{"id":151691,"date":"2020-02-05T13:48:44","date_gmt":"2020-02-05T16:48:44","guid":{"rendered":"http:\/\/www.caririemacao.com\/1\/?p=151691"},"modified":"2020-02-05T13:48:46","modified_gmt":"2020-02-05T16:48:46","slug":"governo-avalia-o-uso-ampliado-de-tecnologia-nuclear-em-alimentos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.caririemacao.com\/1\/2020\/02\/05\/governo-avalia-o-uso-ampliado-de-tecnologia-nuclear-em-alimentos\/","title":{"rendered":"Governo avalia o uso ampliado de tecnologia nuclear em alimentos"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O governo Jair Bolsonaro tem mantido conversas com entidades cient\u00edficas e setores da ind\u00fastria com o objetivo de viabilizar a ado\u00e7\u00e3o em escala comercial da tecnologia de irradia\u00e7\u00e3o de alimentos para o mercado interno e para exporta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">As conversas s\u00e3o lideradas pelo Gabinete de Seguran\u00e7a Institucional e ocorrem desde a publica\u00e7\u00e3o da resolu\u00e7\u00e3o n\u00famero&nbsp;16, de 24 de outubro de 2019, que criou um grupo t\u00e9cnico para discutir \u201ca promo\u00e7\u00e3o do tratamento de alimentos e materiais com tecnologia nuclear\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em resumo, a t\u00e9cnica prev\u00ea que um alimento ou insumo seja colocado em uma m\u00e1quina blindada conhecida como irradiador e submetido a uma dosagem espec\u00edfica de radia\u00e7\u00e3o ionizante. Os principais objetivos s\u00e3o eliminar parasitas e retardar o amadurecimento ou brotamento do alimento, prolongando assim sua vida \u00fatil.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Entre os planos em discuss\u00e3o pelo grupo t\u00e9cnico est\u00e1 a instala\u00e7\u00e3o de plantas industriais com irradiadores em pontos estrat\u00e9gicos do pa\u00eds, para uso em alimentos \u2013ou com prop\u00f3sitos m\u00faltiplos, para diminuir os custos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Uma segunda fase das conversas, a ter in\u00edcio neste ano, prev\u00ea a assinatura de acordos bilaterais em que a irradia\u00e7\u00e3o \u00e9 pr\u00e9-condi\u00e7\u00e3o para a exporta\u00e7\u00e3o dos alimentos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A irradia\u00e7\u00e3o de alimentos \u00e9 regulamentada no Brasil pela Resolu\u00e7\u00e3o n. 21 da Anvisa, de 2001, e pela Instru\u00e7\u00e3o Normativa n. 9 do Minist\u00e9rio da Agricultura, Pecu\u00e1ria e Abastecimento (Mapa), de 2011. Ambas permitem o uso de tr\u00eas tipos de irradia\u00e7\u00e3o: is\u00f3topos radioativos (cobalto-60 emissor de raios gama); el\u00e9trons acelerados e raios-X. A utiliza\u00e7\u00e3o do radiois\u00f3topo c\u00e9sio-137 \u00e9 praticamente vetada no Brasil mas permitida em outros pa\u00edses.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u201cNo Brasil, a maioria dos pesquisadores apoia a instala\u00e7\u00e3o de aceleradores de el\u00e9trons, porque \u00e9 muito simples: cortou a for\u00e7a el\u00e9trica, n\u00e3o tem radia\u00e7\u00e3o nenhuma nem problemas de res\u00edduo radioativo\u201d, afirma Thiago Mastrangelo, do Laborat\u00f3rio de Irradia\u00e7\u00e3o de Alimentos e Radioentomologia do Centro de Energia Nuclear na Agricultura (Cena), da USP em Piracicaba (SP).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A Nuctech, da China, a Rosaton, da R\u00fassia, e a Fraunhofer, da Alemanha, manifestaram interesse em trazer seus irradiadores com tecnologia de feixe de el\u00e9trons para o mercado brasileiro.