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Dívida pública recorde nos EUA motivada por cortes fiscais e conflitos internacionais

A dívida pública dos Estados Unidos atingiu US$ 40 trilhões pela primeira vez na história, ultrapassando o marco de US$ 40 trilhões. Essa situação complexa foi influenciada por diversos fatores, incluindo a redução de impostos destinados aos ricos, a inflação provocada pela guerra no Oriente Médio — que impactou os preços dos combustíveis —, além das tarifas à importação implementadas pelo governo de Donald Trump.

Economistas consultados indicam que outros elementos contribuíram para esse cenário: a manutenção elevada dos gastos militares, que gira em torno de US$ 1 trilhão, e o aumento dos pagamentos de juros sobre a dívida, que ascenderam a US$ 1,1 trilhão. Esse último valor representa mais do que o dobro do que foi registrado em 2021, quando os juros consumiram US$ 419 bilhões dos contribuintes.

Entre as causas do aumento dos juros destaca-se a inflação gerada pela guerra e o chamado “risco Trump”, derivado da política agressiva da Casa Branca, que gera incertezas no mercado, evidenciadas pelo conflito tarifário com o Canadá. Especialistas afirmam que essa política pressiona os juros cobrados pelos títulos do Tesouro estadunidense.

Embora o valor de US$ 40 trilhões pareça impressionante, os economistas rejeitam a ideia de que os EUA estejam em risco de insolvência, pois não se consegue pagar o que se deve. Contudo, alertam que a situação fiscal da potência econômica tende a pressionar o Brasil a manter as taxas de juros em nível elevado.

Solvência

O professor do Instituto de Economia da Unicamp Pedro Paulo Zahluth Bastos ressalta que o número de US$ 40 trilhões não indica risco de insolvência porque, entre outros motivos, os EUA emitem a própria moeda e possuem o dólar como principal reserva monetária mundial.

“Um governo assim não quebra contra a vontade. Se o mercado não quiser esses títulos ao preço corrente, o FED [Federal Reserve, o Banco Central dos EUA] pode comprá-los. Foi o que fez em 2020, quando expandiu o balanço em quase US$ 3 trilhões em três meses,” explicou.

Após o anúncio da dívida pública recorde, a Secretaria de Tesouro dos EUA acelerou as operações de compra de títulos no mercado, que devem dobrar de US$ 2 bilhões para US$ 4 bilhões a partir de 9 de setembro.

Juros dos títulos sobem

Desde a pós-Segunda Guerra Mundial, os títulos do Tesouro dos EUA são considerados o ativo “mais seguro” globalmente. Segundo o professor Pedro Bastos, ainda não há desconfiança no mercado quanto à capacidade de pagamento da dívida pelos EUA.

“Os estrangeiros continuam comprando. O que subiu foi o preço cobrado, não a recusa em comprar,” pontuou, acrescentando que dois terços da dívida no mercado estão em mãos domésticas nos EUA e US$ 4,5 trilhões estão depositados no próprio FED, o que mitiga riscos de insolvência.

Além disso, US$ 8 trilhões da dívida constam nas mãos do governo, enquanto US$ 32 trilhões estão no mercado: “O mercado detém cerca de 100% do PIB em dívida, similar ao recorde de 106% de 1946, ao fim da Segunda Guerra Mundial,” afirma o especialista da Unicamp.

O único risco de calote dos EUA seria político, especificamente quando o Congresso se recusa a autorizar o aumento do teto da dívida.

“O único risco ligado à dívida hoje é o de juros longos mais altos. Mas a causa imediata não é o tamanho da dívida. É a inflação, puxada pelo petróleo do conflito no Oriente Médio e pelas tarifas,” explicou.

Em apenas cinco meses, a dívida cresceu US$ 1 trilhão, superando as expectativas de analistas. O Escritório de Orçamento do Congresso dos EUA (CBO) calculava que chegaria aos US$ 40 trilhões apenas em 2027.

