{"id":142193,"date":"2019-12-21T10:53:28","date_gmt":"2019-12-21T13:53:28","guid":{"rendered":"http:\/\/www.caririemacao.com\/1\/?p=142193"},"modified":"2019-12-21T10:53:28","modified_gmt":"2019-12-21T13:53:28","slug":"com-mais-de-90-da-transposicao-concluida-impactos-ambientais-no-rio-sao-francisco-ainda-sao-incertos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.caririemacao.com\/1\/2019\/12\/21\/com-mais-de-90-da-transposicao-concluida-impactos-ambientais-no-rio-sao-francisco-ainda-sao-incertos\/","title":{"rendered":"Com mais de 90% da transposi\u00e7\u00e3o conclu\u00edda, impactos ambientais no Rio S\u00e3o Francisco ainda s\u00e3o incertos"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A obra da transposi\u00e7\u00e3o do Rio S\u00e3o Francisco est\u00e1 perto da conclus\u00e3o ap\u00f3s 12 anos de trabalho e 7 de atraso. O investimento estimado \u00e9 de R$ 12 bilh\u00f5es, segundo o Minist\u00e9rio do Desenvolvimento Regional (MDR). O megaprojeto destina, desde o in\u00edcio, R$ 1 bilh\u00e3o para mitigar impactos ambientais.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Pesquisadores defendem que \u00e9 preciso monitoramento de longo prazo para determinar o impacto na fauna e na flora das \u00e1reas envolvidas, mas alegam que cortes de verbas p\u00fablicas j\u00e1 est\u00e3o limitando essa a\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A transposi\u00e7\u00e3o do Rio S\u00e3o Francisco \u00e9 a constru\u00e7\u00e3o de dois grandes canais (um Eixo Norte e um Eixo Leste, totalizando 477 km em obras) que levam \u00e1guas desse rio essencial para o Nordeste brasileiro at\u00e9 outra \u00e1rea, tradicionalmente bem mais seca.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Nesta edi\u00e7\u00e3o do Desafio Natureza, o G1 resume o que j\u00e1 se sabe e o que falta saber sobre os impactos na regi\u00e3o de influ\u00eancia do S\u00e3o Francisco, rio que passa por cinco estados brasileiros e, numa extens\u00e3o de 2.800 km, abrange diferentes ecossistemas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Uma longa hist\u00f3ria de degrada\u00e7\u00e3o<\/strong><br>No Brasil colonial, o rio hoje apelidado de \u201cVelho Chico\u201d era tamb\u00e9m conhecido como \u201cRio dos Currais\u201d. Suas margens foram um eixo de expans\u00e3o, do litoral para o centro do pa\u00eds, principalmente por meio de estradas e da cria\u00e7\u00e3o de gado.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E foi a\u00ed que come\u00e7aram os impactos da a\u00e7\u00e3o humana no S\u00e3o Francisco.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u201cChamava-se Rio dos Currais porque vinham tocando o gado, nos s\u00e9culos 17 e 18, \u00e0 beira do S\u00e3o Francisco\u201d, recorda o pesquisador Luiz C\u00e9sar Pereira, coordenador do Centro de Conserva\u00e7\u00e3o e Manejo de Fauna da Caatinga (Cemafauna), ligado \u00e0 Universidade do Vale do S\u00e3o Francisco (Univasf). A universidade \u00e9 a principal encarregada de atuar na mitiga\u00e7\u00e3o dos impactos, tamb\u00e9m por meio do N\u00facleo de Ecologia e Monitoramento Ambiental (Nema).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u201cO gado chegava ali em Cabrob\u00f3 (PE) e ia impactando o solo. Depois, com o tempo, sai o gado \u2013 o \u2018p\u00e9 duro\u2019 como a gente chamava \u2013 e entra uma nova forma de pecu\u00e1ria que se adapta \u00e0 caatinga, que s\u00e3o os ovinos e caprinos, que tamb\u00e9m trazem impacto, pois se alimentam da caatinga.