{"id":137608,"date":"2019-11-24T09:15:16","date_gmt":"2019-11-24T12:15:16","guid":{"rendered":"http:\/\/www.caririemacao.com\/1\/?p=137608"},"modified":"2019-11-24T09:15:16","modified_gmt":"2019-11-24T12:15:16","slug":"semana-da-consciencia-negra-resgata-figuras-historicas-esquecidas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.caririemacao.com\/1\/2019\/11\/24\/semana-da-consciencia-negra-resgata-figuras-historicas-esquecidas\/","title":{"rendered":"Semana da Consci\u00eancia Negra resgata figuras hist\u00f3ricas esquecidas"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Zumbi dos Palmares \u00e9, no Brasil, a refer\u00eancia mais marcante da luta abolicionista e de resist\u00eancia ao colonialismo trazido para terras tupiniquins pelos europeus. O Dia da Consci\u00eancia Negra, celebrado nesta semana, marca exatamente a data em que Zumbi foi assassinado. Emboscado por bandeirantes, o l\u00edder foi decapitado e exposto em pra\u00e7a p\u00fablica, para que outros n\u00e3o seguissem seu exemplo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">M\u00e1rtir, Zumbi ganhou lugar de destaque na hist\u00f3ria: tornou-se \u00edcone de resist\u00eancia e de luta por ideais de liberdade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mas o educador Paulo Cruz, professor de filosofia e sociologia, mestre em ci\u00eancia da religi\u00e3o e cavaleiro da Ordem do M\u00e9rito Cultural, enxerga o s\u00edmbolo de modo diferente. \u201cZumbi \u00e9 importante, mas num contexto muito espec\u00edfico. Houve grandes abolicionistas, grandes intelectuais negros, grandes l\u00edderes &#8211; mesmo durante a vig\u00eancia da escravid\u00e3o &#8211; que est\u00e3o de lado na hist\u00f3ria por n\u00e3o gerarem tanta mobiliza\u00e7\u00e3o quanto Zumbi\u201d, argumenta.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/imagens.ebc.com.br\/6TAp3i1dOwHHqvxeOBFAD3t70Lc=\/365x0\/smart\/http:\/\/agenciabrasil.ebc.com.br\/sites\/default\/files\/thumbnails\/image\/semana_consciencia_negra.jpg?itok=6h2fm71D\" alt=\" Semana da Consci\u00eancia Negra\"\/><\/figure>\n\n\n\n<h6 class=\"wp-block-heading\">Semana da Consci\u00eancia Negra valoriza Paulo Brito e outros negros que tiveram destaque na hist\u00f3ria brasileira &#8211;&nbsp;<strong>Divulga\u00e7\u00e3o<\/strong><br><\/h6>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Para Paulo Cruz, figuras negras hist\u00f3ricas como os irm\u00e3os Andr\u00e9 e Antonio Rebou\u00e7as, em especial Andr\u00e9, o mais velho, representam de maneira muito mais clara o potencial e a capacidade dos negros em superar adversidades, vencer obst\u00e1culos sociais e inspirar pessoas como modelos de virtude. \u201cEsses s\u00e3o negros que viveram nos per\u00edodos mais adversos da hist\u00f3ria e que tiveram um destaque incomum, inconceb\u00edvel para a \u00e9poca. Eles decidiram impor suas ideias, estudar, se destacar. Quando olho para essas figuras, n\u00e3o vejo exce\u00e7\u00f5es. Vejo modelos para o resgate da dignidade da popula\u00e7\u00e3o negra\u201d, enfatiza o professor.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Paulo Cruz foi um dos convidados pelo Minist\u00e9rio da Mulher, da Fam\u00edlia e dos Direitos Humanos para o semin\u00e1rio Hist\u00f3ria, Percursos e Perspectivas, que ocorreu na quarta-feira (20) e reuniu influenciadores negros para contar viv\u00eancias sobre racismo, trabalho, consci\u00eancia social e hist\u00f3ria do Brasil.