Antes do segundo turno, analistas previam nova queda de 0,25 ponto percentual após reunião do Copom. Desde março, taxa foi cortada cinco vezes
Na primeira reunião após as eleições, o Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central (BC) decidiu hoje, por unanimidade, interromper o ciclo de corte da taxa básica de juros, a Selic, e manteve o patamar atual de 13,75% ao ano.
Com isso, a Taxa Selic segue no patamar mais baixo desde março de 2025, quando estava em 13,25% ao ano. Em comunicado, o BC aponta o cenário macroeconômico desafiador para justificar sua “cautela” e não antecipa qualquer sinal sobre o que deve fazer na próxima reunião do Copom, em dezembro.
Desde março, quando a Selic estava em 15% ao ano, a autoridade monetária vinha reduzindo gradualmente a taxa. Foram cinco cortes consecutivos de 0,25 ponto percentual até a interrupção desse ciclo hoje.
A taxa é o principal instrumento do BC para controlar a inflação. A meta é 3% ao ano, com intervalo de tolerância de 1,5 ponto percentual para cima ou para baixo. O IPCA, índice inflacionário oficial do país, acumula alta de 4,58% em 12 meses até setembro.
Mercado antecipou manutenção
A medida era esperada pela maior parte dos analistas de mercado, diante de incertezas em relação à condução da política fiscal do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, reeleito para o quarto mandato, a partir de 2027. Antes do segundo turno, o mercado financeiro previa a maior probabilidade de vitória de Flávio Bolsonaro (PL) com uma agenda mais direcionada ao controle de despesas públicas. O resultado eleitoral provocou reações no mercado financeiro, como a alta do dólar, que tem impacto na inflação e torna o cenário mais difícil para o BC continuar a cortar juros.
A trajetória de queda da taxa teve início em março deste ano, quando permanecia em 15% desde junho de 2025. Em todo esse ciclo, o Copom adotou uma postura cautelosa e gradualista, cortando os juros em 0,25 ponto percentual (p.p.) por cinco vezes consecutivas.
“O Copom decidiu manter a taxa Selic em 13,75% a.a., e entende que essa decisão é compatível com a estratégia de convergência da inflação para o redor da meta ao longo do horizonte relevante. Sem prejuízo de seu objetivo fundamental de assegurar a estabilidade de preços, essa decisão também implica suavização das flutuações do nível de atividade econômica e fomento do pleno emprego”, informou o BC, em comunicado.
Cenário desafiador aqui e lá fora
Para o Copom, no contexto atual, caracterizado por uma Selic substancialmente contracionista, aumento significativo das incertezas, expectativas de inflação mais elevadas e desaceleração da atividade econômica doméstica mais acentuada, o cenário atual é desafiador para a política monetária, “demandando serenidade e cautela na sua condução”.
Sem dar sinais sobre os próximos passos, o BC diz que seguirá acompanhando a evolução do cenário, para manter a restrição adequada de forma a assegurar a convergência da inflação à meta.
No texto, o BC afirma que o ambiente externo tornou-se mais adverso em função do prolongamento dos conflitos armados no Oriente Médio, com impactos sobre o preço do petróleo e derivados, e da tendência de alta nos juros nas economias avançadas.
Em relação ao cenário doméstico, o Copom diz que o conjunto dos indicadores divulgados desde a última reunião aponta para uma moderação mais acentuada da atividade econômica. O diretores do BC, liderados pelo presidente da instituição, Gabriel Galípolo, avaliaram que o mercado de trabalho permanece resiliente, porém apresentando sinais de desaquecimento na margem.
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A projeção de inflação do BC para o segundo trimestre de 2028, atual horizonte relevante de política monetária, elevou-se para 3,5% no cenário de referência, com a incorporação dos choques de oferta materializados desde a última reunião. Entre os riscos de alta para o cenário inflacionário e as expectativas de inflação, os diretores do BC que integram o Copom destacaram uma desancoragem das expectativas de inflação por período mais prolongado e uma maior resiliência na inflação de serviços.
O colegiado também mencionou uma conjunção de políticas econômicas externa e interna que tenham impacto inflacionário maior que o esperado, por exemplo, por meio de uma taxa de câmbio persistentemente mais alta.
“O Comitê segue acompanhando como os desenvolvimentos da política fiscal doméstica impactam a política monetária e os ativos financeiros, reforçando a postura de cautela em cenário de maior incerteza”, afirma o comunicado.
O BC diz que os indicadores correntes de atividade mantêm-se consistentes com uma trajetória de desaceleração no acumulado de 2026 e que monitora com atenção a desancoragem das expectativas de inflação para prazos mais longos na medida em que esta contribui para a determinação dos preços e aumenta o custo de desinflação.
Para o superintendente de pesquisa econômica do Itaú, Fernando Gonçalves, o cenário é tão desafiador que o Copom deixou em aberto o que fará com a Selic na próxima reunião.