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A estatal Rosaton encomendou um estudo para avaliar tanto a instala\u00e7\u00e3o de uma planta quanto o fornecimento do servi\u00e7o de irradia\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Um dos principais fabricantes de aceleradores de el\u00e9trons no mundo, a Nuctech disse ter mantido \u201cconversas pol\u00edticas\u201d, sem dar detalhes.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">J\u00e1 o foco do instituto de pesquisa Fraunhofer \u00e9 a aplica\u00e7\u00e3o de feixe de el\u00e9trons sobre sementes com o objetivo de eliminar pat\u00f3genos como alternativa ao \u201ctratamento qu\u00edmico\u201d, com uso inclusive na agricultura org\u00e2nica.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u201cEstamos trabalhando junto com produtores de sementes, universidades e investidores. O Brasil \u00e9 de interesse particular para n\u00f3s nesse planejamento devido \u00e0 grande import\u00e2ncia da ind\u00fastria da agricultura e o alto n\u00edvel de disposi\u00e7\u00e3o para a inova\u00e7\u00e3o\u201d, afirmou Ines Schedwill, chefe de marketing do Fraunhofer, em Dresden (ALE).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O Brasil possui tecnologia de irradia\u00e7\u00e3o desde a d\u00e9cada de 1970, mas sua aplica\u00e7\u00e3o comercial em alimentos para o mercado interno \u00e9 limitada a pimentas, condimentos e temperos, al\u00e9m de ra\u00e7\u00f5es para animais.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A Sterigenics, com sede nos EUA, det\u00e9m hoje o monop\u00f3lio da irradia\u00e7\u00e3o no Brasil com uma planta instalada em Jarinu (SP) com irradiadores de cobalto e de el\u00e9trons.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O Cena possui dois irradiadores com fontes de cobalto-60 e um raio-X da Americana RadSource para uso cient\u00edfico e\/ou de baixa escala comercial.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">J\u00e1 o Ipen (Instituto de Pesquisas Energ\u00e9ticas e Nucleares) tem um acelerador de el\u00e9trons para uso em pesquisa e um irradiador Multiprop\u00f3sito de cobalto-60 para uso semi-industrial.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O principal empecilho \u00e0 dissemina\u00e7\u00e3o do uso da irradia\u00e7\u00e3o no Brasil \u00e9 o custo \u2013 a instala\u00e7\u00e3o de uma planta moderna custa cerca de R$ 20 milh\u00f5es, incluindo equipamento e infraestrutura mas n\u00e3o a log\u00edstica. Da\u00ed o interesse em abrir o mercado para as estrangeiras e envolver o setor produtivo de grande porte nas conversas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u201c\u00c9 uma t\u00e9cnica boa que, se bem aplicada, vai trazer vantagens para o Brasil no sentido de eliminar barreiras comerciais e de aumentar a exporta\u00e7\u00e3o\u201d, afirma o pesquisador Murillo Freire, da Embrapa Agroind\u00fastria de Alimentos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u201cO Brasil precisava de um irradiador em cada estado, porque \u00e9 um pa\u00eds de dimens\u00f5es enormes. Mas n\u00e3o tem quem invista de fato, porque as pessoas t\u00eam medo ou desconhecem. E \u00e9 um neg\u00f3cio que d\u00e1 dinheiro, o retorno \u00e9 de um ano para um investimento de R$ 12 milh\u00f5es a R$ 15 milh\u00f5es\u201d, afirma Anna Lucia Villavicencio, pesquisadora do Centro de Tecnologia das Radia\u00e7\u00f5es do Ipen.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Nesse sentido, um irradiador de el\u00e9trons \u00e9 visto como mais indicado pelos pesquisadores. O maior mercado importador de frutas brasileiras, por exemplo, \u00e9 a Europa, que v\u00ea com ressalvas o uso de radiois\u00f3topos, mas aceita melhor a radia\u00e7\u00e3o por feixe de el\u00e9trons ou raios-X, segundo Mastrangelo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Outro problema \u00e9 percep\u00e7\u00e3o do p\u00fablico, que identifica o uso de energia nuclear com acidentes como o que envolveu a manipula\u00e7\u00e3o de C\u00e9sio-137 em Goi\u00e2nia (1987), ou ainda Chernobil (1986) e Fukushima (2010).