{"id":132412,"date":"2019-11-04T09:33:31","date_gmt":"2019-11-04T12:33:31","guid":{"rendered":"http:\/\/www.caririemacao.com\/1\/?p=132412"},"modified":"2019-11-04T09:33:31","modified_gmt":"2019-11-04T12:33:31","slug":"enem-nao-aborda-temas-referentes-a-ditadura-militar-pela-1a-vez-desde-2009","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.caririemacao.com\/1\/2019\/11\/04\/enem-nao-aborda-temas-referentes-a-ditadura-militar-pela-1a-vez-desde-2009\/","title":{"rendered":"Enem n\u00e3o aborda temas referentes \u00e0 ditadura militar pela 1\u00aa vez desde 2009"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A primeira edi\u00e7\u00e3o do Enem sob o governo Jair Bolsonaro (PSL) foi tamb\u00e9m a primeira em pelo menos oito anos que n\u00e3o trouxe nenhuma quest\u00e3o relativa \u00e0 ditadura militar (1964-1985) nas&nbsp;<a href=\"https:\/\/paraibaonline.com.br\/2019\/11\/mec-investiga-possivel-vazamento-de-prova-do-enem-deste-domingo\/\">provas de ci\u00eancias humanas e linguagens<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O levantamento foi feito pela Folha de S.Paulo com base em todas as edi\u00e7\u00f5es do exame desde 2009, quando ele adquiriu o atual formato.<ins><\/ins><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No ano passado, o per\u00edodo apareceu em uma quest\u00e3o sobre o discurso do presidente Jo\u00e3o Goulart no que ficou conhecido como Com\u00edcio da Central, antes da sua deposi\u00e7\u00e3o, e em outra com uma carta do cartunista Henfil ao ent\u00e3o presidente Ernesto Geisel, contendo cr\u00edticas \u00e0 negativa de passaportes a opositores.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em outros anos, foram abordados temas como a Opera\u00e7\u00e3o Condor, que uniu governos do Cone Sul para persegui\u00e7\u00e3o de advers\u00e1rios; a morte do jornalista Vladimir Herzog; e a pol\u00edtica econ\u00f4mica do regime.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em 2011, a prova n\u00e3o citou explicitamente a ditadura, mas o per\u00edodo imediatamente anterior ao golpe, em quest\u00e3o sobre o CPC (Centro Popular de Cultura) da Uni\u00e3o<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Nacional dos Estudantes. A pergunta abordava qual era o entendimento dos setores conservadores e de direita sobre bra\u00e7o cultural da entidade estudantil, fechado logo ap\u00f3s 1964 \u2013uma men\u00e7\u00e3o clara ao contexto que culminou na ditadura.<ins><\/ins><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O ano de 2009, em que o Enem adquiriu o atual formato, foi o \u00fanico desde ent\u00e3o em que a ditadura n\u00e3o apareceu nas provas de linguagens e ci\u00eancias humanas. Uma das perguntas, no entanto, fazia refer\u00eancia \u00e0s revoltas de 1968 que ocorreram em todo o mundo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Para o professor Giba Alvarez, do Cursinho da Poli, chamou a aten\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m a aus\u00eancia de perguntas sobre a Era Vargas (1930-1945).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em sua avalia\u00e7\u00e3o, as omiss\u00f5es s\u00e3o fruto do trabalho da comiss\u00e3o criada pelo Inep para fazer uma triagem ideol\u00f3gica da prova. \u201cFicou evidente a retirada de temas que pudessem gerar pol\u00eamica. Com isso, virou uma prova ideol\u00f3gica\u201d, afirma o professor.<ins><\/ins><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ao longo de toda a sua carreira pol\u00edtica, o presidente Jair Bolsonaro teceu cr\u00edticas \u00e0 historiografia predominante sobre a ditadura militar. Em mar\u00e7o, ele chegou a pedir que as unidades militares comemorassem os 55 anos do golpe que derrubou Jo\u00e3o Goulart.