— O BC não quis sinalizar nada pra frente, ficou um pouco em aberto. Mas, ao mesmo tempo, a gente entende que ele botou uma barra alta, por exemplo, para elevar a taxa, quando diz no comunicado que os juros estão substancialmente contracionistas. Estão num patamar que desacelera a atividade econômica promove uma queda da inflação — disse Gonçalves.
O economista da Polo Capital Arnaldo Lima citou dois fatores que citados pelo BC para manter a Selic: a atividade econômica menos aquecida, mais moderada, o que dificultaria elevar os juros e pressão inflacionária, o que pesou na decisão do Copom, na sua visão.
— Eles deixaram bem claro que os efeitos sobre a desaceleração da atividade econômica estão bem mais substanciais do que na reunião passada. Mas o que sobrepôs mesmo foi a questão da inflação — disse Lima, citando também incertezas em relação à guerra no cenário externo e interno, a questão da política fiscal do governo.
Luiz Otavio Leal, economista-chefe da G5 Partners, também destacou o cenário mais adverso como consequência da continuidade dos conflitos no Oriente Médio e do aumento dos juros nas economias avançadas e no interno. Já para o cenário interno, ele vê que o comunicado traz “certa ambiguidade” com uma clara desaceleração econômica, que incluiu também o mercado de trabalho – antes visto como “resiliente” e “aquecido” – ao mesmo tempo em que a inflação corrente e as expectativas aceleram.
— Se, por um lado a deterioração do cenário e as incertezas sobre os próximos passos da política econômica do governo ensejavam a manutenção dos juros, por outro, a piora das condições de crédito, tanto para os consumidores, quanto para empresas, indicava a necessidade de reduzir os juros dos patamares atuais. No fim, acreditamos que venceu o bom senso de não fazer marola em um momento de muita volatilidade nos mercados brasileiros — afirmou Leal.
Projeções revisadas
Os dados do boletim semanal Focus do BC (que reúne projeções de agentes de mercado) mostram mudanças nas projeções do mercado para a Selic, após a vitória do presidente Lula no segundo turno das eleições. Predomina entre analistas que a continuidade da atual política econômica dificulta a redução dos juros diante da resistência do governo de promover um ajuste fiscal.
As expectativas de inflação para 2026 e 2027 apuradas pela pesquisa Focus distanciaram-se adicionalmente em relação à meta (de 3% ao ano) desde a última reunião do Copom, situando-se em 5,2% e 4,8%, respectivamente.
As estimativas feitas na penúltima semana de outubro indicavam taxa de 13,25% no final deste ano, com um corte nessa reunião de novembro e outra na seguinte, marcada para os dias 8 e 9 de dezembro.
Contudo, houve uma deterioração nas expectativas do mercado, como aumento do dólar e da cotação do petróleo, com efeitos sobre a inflação e elevação da taxa de juros futuros, decorrente do aumento da dívida pública.
Para analistas, as revisões refletem uma piora na percepção de risco fiscal e da tendência de desvalorização do real frente ao dólar, movimentos que ampliam as pressões sobre a inflação e podem limitar o espaço para o BC reduzir a Selic.
Com isso, antes da decisão do Copom, o mercado financeiro migrou em peso para a aposta na manutenção da Taxa Selic em 13,75%, deixando para trás a expectativa majoritária anterior de um corte adicional de 0,25 ponto percentual no Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central (BC) graças aos sinais de desaceleração da atividade econômica.
O movimento que se sucedeu ao pleito é justificado pelos agentes em razão do aumento do risco fiscal e da disparada do dólar, que acumulou alta de 9% na semana passada, com efeitos diretos na inflação que o BC quer combater.
Parte da depreciação cambial brasileira é resultado de um reposicionamento do mercado após a vitória de Lula, uma vez que era majoritária a expectativa de que Flávio vencesse nas urnas. De outro lado, a alta do dólar reflete a baixa expectativa de um ajuste fiscal robusto em um novo governo petista.
O IPCA, índice inflacionário oficial, está acima da meta, em 4,58% em 12 meses até setembro. A autoridade monetária conduz os juros básicos para colocar a inflação na meta de 3,0% dentro do horizonte relevante, que nesta reunião será o segundo trimestre de 2028. A regra, considerando o intervalo de tolerância, é considerada cumprida se ficar entre 1,5% e 4,5%.
Incertezas internas e externas
Como tem sido costume nas últimas reuniões do Copom, em setembro, o BC não deu nenhuma sinalização direta sobre os seus planos para o ciclo de juros.
Diante do cenário de riscos, como a guerra no Irã, o El Niño, o futuro da política econômica de Lula e a desancoragem das expectativas inflacionárias no país, o Copom tem pregado “cautela e serenidade” e esperado a evolução dos dados até cada reunião para definir os rumos da Selic.
O único compromisso da autoridade monetária tem sido manter a Selic em um nível de restrição da atividade econômica capaz de conduzir a inflação à meta de 3%.