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u201cFalta conscientiza\u00e7\u00e3o do p\u00fablico em geral. Criou-se uma ideia de que produto irradiado \u00e9 produto radioativo. Mas a irradia\u00e7\u00e3o n\u00e3o torna o produto radioativo. Em outros pa\u00edses, muitos preferem o produto irradiado porque sabem que \u00e9 mais seguro\u201d, diz Freire.&nbsp;\u201cO esfor\u00e7o \u00e9 de quebrar esse paradigma, levar a t\u00e9cnica ao conhecimento de todos. Ela tem vantagens e desvantagens e ela n\u00e3o serve para tudo. Ent\u00e3o tem que saber direitinho onde voc\u00ea vai aplicar e com que finalidade para voc\u00ea ter vantagem com isso.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u201c\u00c9 mais seguro que o org\u00e2nico, que utiliza adubo natural, que \u00e9 cheio de bact\u00e9rias e micro-organismos patog\u00eanicos\u201d, afirma Villavicencio.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A OMS (Organiza\u00e7\u00e3o Mundial da Sa\u00fade), a FAO (Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas para a Alimenta\u00e7\u00e3o e a Agricultura) e a AIEA (Ag\u00eancia Internacional de Energia At\u00f4mica) consideram que a tecnologia de irradia\u00e7\u00e3o de qualquer alimento at\u00e9 a dose de 10 kGy (quilo-Gray) n\u00e3o representa risco toxicol\u00f3gico e \u00e9 nutricionalmente adequada, al\u00e9m de ser uma op\u00e7\u00e3o de combate ao desperd\u00edcio e \u00e0 escassez de alimentos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No entanto, o tema continua controverso.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A Alemanha, por exemplo, n\u00e3o permite a irradia\u00e7\u00e3o de alimentos porque o consumidor considera que falta comprova\u00e7\u00e3o cient\u00edfica de que n\u00e3o causa mal. Mas autoriza que alimentos que tenham sido irradiados em outros pa\u00edses da Uni\u00e3o Europeia sejam comercializados em territ\u00f3rio alem\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E o que garante que o alimento irradiado n\u00e3o se torne radioativo?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u201cCom radia\u00e7\u00e3o eletromagn\u00e9tica, ou seja raio-X ou raio gama, a energia [aplicada sobre o alimento] tem de ser abaixo de 5 MeV [milh\u00f5es de eletrovolts]. Acima disso, o f\u00f3ton j\u00e1 tem energia suficiente para bater no n\u00facleo do \u00e1tomo e tornar o material irradiado radioativo. O cobalto-60, por exemplo, s\u00f3 emite duas ondas gama: uma com 1.17 e outra com 1.33 MeV, quer dizer, muito abaixo de 5 MeV\u201d, diz&nbsp;Mastrangelo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u201cPara el\u00e9trons acelerados o limite \u00e9 10 MeV. Acima disso, esse el\u00e9tron j\u00e1 tem energia suficiente para desestabilizar o n\u00facleo da amostra, e ela ficaria radioativa. Os aceleradores j\u00e1 v\u00eam regulados para n\u00e3o ultrapassar essa pot\u00eancia\u201d, afirma.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mastrangelo diz ainda que o alimento n\u00e3o tem nenhum contato com a fonte radioativa em si, protegida por mais de uma camada de selagem.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A Comiss\u00e3o Codex Alimentarius (da FAO\/OMS) estabelece os par\u00e2metros de irradia\u00e7\u00e3o a que cada grupo alimentar ou alimento pode ser submetido de acordo com a finalidade. Assim, a dose m\u00e1xima para retardar o brotamento de tub\u00e9rculos \u00e9 de 0,2 kGy; para desinfestar frutas frescas, 1 kGy; e para controle de parasitas em carnes e frutos do mar, 2 kGy.