Corte de imposto no topo

A política econômica focada no corte de impostos para os ricos, adotada durante os dois mandatos de Trump, motivou parte do aumento do endividamento ao reduzir a arrecadação, conforme explica o economista Pedro Faria.

“O Trump adota essa política característica dos republicanos, que é retirar a tributação dos ricos sob a justificativa de tentar expandir a economia. O que se observa é um aumento do endividamento dos EUA no governo Trump 2 por conta dessa abordagem de política econômica,” esclarece.

Em 2025, o governo Trump aprovou projeto com maior corte de impostos para ricos, o que aumentou a previsão do déficit dos EUA em US$ 4,7 trilhões em dez anos, ao mesmo tempo em que cortou US$ 1 trilhão da saúde pública nesse período.

O professor da Unicamp Pedro Bastos acrescentou que a menor tributação dos ricos nos EUA contribuiu para concentrar a renda do país, fazendo da dívida recorde um sintoma do conflito pela distribuição da riqueza dentro dos Estados Unidos.

“A receita do imposto sobre lucros caiu 23% neste ano fiscal. Já os juros vão para quem tem títulos: fundos, bancos e as famílias mais ricas. O 1% mais rico detém metade das ações do país,” comentou Bastos.

O especialista da Unicamp argumentou que os EUA não gastam excessivamente, mas arrecadam de menos. A carga tributária nos EUA é de aproximadamente 25% do PIB, contra 34% na média da OCDE (Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico, que reúne países entre os mais desenvolvidos do mundo).

Risco Trump

Para o especialista Pedro Faria, o que pode preocupar o Tesouro dos EUA é a tendência observada entre governos, estados e empresas em todo o mundo de reduzir o uso de títulos dos EUA como opção para manter a liquidez da economia.

“Diversos governos têm reduzido o estoque de títulos dos EUA, como Brasil e China. Isso porque veem a política econômica da Casa Branca como errática e não muito racional. Os agentes econômicos têm medo de se expor a sanções ou ter seus ativos congelados, como ocorreu diversas vezes,” pontuou.

Para o economista da Unicamp Pedro Bastos, os juros mais altos cobrados pelos títulos dos EUA representam a resposta do mercado aos ataques da política econômica da Casa Branca aos pilares que conferem confiança a esses papéis: um FED autônomo, tribunais judiciais independentes e aliados sendo tratados como aliados.

“Por exemplo, o uso do acesso ao mercado americano como chantagem [tarifas]. Os bancos centrais compram ouro em ritmo recorde desde 2022 por isso, não pelo tamanho da dívida. Se a dívida um dia virar problema, não será por chegar a US$ 40 trilhões ou US$ 50 trilhões.”

Complementando, Bastos afirma que para o especialista, é o “risco Trump” que pressiona o rendimento dos títulos públicos de 30 anos dos EUA, que alcançaram 5,33% em 18 de agosto, o maior nível desde 2007. Esse nível de juros dos títulos longos é o que pressiona os gastos com a dívida do país norte-americano.

Apesar dos juros mais altos cobrados pelos títulos de longo prazo do Tesouro dos EUA, Bastos avalia que o mercado continua investindo nos papéis do Estado do país norte-americano.

“A China reduziu o estoque de títulos dos EUA de US$ 1,3 trilhão, em 2013, para US$ 700 bilhões, e nada aconteceu. O dólar ainda responde por 57% das reservas mundiais, o euro por 20% e o yuan por 2%,” ponderou.

Por fim, o especialista alerta que para o especialista, é o “risco Trump” que pressiona o rendimento dos títulos públicos de 30 anos dos EUA, que alcançaram 5,33% em 18 de agosto, o maior nível desde 2007. Esse nível de juros dos títulos longos é o que pressiona os gastos com a dívida do país norte-americano.

===FIM===

Fonte: Portal Correio

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