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">\u201cA hist\u00f3ria que n\u00e3o me contaram\u201d<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Filhos de um r\u00e1bula &#8211; um advogado que n\u00e3o possu\u00eda diploma, mas era autorizado a praticar a profiss\u00e3o -, a hist\u00f3ria dos irm\u00e3os Rebou\u00e7as \u00e9 repleta de realiza\u00e7\u00f5es que marcaram a hist\u00f3ria do Brasil e que, ainda \u00e0 sua \u00e9poca, eram consideradas grandes feitos. O pai, Antonio Pereira Rebou\u00e7as, ativista dos direitos civis dos negros no s\u00e9culo 19, foi um \u00e1vido combatente da independ\u00eancia brasileira e atuou como conselheiro pessoal de Dom Pedro II.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Andr\u00e9 Rebou\u00e7as e seu irm\u00e3o, Antonio, s\u00e3o considerados os primeiros negros brasileiros a cursar uma universidade. Nascidos em 1838 e 1839, respectivamente, estudaram engenharia na Europa. Baianos da cidade de Cachoeira, ambos voltaram ao Brasil graduados e iniciaram uma s\u00e9rie de obras que, ainda hoje, fazem parte do cen\u00e1rio urbano das maiores capitais brasileiras. Os irm\u00e3os projetaram a ferrovia Paranagu\u00e1-Curitiba, considerada a maior obra da engenharia f\u00e9rrea nacional at\u00e9 ent\u00e3o. Juntos, planejaram um sistema de distribui\u00e7\u00e3o de \u00e1gua que ajudou os cariocas durante a seca de 1870. Andr\u00e9 projetou as docas da Alf\u00e2ndega da ba\u00eda de Guanabara e as docas D. Pedro II, hoje pontos hist\u00f3ricos da capital fluminense.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O t\u00fanel Rebou\u00e7as, estrutura rodovi\u00e1ria respons\u00e1vel pela conex\u00e3o das zonas Norte e Sul da cidade do Rio de Janeiro, \u00e9 uma das v\u00e1rias homenagens aos irm\u00e3os engenheiros.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E n\u00e3o \u00e9 apenas o professor Cruz, entusiasta de figuras hist\u00f3ricas, que reconhece Andr\u00e9 Rebou\u00e7as como her\u00f3i nacional. Joaquim Nabuco, influente escritor, primeiro diplomata brasileiro nos Estados Unidos e ferrenho defensor da aboli\u00e7\u00e3o da escravatura, valorizou a grandeza do amigo em sua escrita.<\/p>\n\n\n\n<figure><iframe allowfullscreen=\"\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/jRiZt5QXiCU\"><\/iframe><\/figure>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Empreendedorismo negro<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Paulo Cruz vai al\u00e9m dos feitos de engenharia dos Rebou\u00e7as. Apesar de nomear dezenas de exemplos de figuras hist\u00f3ricas que poderiam ser homenageadas no Dia da Consci\u00eancia Negra, o fil\u00f3sofo trata Francisco de Paula Brito, o primeiro editor brasileiro, como maior representante da intelectualidade negra do s\u00e9culo XIX.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Autodidata, Francisco era filho de escravos. Aprendeu a ler com a irm\u00e3 e foi muito influenciado pelo av\u00f4, Martinho Pereira de Brito, que era disc\u00edpulo de Mestre Valentim &#8211; renomado escultor da regi\u00e3o de Ouro Preto (MG).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Francisco trabalhou como aprendiz de tip\u00f3grafo durante 3 anos, quando conseguiu economizar o suficiente para comprar seu primeiro prelo (impressora rudimentar que produzia c\u00f3pias de uma chapa-mestra). Com a aquisi\u00e7\u00e3o, o rapaz se tornaria dono de sua pr\u00f3pria editora, e ficou conhecido como Paula Brito.