômica, não emitem títulos, não emitem dívida, é salutar. Obviamente, quando você tem capacidade de pagamento e de endividamento, que é o caso do Piauí.

O senhor foi muito ativo também na mobilização para melhorar os votos no Nordeste para o presidente Lula no segundo. Qual foi o recado da região para o presidente no primeiro turno, quando ele teve menos votos que em 2022?

A diferença média do percentual de votos do presidente Lula em relação a 2022 no Nordeste foi em torno de 2% a 3% no primeiro turno, dependendo do Estado. Isso, obviamente, acontece, porque houve um crescimento generalizado do bolsonarismo porque a extrema-direita se articulou melhor nas redes sociais. Quando o presidente melhora o desempenho nas redes sociais e nas ruas, a partir de um movimento orgânico, espontâneo das pessoas, quando veem os riscos reais de uma eventual vitória da extrema-direita, essa coisa começa a se inverter, e não apenas no Nordeste. Foi algo generalizado, que demonstra que foi realmente essa comunicação mais efetiva, combinada com movimentos mais espontâneos de ruas. Foi uma virada de mais de 5 pontos percentuais de um turno para o outro. Se é algo homogêneo e uniforme no país inteiro é porque, de fato, a mensagem do presidente chegou de maneira muito mais clara, tanto dos compromissos dele em relação ao futuro do Brasil, como sobre os riscos de uma eventual vitória do adversário.

Mas o senhor não acha que teve um recado no primeiro turno, então?

Veja o caso do Piauí. No Piauí, o PL não elegeu nenhum deputado. Nenhum deputado. Aqui teve uma diferença de 0,9% em relação ao segundo turno de 2022. A variação é muito pequena. E, na prática, a extrema-direita, o PL, não fez nenhum deputado no Piauí. Não quer dizer que o governo acertou em tudo. Sempre há coisas a melhorar. Um tema que o governo federal quer e vai se dedicar mais é o da segurança pública, por exemplo, cuja responsabilidade principal é dos governadores. Esse tema foi levado para o governo federal e, na minha visão, a PEC da segurança tem que ser aprovada para poder dizer até onde o governo federal pode atuar no combate ao crime nos estados.

O senhor defende um ministério à parte para segurança pública?

Claro. Defendo o ministério, o Sistema Único de Segurança Pública, mais recursos e mais poder de coordenação do governo federal no combate ao crime organizado.

CARIRI EM AÇÃO
Com O Globo
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