{"id":114389,"date":"2019-09-08T15:28:28","date_gmt":"2019-09-08T18:28:28","guid":{"rendered":"http:\/\/www.caririemacao.com\/1\/?p=114389"},"modified":"2019-09-08T15:28:28","modified_gmt":"2019-09-08T18:28:28","slug":"no-seculo-21-analfabetismo-resiste-como-desafio-nao-superado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.caririemacao.com\/1\/2019\/09\/08\/no-seculo-21-analfabetismo-resiste-como-desafio-nao-superado\/","title":{"rendered":"No s\u00e9culo 21, analfabetismo resiste como desafio n\u00e3o superado"},"content":{"rendered":"\n<p>Este domingo (8) marca a passagem do Dia Internacional da Alfabetiza\u00e7\u00e3o, data institu\u00edda pela Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas para a Educa\u00e7\u00e3o, Ci\u00eancia e Cultura (Unesco), no s\u00e9culo passado (em 1966), para incentivar o pleno letramento da popula\u00e7\u00e3o internacional.<\/p>\n\n\n\n<p>Apesar da melhoria do acesso \u00e0s escolas, nos \u00faltimos 53 anos em diversos pa\u00edses, ainda existem em todo planeta 750 milh\u00f5es de jovens e adultos que n\u00e3o sabem ler nem escrever.<\/p>\n\n\n\n<p>Se todas essas pessoas morassem em um \u00fanico pa\u00eds, a popula\u00e7\u00e3o s\u00f3 seria inferior a da China e da \u00cdndia, que t\u00eam cada uma mais de 1 bilh\u00e3o de habitantes. A na\u00e7\u00e3o hipot\u00e9tica do analfabetismo tem mais do que o dobro de toda a popula\u00e7\u00e3o dos Estados Unidos. Nesse contingente, duas de cada tr\u00eas pessoas que n\u00e3o sabem ler s\u00e3o mulheres.<\/p>\n\n\n\n<p>Ainda segundo a Unesco, o problema do analfabetismo perdurar\u00e1 por muito tempo. No ano passado, 260 milh\u00f5es de crian\u00e7as e adolescentes n\u00e3o estavam matriculados nas escolas.<\/p>\n\n\n\n<p>De acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estat\u00edstica (IBGE), em 2018, havia 11,3 milh\u00f5es de pessoas analfabetas com 15 anos ou mais de idade. Se todos residissem na mesma cidade, este lugar s\u00f3 seria menos populoso que S\u00e3o Paulo \u2013 a capital paulista tem popula\u00e7\u00e3o estimada de 12,2 milh\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p>A taxa do chamado \u201canalfabetismo absoluto\u201d no Brasil \u00e9 de 6,8%. Como ocorre com os dados internacionais, o analfabetismo n\u00e3o atinge a todos da mesma forma.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cNa an\u00e1lise por cor ou ra\u00e7a, em 2018, 3,9% das pessoas de 15 anos ou mais \u2013 de cor branca \u2013 eram analfabetas, percentual que se eleva para 9,1% entre pessoas de cor preta ou parda. No grupo et\u00e1rio 60 anos ou mais, a taxa de analfabetismo das pessoas de cor branca alcan\u00e7a 10,3% e, entre as pessoas pretas ou pardas, amplia-se para 27,5%\u201d, descreve nota do IBGE.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Netos e av\u00f3s<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Segundo os pesquisadores ouvidos pela Ag\u00eancia Brasil, o volume de analfabetos \u00e9 bastante alto e n\u00e3o diminui por falta de investimentos na Educa\u00e7\u00e3o de Jovens e Adultos (EJA).<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cPara um gestor p\u00fablico, prefeito, governador, interessa muito mais investir em educa\u00e7\u00e3o b\u00e1sica, n\u00e3o na Educa\u00e7\u00e3o de Jovens e Adultos, porque \u00e9 uma parcela muito pequena\u201d, critica Maria do Ros\u00e1rio Longo Mortatti, professora titular da Universidade Estadual Paulista (Unesp) e tamb\u00e9m presidente em\u00e9rita da Associa\u00e7\u00e3o Brasileira de Alfabetiza\u00e7\u00e3o. Segundo ela, o investimento no EJA \u00e9 \u201csecundarizado\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Por traz desse comportamento, h\u00e1 antigo racioc\u00ednio entre gestores p\u00fablicos de que a \u201cdin\u00e2mica demogr\u00e1fica\u201d, com a renova\u00e7\u00e3o das gera\u00e7\u00f5es, extinguiria o analfabetismo absoluto no passar dos anos, conforme lembra Maria Clara Di Pierro, professora de Educa\u00e7\u00e3o da Universidade de S\u00e3o Paulo (USP), especializada em pol\u00edticas p\u00fablicas de jovens e adultos.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cEsse raciocino n\u00e3o \u00e9 novo. O ex-ministro [da educa\u00e7\u00e3o] j\u00e1 falecido Paulo Renato usava muito esse argumento, dizendo \u2018vamos concentrar os nossos esfor\u00e7os nas novas gera\u00e7\u00f5es. A sucess\u00e3o geracional se encarregar\u00e1 de eliminar o analfabetismo\u2019. Alguns pesquisadores e jornalistas compartilham essa vis\u00e3o, mas ela \u00e9 duplamente equivocada\u201d, aponta.