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">J\u00e1 a norma da Anvisa estabelece que qualquer alimento poder\u00e1 ser tratado por radia\u00e7\u00e3o desde que a dose m\u00ednima absorvida seja \u201csuficiente para alcan\u00e7ar a finalidade pretendida\u201d e a dose m\u00e1xima absorvida seja inferior \u00e0quela que \u201ccomprometeria as propriedades funcionais e\/ou os atributos sensoriais [por exemplo, cor, gosto, cheiro] do alimento\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Questionada sobre o porqu\u00ea de doses espec\u00edficas n\u00e3o terem sido fixadas, a exemplo de outros pa\u00edses, a Anvisa afirmou que, \u201cna aus\u00eancia de par\u00e2metros estabelecidos em regulamento nacional podem ser adotados os padr\u00f5es internacionais aceitos\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A portaria obriga ainda que a frase \u201calimento tratado por processo de irradia\u00e7\u00e3o\u201d conste nos r\u00f3tulos e nos locais de exposi\u00e7\u00e3o \u00e0 venda de produtos a granel irradiados, por meio de cartazes ou placas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Segundo a Anvisa, o n\u00e3o cumprimento das normas caracteriza infra\u00e7\u00e3o sanit\u00e1ria. J\u00e1 a utiliza\u00e7\u00e3o do s\u00edmbolo internacional da Radura \u00e9 opcional.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O governo Jair Bolsonaro tem mantido conversas com entidades cient\u00edficas e setores da ind\u00fastria com o objetivo de viabilizar a ado\u00e7\u00e3o em escala comercial da tecnologia de irradia\u00e7\u00e3o de alimentos para o mercado interno e para exporta\u00e7\u00e3o. As conversas s\u00e3o lideradas pelo Gabinete de Seguran\u00e7a Institucional e ocorrem desde a publica\u00e7\u00e3o da resolu\u00e7\u00e3o n\u00famero&nbsp;16, de 24 de outubro de 2019, que criou um grupo t\u00e9cnico para discutir \u201ca promo\u00e7\u00e3o do tratamento de alimentos e materiais com tecnologia nuclear\u201d. Em resumo, a t\u00e9cnica prev\u00ea que um alimento ou insumo seja colocado em uma m\u00e1quina blindada conhecida como irradiador e submetido a uma dosagem espec\u00edfica de radia\u00e7\u00e3o ionizante. Os principais objetivos s\u00e3o eliminar parasitas e retardar o amadurecimento ou brotamento do alimento, prolongando assim sua vida \u00fatil. Entre os planos em discuss\u00e3o pelo grupo t\u00e9cnico est\u00e1 a instala\u00e7\u00e3o de plantas industriais com irradiadores em pontos estrat\u00e9gicos do pa\u00eds, para uso em alimentos \u2013ou com prop\u00f3sitos m\u00faltiplos, para diminuir os custos. Uma segunda fase das conversas, a ter in\u00edcio neste ano, prev\u00ea a assinatura de acordos bilaterais em que a irradia\u00e7\u00e3o \u00e9 pr\u00e9-condi\u00e7\u00e3o para a exporta\u00e7\u00e3o dos alimentos. A irradia\u00e7\u00e3o de alimentos \u00e9 regulamentada no Brasil pela Resolu\u00e7\u00e3o n. 21 da Anvisa, de 2001, e pela Instru\u00e7\u00e3o Normativa n. 9 do Minist\u00e9rio da Agricultura, Pecu\u00e1ria e Abastecimento (Mapa), de 2011. Ambas permitem o uso de tr\u00eas tipos de irradia\u00e7\u00e3o: is\u00f3topos radioativos (cobalto-60 emissor de raios gama); el\u00e9trons acelerados e raios-X. A utiliza\u00e7\u00e3o do radiois\u00f3topo c\u00e9sio-137 \u00e9 praticamente vetada no Brasil mas permitida em outros pa\u00edses. \u201cNo Brasil, a maioria dos pesquisadores apoia a instala\u00e7\u00e3o de aceleradores de