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Impulsionado pelo sucesso de publica\u00e7\u00f5es voltadas ao p\u00fablico feminino, Paula Brito obteve sucesso comercial, e logo passaria a investir em outras pessoas. Foi dono do primeiro jornal abolicionista e antiescravagista da hist\u00f3ria:&nbsp;<em>O Mulato<\/em>. At\u00e9 Dom Pedro II se tornou parceiro comercial de Paula Brito, tendo comprado a\u00e7\u00f5es de seus empreendimentos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Entre as obras publicadas pelo editor, um rapaz de 14 anos chamava a aten\u00e7\u00e3o. Contratado como ajudante na editora, o jovem Machado de Assis se mostrava poeta por excel\u00eancia. O resultado da parceria todos conhecem. O que poucos sabem \u00e9 que Paula Brito foi respons\u00e1vel pela publica\u00e7\u00e3o do primeiro romance brasileiro. E o autor, romancista pioneiro, tamb\u00e9m era negro.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Paula Brito morreu em 1861. O cortejo funer\u00e1rio foi composto por mais de 200 carros &#8211; artigo de luxo na \u00e9poca -. Paula Brito foi enterrado como her\u00f3i, s\u00edmbolo intelectual e influente pensador da sociedade brasileira.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Reflexo na sociedade<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Para o professor, reconhecer-se como negro, digno, e capaz de realizar todo o potencial s\u00f3 \u00e9 poss\u00edvel com a presen\u00e7a de figuras que inspiram os mesmos valores, e que s\u00e3o mais pr\u00f3ximas dos jovens da periferia. \u201cFico muito triste ao perceber que alunos negros, ao serem questionados, n\u00e3o tem refer\u00eancias maiores na realidade atual do povo brasileiro. Quando o jovem olha para a sociedade e s\u00f3 v\u00ea crime, revolta, estat\u00edsticas ruins, ele n\u00e3o \u00e9 inspirado\u201d, pondera.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Zumbi dos Palmares \u00e9, no Brasil, a refer\u00eancia mais marcante da luta abolicionista e de resist\u00eancia ao colonialismo trazido para terras tupiniquins pelos europeus. O Dia da Consci\u00eancia Negra, celebrado nesta semana, marca exatamente a data em que Zumbi foi assassinado. Emboscado por bandeirantes, o l\u00edder foi decapitado e exposto em pra\u00e7a p\u00fablica, para que outros n\u00e3o seguissem seu exemplo. M\u00e1rtir, Zumbi ganhou lugar de destaque na hist\u00f3ria: tornou-se \u00edcone de resist\u00eancia e de luta por ideais de liberdade. Mas o educador Paulo Cruz, professor de filosofia e sociologia, mestre em ci\u00eancia da religi\u00e3o e cavaleiro da Ordem do M\u00e9rito Cultural, enxerga o s\u00edmbolo de modo diferente. \u201cZumbi \u00e9 importante, mas num contexto muito espec\u00edfico. Houve grandes abolicionistas, grandes intelectuais negros, grandes l\u00edderes &#8211; mesmo durante a vig\u00eancia da escravid\u00e3o &#8211; que est\u00e3o de lado na hist\u00f3ria por n\u00e3o gerarem tanta mobiliza\u00e7\u00e3o quanto Zumbi\u201d, argumenta. 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Paulo Cruz foi um dos convidados pelo Minist\u00e9rio da Mulher, da Fam\u00edlia e dos Direitos Humanos para o semin\u00e1rio Hist\u00f3ria, Percursos e Perspectivas, que ocorreu na quarta-feira (20) e reuniu influenciadores negros para contar viv\u00eancias sobre racismo, trabalho, consci\u00eancia social e hist\u00f3ria do Brasil. \u201cA hist\u00f3ria que n\u00e3o me contaram\u201d Filhos de um r\u00e1bula &#8211; um advogado que n\u00e3o possu\u00eda diploma, mas era autorizado a praticar a profiss\u00e3o -, a hist\u00f3ria dos irm\u00e3os Rebou\u00e7as \u00e9 repleta de realiza\u00e7\u00f5es que marcaram a hist\u00f3ria do Brasil e que, ainda \u00e0 sua \u00e9poca, eram consideradas grandes feitos. O pai, Antonio Pereira Rebou\u00e7as, ativista dos direitos civis dos negros no s\u00e9culo 19, foi um \u00e1vido combatente da independ\u00eancia brasileira e atuou como conselheiro pessoal de Dom Pedro II. Andr\u00e9 Rebou\u00e7as e seu irm\u00e3o, Antonio, s\u00e3o considerados os primeiros negros brasileiros a cursar