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cDe um lado, porque a gente continua produzindo analfabetismo, n\u00e3o se trata apenas de um res\u00edduo do passado e os idosos est\u00e3o vivendo mais. De outro lado, n\u00f3s temos o analfabetismo funcional mediado pelo sistema educativo. Ent\u00e3o, essa esperan\u00e7a \u2018vamos deixar os velhinhos morrerem para acabar com o problema\u2019 \u00e9 uma ilus\u00e3o, e n\u00e3o faz frente ao que temos de enfrentar\u201d, complementa Di Pierro.<\/p>\n\n\n\n<p>A mesma vis\u00e3o tem a professora Francisca Izabel Pereira Maciel, diretora do Centro de Alfabetiza\u00e7\u00e3o, Leitura e Escrita da Faculdade de Educa\u00e7\u00e3o da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Ela ressalta que o poder p\u00fablico \u201cn\u00e3o pode descuidar do analfabetismo absoluto\u201d e que \u201c\u00e9 direito das pessoas aprender a ler e escrever\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Ainda que o analfabetismo absoluto atinja predominantemente os mais idosos, a professora Francisca Izabel salienta que em muitas fam\u00edlias s\u00e3o os av\u00f3s que cuidam dos netos enquanto os pais trabalham. A falta de escolaridade entre os mais velhos dificulta o acompanhamento escolar e pode desestimular o interesse pelos estudos entre os mais novos.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Analfabetismo funcional<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>As estat\u00edsticas do IBGE consideram as pessoas com 15 anos ou mais que foram declaradas como analfabetas em pesquisa peri\u00f3dica de amostra domiciliar. Os n\u00fameros, no entanto, podem ser ainda mais graves se for medida a \u201ccapacidade de compreender e utilizar a informa\u00e7\u00e3o escrita e refletir sobre ela\u201d \u2013 como faz o estudo Indicador de Alfabetismo Funcional, elaborado pelo Instituto Paulo Montenegro e pela A\u00e7\u00e3o Educativa.<\/p>\n\n\n\n<p>Testes cognitivos aplicados no ano passado em 2.002 pessoas residentes em \u00e1reas urbanas e rurais de todo o pa\u00eds verificou que 29% das pessoas podem ser consideradas analfabetas funcionais e que n\u00e3o superam o n\u00edvel rudimentar de profici\u00eancia. Apenas 12% da popula\u00e7\u00e3o \u00e9 considera \u201cproficiente\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Roberto Catelli Jr., coordenador Adjunto da A\u00e7\u00e3o Educativa, explica que o analfabeto funcional \u00e9 considerado a pessoa \u201ccapaz de identificar palavras, n\u00fameros, assinar o nome e ler frase. Mas n\u00e3o consegue realizar tarefa se precisar ler um pouco mais que isso \u2013 um par\u00e1grafo de um texto da vida cotidiana\u201d, como recorte de jornal, um cartaz ou at\u00e9 mesmo uma receita de bolo.<\/p>\n\n\n\n<p>A propor\u00e7\u00e3o de analfabetos funcionais no Brasil totaliza 38 milh\u00f5es de pessoas. O volume dessa popula\u00e7\u00e3o \u00e9 maior que quase todos os estados brasileiros, s\u00f3 perde para o total de residentes no Estado de S\u00e3o Paulo (41,2 milh\u00f5es).<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Pol\u00edtica de alfabetiza\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Os problemas de alfabetiza\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m s\u00e3o assinalados pelo Minist\u00e9rio da Educa\u00e7\u00e3o (MEC) que est\u00e1 iniciando a implanta\u00e7\u00e3o da Pol\u00edtica Nacional de Alfabetiza\u00e7\u00e3o (PNA). O caderno de apresenta\u00e7\u00e3o da PNA consolida uma s\u00e9rie de indicadores educacionais, entre eles os resultados da Avalia\u00e7\u00e3o Nacional da Alfabetiza\u00e7\u00e3o (ANA), feita em 2016, que contabiliza que \u201c54,73% de mais de 2 milh\u00f5es de alunos concluintes do 3\u00ba ano do ensino fundamental apresentaram desempenho insuficiente no exame de profici\u00eancia em leitura\u201d. Na mesma pesquisa, um ter\u00e7o dos alunos apresentavam n\u00edveis \u201cinsuficientes\u201d em escrita.<\/p>\n\n\n\n<p>Outros dados compilados pelo MEC s\u00e3o os resultados do Programa Internacional de Avalia\u00e7\u00e3o dos Estudantes, mais conhecido pela sigla Pisa , que em ingl\u00eas significa Programme for International Student Assessment. Conforme a avalia\u00e7\u00e3o, o Brasil ficou em 59\u00ba lugar em leitura num ranking de 70 pa\u00edses.