\u201d \u2013 Luiz C\u00e9sar Pereira, do Cemafauna\/Univasf.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Fonte de renda e esperan\u00e7a de prosperidade, o S\u00e3o Francisco ainda hoje \u00e9 tamb\u00e9m foco de tens\u00f5es. A competi\u00e7\u00e3o pela \u00e1gua contrap\u00f5e grandes e pequenos produtores agropecu\u00e1rios, ind\u00fastrias, comunidades ribeirinhas, pescadores, mineradores, governos, cidades e quatro barragens de usinas hidrel\u00e9tricas (Tr\u00eas Marias, Sobradinho, Itaparica e Paulo Afonso). Alguns recebem mais \u00e1gua do que outros, alguns pagam mais pela \u00e1gua do que outros e alguns s\u00e3o mais beneficiados ou prejudicados pela transposi\u00e7\u00e3o do que outros.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Nessa disputa, perde um bioma rico, mas naturalmente fr\u00e1gil: a caatinga.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u201cNa Mata Atl\u00e2ntica e na Amaz\u00f4nia, se eu cortar a vegeta\u00e7\u00e3o voc\u00ea v\u00ea, aos poucos, um processo natural de sucess\u00e3o da vegeta\u00e7\u00e3o, de regenera\u00e7\u00e3o. Na caatinga falta umidade para isso\u201d, explica Pereira.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A soma de tantas atividades em torno do S\u00e3o Francisco impacta as bacias ligadas a ele desde os len\u00e7\u00f3is fre\u00e1ticos e nascentes, onde j\u00e1 h\u00e1 relatos de \u00e1gua \u201cfunda\u201d, ou seja, \u00e9 preciso perfurar mais para chegar at\u00e9 ela. Isso ocorre tamb\u00e9m nos afluentes, os rios que alimentam o S\u00e3o Francisco. As barragens das hidrel\u00e9tricas alagaram grandes \u00e1reas e, hoje, tamb\u00e9m controlam a vaz\u00e3o do rio.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Invas\u00e3o do mar<\/strong><br>Estudos mostram que, como o rio chega fraco ao mar, a \u00e1gua salgada j\u00e1 come\u00e7a a invadir o S\u00e3o Francisco na foz \u2013 entre Sergipe e Alagoas. \u201cO mar est\u00e1 entrando 40 km rio adentro. Os peixes desapareceram. Na verdade, voc\u00ea j\u00e1 encontra peixes do mar a 200 km rio acima\u201d, conta Jos\u00e9 Alves Siqueira, professor da Univasf e coordenador do Centro de Refer\u00eancia para Recupera\u00e7\u00e3o de \u00c1reas Degradadas (Crad).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Restam incertezas, entretanto, sobre at\u00e9 que ponto a transposi\u00e7\u00e3o causa ou amplia esses danos ambientais.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A obra da transposi\u00e7\u00e3o do Rio S\u00e3o Francisco est\u00e1 perto da conclus\u00e3o ap\u00f3s 12 anos de trabalho e 7 de atraso. O investimento estimado \u00e9 de R$ 12 bilh\u00f5es, segundo o Minist\u00e9rio do Desenvolvimento Regional (MDR). O megaprojeto destina, desde o in\u00edcio, R$ 1 bilh\u00e3o para mitigar impactos ambientais. Pesquisadores defendem que \u00e9 preciso monitoramento de longo prazo para determinar o impacto na fauna e na flora das \u00e1reas envolvidas, mas alegam que cortes de verbas p\u00fablicas j\u00e1 est\u00e3o limitando essa a\u00e7\u00e3o. A transposi\u00e7\u00e3o do Rio S\u00e3o Francisco \u00e9 a constru\u00e7\u00e3o de dois grandes canais (um Eixo Norte e um Eixo Leste, totalizando 477 km em obras) que levam \u00e1guas desse rio essencial para o Nordeste brasileiro at\u00e9 outra \u00e1rea, tradicionalmente bem mais seca. Nesta edi\u00e7\u00e3o do Desafio Natureza, o G1 resume o que j\u00e1 se sabe e o que falta saber