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Dias ap\u00f3s ganhar a elei\u00e7\u00e3o de 2018, Bolsonaro criticou uma das quest\u00f5es do exame daquele ano, que mencionava um dialeto usado por gays e travestis, e afirmou que sua gest\u00e3o iria \u201ctomar conhecimento da prova\u201d antes da aplica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em mar\u00e7o, o Inep (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais), respons\u00e1vel pelo exame, nomeou uma comiss\u00e3o para fazer uma an\u00e1lise ideol\u00f3gica das quest\u00f5es. O resultado n\u00e3o veio a p\u00fablico.<ins><\/ins><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c0 Folha, Alexandre Lopes, presidente do instituto, disse tr\u00eas semanas antes da realiza\u00e7\u00e3o do Enem, que a medida n\u00e3o impactaria o que se espera dos candidatos. \u201cVamos avaliar o conhecimento do aluno, buscar uma prova mais neutra poss\u00edvel\u201d, afirmou.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Cinema, SUS e ONU Os pouco mais 5 milh\u00f5es de inscritos tiveram de responder a 90 quest\u00f5es distribu\u00eddas entre as \u00e1reas de linguagens (l\u00edngua portuguesa, ingl\u00eas ou espanhol e literatura), geografia, hist\u00f3ria, e uma reda\u00e7\u00e3o cujo tema foi \u201cDemocratiza\u00e7\u00e3o do acesso ao cinema no Brasil\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Se n\u00e3o houve men\u00e7\u00e3o a ditadura, a prova trabalhou com temas sociais como a popula\u00e7\u00e3o quilombola, SUS (Sistema \u00danico de Sa\u00fade), Conselho de Seguran\u00e7a da ONU e a Declara\u00e7\u00e3o Universal dos Direitos Humanos, entre outros.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O professor Leandro Vieira, que leciona sociologia e filosofia na plataforma online ProEnem, do Rio de Janeiro, chamou a primeira parte do exame de a \u201cmais filos\u00f3fica da hist\u00f3ria\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u201cApareceu&nbsp;um desfile de fil\u00f3sofos como Michel Foucault, Kant, Maquiavel,&nbsp;Ren\u00e9&nbsp;Descartes,&nbsp;Adam&nbsp;Smith,&nbsp;Hannah&nbsp;Arendt&nbsp;e&nbsp;Jacques Derrida\u201d, afirmou. \u201cSurpreendeu-me essa quantidade de te\u00f3ricos diante do discurso do presidente Jair Bolsonaro\u201d, disse.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A estudante Ingrid Arag\u00e3o, 18, que j\u00e1 fez a prova tr\u00eas vezes -duas como treineira-, achou o Enem mais f\u00e1cil que o de 2018. Questionada sobre quest\u00f5es e temas que chamaram a sua aten\u00e7\u00e3o, ela cita que uma quest\u00e3o sobre refugiados a partir de um texto de Derrida.<ins><\/ins><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em literatura, Arag\u00e3o conta que havia quest\u00f5es que abordaram romantismo e expressionismo. J\u00e1 em gram\u00e1tica, figuras de linguagem e interpreta\u00e7\u00e3o de texto foram recorrentes.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Reinaldo Lopes Donadi, 36, fez o exame pela segunda vez neste ano e quer cursar psicologia. \u00c0 Folha, Donadi diz que a prova tinha falhas de impress\u00e3o que dificultavam a leitura, mas que, no geral, o maior inc\u00f4modo foi a reda\u00e7\u00e3o. \u201cO tema era cinema, eu n\u00e3o acompanho muito isso, falar sobre o assunto foi complicado pra mim.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Caio Godoy, 17, prestou o Enem para ingressar em economia em S\u00e3o Carlos. Ele achou o tema da reda\u00e7\u00e3o dif\u00edcil e politizado, mas acredita que conseguiu \u201cdesenrolar\u201d o tema. Segundo ele, um dos textos de apoio trazia dados sobre pessoas que iam aos cinemas ou assistiam filmes em casa.