uma universidade. Nascidos em 1838 e 1839, respectivamente, estudaram engenharia na Europa. Baianos da cidade de Cachoeira, ambos voltaram ao Brasil graduados e iniciaram uma s\u00e9rie de obras que, ainda hoje, fazem parte do cen\u00e1rio urbano das maiores capitais brasileiras. Os irm\u00e3os projetaram a ferrovia Paranagu\u00e1-Curitiba, considerada a maior obra da engenharia f\u00e9rrea nacional at\u00e9 ent\u00e3o. Juntos, planejaram um sistema de distribui\u00e7\u00e3o de \u00e1gua que ajudou os cariocas durante a seca de 1870. Andr\u00e9 projetou as docas da Alf\u00e2ndega da ba\u00eda de Guanabara e as docas D. Pedro II, hoje pontos hist\u00f3ricos da capital fluminense. O t\u00fanel Rebou\u00e7as, estrutura rodovi\u00e1ria respons\u00e1vel pela conex\u00e3o das zonas Norte e Sul da cidade do Rio de Janeiro, \u00e9 uma das v\u00e1rias homenagens aos irm\u00e3os engenheiros. E n\u00e3o \u00e9 apenas o professor Cruz, entusiasta de figuras hist\u00f3ricas, que reconhece Andr\u00e9 Rebou\u00e7as como her\u00f3i nacional. Joaquim Nabuco, influente escritor, primeiro diplomata brasileiro nos Estados Unidos e ferrenho defensor da aboli\u00e7\u00e3o da escravatura, valorizou a grandeza do amigo em sua escrita. Empreendedorismo negro Paulo Cruz vai al\u00e9m dos feitos de engenharia dos Rebou\u00e7as. Apesar de nomear dezenas de exemplos de figuras hist\u00f3ricas que poderiam ser homenageadas no Dia da Consci\u00eancia Negra, o fil\u00f3sofo trata Francisco de Paula Brito, o primeiro editor brasileiro, como maior representante da intelectualidade negra do s\u00e9culo XIX. Autodidata, Francisco era filho de escravos. Aprendeu a ler com a irm\u00e3 e foi muito influenciado pelo av\u00f4, Martinho Pereira de Brito, que era disc\u00edpulo de Mestre Valentim &#8211; renomado escultor da regi\u00e3o de Ouro Preto (MG). Francisco trabalhou como aprendiz de tip\u00f3grafo durante 3 anos, quando conseguiu economizar o suficiente para comprar seu primeiro prelo (impressora rudimentar que produzia c\u00f3pias de uma chapa-mestra). Com a aquisi\u00e7\u00e3o, o rapaz se tornaria dono de sua pr\u00f3pria editora, e ficou conhecido como Paula Brito. Impulsionado pelo sucesso de publica\u00e7\u00f5es voltadas ao p\u00fablico feminino, Paula Brito obteve sucesso comercial, e logo passaria a investir em outras pessoas. Foi dono do primeiro jornal abolicionista e antiescravagista da hist\u00f3ria:&nbsp;O Mulato. At\u00e9 Dom Pedro II se tornou parceiro comercial de Paula Brito, tendo comprado a\u00e7\u00f5es de seus empreendimentos. Entre as obras publicadas pelo editor, um rapaz de 14 anos chamava a aten\u00e7\u00e3o. Contratado como ajudante na editora, o jovem Machado de Assis se mostrava poeta por excel\u00eancia. O resultado da parceria todos conhecem. O que poucos sabem \u00e9 que Paula Brito foi respons\u00e1vel pela publica\u00e7\u00e3o do primeiro romance brasileiro. E o autor, romancista pioneiro, tamb\u00e9m era negro. Paula Brito morreu em 1861. O cortejo funer\u00e1rio foi composto por mais de 200 carros &#8211; artigo de luxo na \u00e9poca -. Paula Brito foi enterrado como her\u00f3i, s\u00edmbolo intelectual e influente pensador da sociedade brasileira. Reflexo na sociedade Para o professor, reconhecer-se como negro, digno, e capaz de realizar todo o potencial s\u00f3 \u00e9 poss\u00edvel com a presen\u00e7a de figuras que inspiram os mesmos valores, e que s\u00e3o mais pr\u00f3ximas dos jovens da periferia. \u201cFico muito triste ao perceber que alunos negros, ao serem questionados, n\u00e3o tem refer\u00eancias maiores na realidade atual do povo brasileiro. 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