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cOs resultados obtidos pelo Brasil nas avalia\u00e7\u00f5es internacionais e os pr\u00f3prios indicadores nacionais revelam um grave problema no ensino e na aprendizagem de leitura, de escrita e de matem\u00e1tica. \u00c9 uma realidade que precisa ser mudada. Por isso a Pol\u00edtica Nacional de Alfabetiza\u00e7\u00e3o pretende oferecer \u00e0s redes e aos alunos brasileiros, por meio de programas e a\u00e7\u00f5es, a valiosa contribui\u00e7\u00e3o das ci\u00eancias cognitivas, especialmente da ci\u00eancia cognitiva da leitura. Uma pol\u00edtica de alfabetiza\u00e7\u00e3o eficaz ter\u00e1 reflexos positivos n\u00e3o apenas na educa\u00e7\u00e3o b\u00e1sica, mas em todo o sistema educacional do pa\u00eds\u201d, aponta o ministro Abraham Bragan\u00e7a de Vasconcellos Weintraub em nota de apresenta\u00e7\u00e3o da PNA.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Desigualdade social<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Conforme os especialistas ouvidos pela Ag\u00eancia Brasil, o analfabetismo resiliente no Brasil, absoluto ou funcional, reflete a exclus\u00e3o do passado, faz sombra ao presente e mina possibilidades do futuro.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cA discuss\u00e3o sobre analfabetismo se inicia no s\u00e9culo 19 com o Brasil independente querendo se tornar na\u00e7\u00e3o como uma quest\u00e3o inicialmente sobre quem tinha direito. Era uma quest\u00e3o de voto. Quem podia votar\u201d, ressalta Maria do Ros\u00e1rio Longo Mortatti, professora da Unesp.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cExiste uma desigualdade social que se espelha na pr\u00f3pria desigualdade educacional. As oportunidades n\u00e3o s\u00e3o iguais para todos. Existe uma desvaloriza\u00e7\u00e3o da educa\u00e7\u00e3o para pessoas de baixa renda\u201d, lamenta Roberto Catelli Jr., da A\u00e7\u00e3o Educativa, ao pensar sobre as dificuldades atuais do pa\u00eds acabar com o analfabetismo.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cChegar \u00e0 idade adulta na condi\u00e7\u00e3o de analfabeto numa sociedade letrada predominantemente urbana, grafoc\u00eantrica [centrada na escrita] \u00e9 uma situa\u00e7\u00e3o que ocorre por processo de exclus\u00e3o social que s\u00e3o m\u00faltiplos, que n\u00e3o s\u00e3o estritamente educacionais\u201d, opina a professora Maria Clara Di Pierro, da USP, prevendo a perpetua\u00e7\u00e3o do quadro social.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cN\u00e3o \u00e9 um problema estritamente educativo. \u00c9 um sintoma cultural de um processo mais amplo de exclus\u00e3o. Reverter isso para os grupos mais vulner\u00e1veis requer mais pol\u00edticas intersetoriais\u201d, aconselha.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Este domingo (8) marca a passagem do Dia Internacional da Alfabetiza\u00e7\u00e3o, data institu\u00edda pela Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas para a Educa\u00e7\u00e3o, Ci\u00eancia e Cultura (Unesco),&hellip; <\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":95794,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"sfsi_plus_gutenberg_text_before_share":"","sfsi_plus_gutenberg_show_text_before_share":"","sfsi_plus_gutenberg_icon_type":"","sfsi_plus_gutenberg_icon_alignemt":"","sfsi_plus_gutenburg_max_per_row":"","footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-114389","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-o-site"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.caririemacao.com\/1\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/114389","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.caririemacao.com\/1\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.caririemacao.com\/1\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.caririemacao.com\/1\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.caririemacao.com\/1\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=114389"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.caririemacao.com\/1\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/114389\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":114392,"href":"https:\/\/www.caririemacao.com\/1\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/114389\/revisions\/114392"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.caririemacao.com\/1\/wp-json\/wp\/v2\/media\/95794"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.caririemacao.com\/1\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=114389"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.caririemacao.com\/1\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=114389"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.caririemacao.com\/1\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=114389"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}