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Sobre as quest\u00f5es de linguagens, ele aponta que as figuras de linguagem \u201capareceram com for\u00e7a\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Outra candidata, Gabriela Vieira, 18, concorda que a reda\u00e7\u00e3o foi complicada. \u201cEu esperava um tema como as manchas de \u00f3leo no Nordeste, mas os textos de apoio ajudaram, tinha dados do IBGE e de um site de cinema\u201d, conta.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A estudante, que busca vaga em publicidade, diz que entre as quest\u00f5es chamaram a aten\u00e7\u00e3o os enunciados sobre previd\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ela lembra que feminismo chegou a aparecer na prova em \u201cn\u00e3o mais do que tr\u00eas quest\u00f5es\u201d, mas outros temas ligados a movimentos sociais ficaram de fora, como o racismo. \u201cCaiu mais gram\u00e1tica, tipos textuais\u201d.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A primeira edi\u00e7\u00e3o do Enem sob o governo Jair Bolsonaro (PSL) foi tamb\u00e9m a primeira em pelo menos oito anos que n\u00e3o trouxe nenhuma quest\u00e3o relativa \u00e0 ditadura militar (1964-1985) nas&nbsp;provas de ci\u00eancias humanas e linguagens. O levantamento foi feito pela Folha de S.Paulo com base em todas as edi\u00e7\u00f5es do exame desde 2009, quando ele adquiriu o atual formato. No ano passado, o per\u00edodo apareceu em uma quest\u00e3o sobre o discurso do presidente Jo\u00e3o Goulart no que ficou conhecido como Com\u00edcio da Central, antes da sua deposi\u00e7\u00e3o, e em outra com uma carta do cartunista Henfil ao ent\u00e3o presidente Ernesto Geisel, contendo cr\u00edticas \u00e0 negativa de passaportes a opositores. Em outros anos, foram abordados temas como a Opera\u00e7\u00e3o Condor, que uniu governos do Cone Sul para persegui\u00e7\u00e3o de advers\u00e1rios; a morte do jornalista Vladimir Herzog; e a pol\u00edtica econ\u00f4mica do regime. Em 2011, a prova n\u00e3o citou explicitamente a ditadura, mas o per\u00edodo imediatamente anterior ao golpe, em quest\u00e3o sobre o CPC (Centro Popular de Cultura) da Uni\u00e3o Nacional dos Estudantes. A pergunta abordava qual era o entendimento dos setores conservadores e de direita sobre bra\u00e7o cultural da entidade estudantil, fechado logo ap\u00f3s 1964 \u2013uma men\u00e7\u00e3o clara ao contexto que culminou na ditadura. O ano de 2009, em que o Enem adquiriu o atual formato, foi o \u00fanico desde ent\u00e3o em que a ditadura n\u00e3o apareceu nas provas de linguagens e ci\u00eancias humanas. Uma das perguntas, no entanto, fazia refer\u00eancia \u00e0s revoltas de 1968 que ocorreram em todo o mundo. Para o professor Giba Alvarez, do Cursinho da Poli, chamou a aten\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m a aus\u00eancia de perguntas sobre a Era Vargas (1930-1945). Em sua avalia\u00e7\u00e3o, as omiss\u00f5es s\u00e3o fruto do trabalho da comiss\u00e3o criada pelo Inep para fazer uma triagem ideol\u00f3gica da prova. \u201cFicou evidente a retirada de temas que pudessem gerar pol\u00eamica. Com isso, virou uma prova ideol\u00f3gica\u201d, afirma o professor. Ao longo de toda a sua carreira pol\u00edtica, o presidente Jair Bolsonaro teceu cr\u00edticas \u00e0 historiografia predominante sobre a ditadura militar. Em mar\u00e7o, ele chegou a pedir que as unidades militares comemorassem os 55 anos do golpe que derrubou Jo\u00e3o Goulart. Dias ap\u00f3s ganhar a elei\u00e7\u00e3o