el\u00e9trons, porque \u00e9 muito simples: cortou a for\u00e7a el\u00e9trica, n\u00e3o tem radia\u00e7\u00e3o nenhuma nem problemas de res\u00edduo radioativo\u201d, afirma Thiago Mastrangelo, do Laborat\u00f3rio de Irradia\u00e7\u00e3o de Alimentos e Radioentomologia do Centro de Energia Nuclear na Agricultura (Cena), da USP em Piracicaba (SP). A Nuctech, da China, a Rosaton, da R\u00fassia, e a Fraunhofer, da Alemanha, manifestaram interesse em trazer seus irradiadores com tecnologia de feixe de el\u00e9trons para o mercado brasileiro. A estatal Rosaton encomendou um estudo para avaliar tanto a instala\u00e7\u00e3o de uma planta quanto o fornecimento do servi\u00e7o de irradia\u00e7\u00e3o. Um dos principais fabricantes de aceleradores de el\u00e9trons no mundo, a Nuctech disse ter mantido \u201cconversas pol\u00edticas\u201d, sem dar detalhes. J\u00e1 o foco do instituto de pesquisa Fraunhofer \u00e9 a aplica\u00e7\u00e3o de feixe de el\u00e9trons sobre sementes com o objetivo de eliminar pat\u00f3genos como alternativa ao \u201ctratamento qu\u00edmico\u201d, com uso inclusive na agricultura org\u00e2nica. \u201cEstamos trabalhando junto com produtores de sementes, universidades e investidores. O Brasil \u00e9 de interesse particular para n\u00f3s nesse planejamento devido \u00e0 grande import\u00e2ncia da ind\u00fastria da agricultura e o alto n\u00edvel de disposi\u00e7\u00e3o para a inova\u00e7\u00e3o\u201d, afirmou Ines Schedwill, chefe de marketing do Fraunhofer, em Dresden (ALE). O Brasil possui tecnologia de irradia\u00e7\u00e3o desde a d\u00e9cada de 1970, mas sua aplica\u00e7\u00e3o comercial em alimentos para o mercado interno \u00e9 limitada a pimentas, condimentos e temperos, al\u00e9m de ra\u00e7\u00f5es para animais. A Sterigenics, com sede nos EUA, det\u00e9m hoje o monop\u00f3lio da irradia\u00e7\u00e3o no Brasil com uma planta instalada em Jarinu (SP) com irradiadores de cobalto e de el\u00e9trons. O Cena possui dois irradiadores com fontes de cobalto-60 e um raio-X da Americana RadSource para uso cient\u00edfico e\/ou de baixa escala comercial. J\u00e1 o Ipen (Instituto de Pesquisas Energ\u00e9ticas e Nucleares) tem um acelerador de el\u00e9trons para uso em pesquisa e um irradiador Multiprop\u00f3sito de cobalto-60 para uso semi-industrial. O principal empecilho \u00e0 dissemina\u00e7\u00e3o do uso da irradia\u00e7\u00e3o no Brasil \u00e9 o custo \u2013 a instala\u00e7\u00e3o de uma planta moderna custa cerca de R$ 20 milh\u00f5es, incluindo equipamento e infraestrutura mas n\u00e3o a log\u00edstica. Da\u00ed o interesse em abrir o mercado para as estrangeiras e envolver o setor produtivo de grande porte nas conversas. \u201c\u00c9 uma t\u00e9cnica boa que, se bem aplicada, vai trazer vantagens para o Brasil no sentido de eliminar barreiras comerciais e de aumentar a exporta\u00e7\u00e3o\u201d, afirma o pesquisador Murillo Freire, da Embrapa Agroind\u00fastria de Alimentos. \u201cO Brasil precisava de um irradiador em cada estado, porque \u00e9 um pa\u00eds de dimens\u00f5es enormes. Mas n\u00e3o tem quem invista de fato, porque as pessoas t\u00eam medo ou desconhecem. E \u00e9 um neg\u00f3cio que d\u00e1 dinheiro, o retorno \u00e9 de um ano para um investimento de R$ 12 milh\u00f5es a R$ 15 milh\u00f5es\u201d, afirma Anna Lucia Villavicencio, pesquisadora do Centro de Tecnologia das Radia\u00e7\u00f5es do Ipen. Nesse sentido, um irradiador de el\u00e9trons \u00e9 visto como mais indicado pelos pesquisadores. O maior mercado importador de frutas brasileiras, por exemplo, \u00e9 a Europa, que v\u00ea com ressalvas o uso de radiois\u00f3topos, mas aceita melhor a radia\u00e7\u00e3o