sobre os impactos na regi\u00e3o de influ\u00eancia do S\u00e3o Francisco, rio que passa por cinco estados brasileiros e, numa extens\u00e3o de 2.800 km, abrange diferentes ecossistemas. Uma longa hist\u00f3ria de degrada\u00e7\u00e3oNo Brasil colonial, o rio hoje apelidado de \u201cVelho Chico\u201d era tamb\u00e9m conhecido como \u201cRio dos Currais\u201d. Suas margens foram um eixo de expans\u00e3o, do litoral para o centro do pa\u00eds, principalmente por meio de estradas e da cria\u00e7\u00e3o de gado. E foi a\u00ed que come\u00e7aram os impactos da a\u00e7\u00e3o humana no S\u00e3o Francisco. \u201cChamava-se Rio dos Currais porque vinham tocando o gado, nos s\u00e9culos 17 e 18, \u00e0 beira do S\u00e3o Francisco\u201d, recorda o pesquisador Luiz C\u00e9sar Pereira, coordenador do Centro de Conserva\u00e7\u00e3o e Manejo de Fauna da Caatinga (Cemafauna), ligado \u00e0 Universidade do Vale do S\u00e3o Francisco (Univasf). A universidade \u00e9 a principal encarregada de atuar na mitiga\u00e7\u00e3o dos impactos, tamb\u00e9m por meio do N\u00facleo de Ecologia e Monitoramento Ambiental (Nema). \u201cO gado chegava ali em Cabrob\u00f3 (PE) e ia impactando o solo. Depois, com o tempo, sai o gado \u2013 o \u2018p\u00e9 duro\u2019 como a gente chamava \u2013 e entra uma nova forma de pecu\u00e1ria que se adapta \u00e0 caatinga, que s\u00e3o os ovinos e caprinos, que tamb\u00e9m trazem impacto, pois se alimentam da caatinga.\u201d \u2013 Luiz C\u00e9sar Pereira, do Cemafauna\/Univasf. Fonte de renda e esperan\u00e7a de prosperidade, o S\u00e3o Francisco ainda hoje \u00e9 tamb\u00e9m foco de tens\u00f5es. A competi\u00e7\u00e3o pela \u00e1gua contrap\u00f5e grandes e pequenos produtores agropecu\u00e1rios, ind\u00fastrias, comunidades ribeirinhas, pescadores, mineradores, governos, cidades e quatro barragens de usinas hidrel\u00e9tricas (Tr\u00eas Marias, Sobradinho, Itaparica e Paulo Afonso). Alguns recebem mais \u00e1gua do que outros, alguns pagam mais pela \u00e1gua do que outros e alguns s\u00e3o mais beneficiados ou prejudicados pela transposi\u00e7\u00e3o do que outros. Nessa disputa, perde um bioma rico, mas naturalmente fr\u00e1gil: a caatinga. \u201cNa Mata Atl\u00e2ntica e na Amaz\u00f4nia, se eu cortar a vegeta\u00e7\u00e3o voc\u00ea v\u00ea, aos poucos, um processo natural de sucess\u00e3o da vegeta\u00e7\u00e3o, de regenera\u00e7\u00e3o. Na caatinga falta umidade para isso\u201d, explica Pereira. A soma de tantas atividades em torno do S\u00e3o Francisco impacta as bacias ligadas a ele desde os len\u00e7\u00f3is fre\u00e1ticos e nascentes, onde j\u00e1 h\u00e1 relatos de \u00e1gua \u201cfunda\u201d, ou seja, \u00e9 preciso perfurar mais para chegar at\u00e9 ela. Isso ocorre tamb\u00e9m nos afluentes, os rios que alimentam o S\u00e3o Francisco. As barragens das hidrel\u00e9tricas alagaram grandes \u00e1reas e, hoje, tamb\u00e9m controlam a vaz\u00e3o do rio. Invas\u00e3o do marEstudos mostram que, como o rio chega fraco ao mar, a \u00e1gua salgada j\u00e1 come\u00e7a a invadir o S\u00e3o Francisco na foz \u2013 entre Sergipe e Alagoas. \u201cO mar est\u00e1 entrando 40 km rio adentro. Os peixes desapareceram. Na verdade, voc\u00ea j\u00e1 encontra peixes do mar a 200 km rio acima\u201d, conta Jos\u00e9 Alves Siqueira, professor da Univasf e coordenador do Centro de Refer\u00eancia para Recupera\u00e7\u00e3o de \u00c1reas Degradadas (Crad). 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