de 2018, Bolsonaro criticou uma das quest\u00f5es do exame daquele ano, que mencionava um dialeto usado por gays e travestis, e afirmou que sua gest\u00e3o iria \u201ctomar conhecimento da prova\u201d antes da aplica\u00e7\u00e3o. Em mar\u00e7o, o Inep (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais), respons\u00e1vel pelo exame, nomeou uma comiss\u00e3o para fazer uma an\u00e1lise ideol\u00f3gica das quest\u00f5es. O resultado n\u00e3o veio a p\u00fablico. \u00c0 Folha, Alexandre Lopes, presidente do instituto, disse tr\u00eas semanas antes da realiza\u00e7\u00e3o do Enem, que a medida n\u00e3o impactaria o que se espera dos candidatos. \u201cVamos avaliar o conhecimento do aluno, buscar uma prova mais neutra poss\u00edvel\u201d, afirmou. Cinema, SUS e ONU Os pouco mais 5 milh\u00f5es de inscritos tiveram de responder a 90 quest\u00f5es distribu\u00eddas entre as \u00e1reas de linguagens (l\u00edngua portuguesa, ingl\u00eas ou espanhol e literatura), geografia, hist\u00f3ria, e uma reda\u00e7\u00e3o cujo tema foi \u201cDemocratiza\u00e7\u00e3o do acesso ao cinema no Brasil\u201d. Se n\u00e3o houve men\u00e7\u00e3o a ditadura, a prova trabalhou com temas sociais como a popula\u00e7\u00e3o quilombola, SUS (Sistema \u00danico de Sa\u00fade), Conselho de Seguran\u00e7a da ONU e a Declara\u00e7\u00e3o Universal dos Direitos Humanos, entre outros. O professor Leandro Vieira, que leciona sociologia e filosofia na plataforma online ProEnem, do Rio de Janeiro, chamou a primeira parte do exame de a \u201cmais filos\u00f3fica da hist\u00f3ria\u201d. \u201cApareceu&nbsp;um desfile de fil\u00f3sofos como Michel Foucault, Kant, Maquiavel,&nbsp;Ren\u00e9&nbsp;Descartes,&nbsp;Adam&nbsp;Smith,&nbsp;Hannah&nbsp;Arendt&nbsp;e&nbsp;Jacques Derrida\u201d, afirmou. \u201cSurpreendeu-me essa quantidade de te\u00f3ricos diante do discurso do presidente Jair Bolsonaro\u201d, disse. A estudante Ingrid Arag\u00e3o, 18, que j\u00e1 fez a prova tr\u00eas vezes -duas como treineira-, achou o Enem mais f\u00e1cil que o de 2018. Questionada sobre quest\u00f5es e temas que chamaram a sua aten\u00e7\u00e3o, ela cita que uma quest\u00e3o sobre refugiados a partir de um texto de Derrida. Em literatura, Arag\u00e3o conta que havia quest\u00f5es que abordaram romantismo e expressionismo. J\u00e1 em gram\u00e1tica, figuras de linguagem e interpreta\u00e7\u00e3o de texto foram recorrentes. Reinaldo Lopes Donadi, 36, fez o exame pela segunda vez neste ano e quer cursar psicologia. \u00c0 Folha, Donadi diz que a prova tinha falhas de impress\u00e3o que dificultavam a leitura, mas que, no geral, o maior inc\u00f4modo foi a reda\u00e7\u00e3o. \u201cO tema era cinema, eu n\u00e3o acompanho muito isso, falar sobre o assunto foi complicado pra mim.\u201d Caio Godoy, 17, prestou o Enem para ingressar em economia em S\u00e3o Carlos. Ele achou o tema da reda\u00e7\u00e3o dif\u00edcil e politizado, mas acredita que conseguiu \u201cdesenrolar\u201d o tema. Segundo ele, um dos textos de apoio trazia dados sobre pessoas que iam aos cinemas ou assistiam filmes em casa. Sobre as quest\u00f5es de linguagens, ele aponta que as figuras de linguagem \u201capareceram com for\u00e7a\u201d. Outra candidata, Gabriela Vieira, 18, concorda que a reda\u00e7\u00e3o foi complicada. \u201cEu esperava um tema como as manchas de \u00f3leo no Nordeste, mas os textos de apoio ajudaram, tinha dados do IBGE e de um site de cinema\u201d, conta. A estudante, que busca vaga em publicidade, diz que entre as quest\u00f5es chamaram a aten\u00e7\u00e3o os enunciados sobre previd\u00eancia. 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