por feixe de el\u00e9trons ou raios-X, segundo Mastrangelo. Outro problema \u00e9 percep\u00e7\u00e3o do p\u00fablico, que identifica o uso de energia nuclear com acidentes como o que envolveu a manipula\u00e7\u00e3o de C\u00e9sio-137 em Goi\u00e2nia (1987), ou ainda Chernobil (1986) e Fukushima (2010). \u201cFalta conscientiza\u00e7\u00e3o do p\u00fablico em geral. Criou-se uma ideia de que produto irradiado \u00e9 produto radioativo. Mas a irradia\u00e7\u00e3o n\u00e3o torna o produto radioativo. Em outros pa\u00edses, muitos preferem o produto irradiado porque sabem que \u00e9 mais seguro\u201d, diz Freire.&nbsp;\u201cO esfor\u00e7o \u00e9 de quebrar esse paradigma, levar a t\u00e9cnica ao conhecimento de todos. Ela tem vantagens e desvantagens e ela n\u00e3o serve para tudo. Ent\u00e3o tem que saber direitinho onde voc\u00ea vai aplicar e com que finalidade para voc\u00ea ter vantagem com isso.\u201d \u201c\u00c9 mais seguro que o org\u00e2nico, que utiliza adubo natural, que \u00e9 cheio de bact\u00e9rias e micro-organismos patog\u00eanicos\u201d, afirma Villavicencio. A OMS (Organiza\u00e7\u00e3o Mundial da Sa\u00fade), a FAO (Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas para a Alimenta\u00e7\u00e3o e a Agricultura) e a AIEA (Ag\u00eancia Internacional de Energia At\u00f4mica) consideram que a tecnologia de irradia\u00e7\u00e3o de qualquer alimento at\u00e9 a dose de 10 kGy (quilo-Gray) n\u00e3o representa risco toxicol\u00f3gico e \u00e9 nutricionalmente adequada, al\u00e9m de ser uma op\u00e7\u00e3o de combate ao desperd\u00edcio e \u00e0 escassez de alimentos. No entanto, o tema continua controverso. A Alemanha, por exemplo, n\u00e3o permite a irradia\u00e7\u00e3o de alimentos porque o consumidor considera que falta comprova\u00e7\u00e3o cient\u00edfica de que n\u00e3o<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":53493,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"sfsi_plus_gutenberg_text_before_share":"","sfsi_plus_gutenberg_show_text_before_share":"","sfsi_plus_gutenberg_icon_type":"","sfsi_plus_gutenberg_icon_alignemt":"","sfsi_plus_gutenburg_max_per_row":"","footnotes":""},"categories":[2],"tags":[],"class_list":["post-151691","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-geral"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.caririemacao.com\/1\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/151691","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.caririemacao.com\/1\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.caririemacao.com\/1\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.caririemacao.com\/1\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.caririemacao.com\/1\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=151691"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.caririemacao.com\/1\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/151691\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":151692,"href":"https:\/\/www.caririemacao.com\/1\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/151691\/revisions\/151692"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.caririemacao.com\/1\/wp-json\/wp\/v2\/media\/53493"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.caririemacao.com\/1\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=151691"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.caririemacao.com\/1\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=151691"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.caririemacao.com\/1\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=151691"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}