{"id":164126,"date":"2020-04-15T13:50:14","date_gmt":"2020-04-15T16:50:14","guid":{"rendered":"http:\/\/www.caririemacao.com\/1\/?p=164126"},"modified":"2020-04-15T13:50:16","modified_gmt":"2020-04-15T16:50:16","slug":"coronavirus-modifica-rituais-do-luto-das-familias","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.caririemacao.com\/1\/2020\/04\/15\/coronavirus-modifica-rituais-do-luto-das-familias\/","title":{"rendered":"Coronav\u00edrus modifica rituais do luto das fam\u00edlias"},"content":{"rendered":"\n<p>O escritor e compositor Jos\u00e9 Miguel Wisnik j\u00e1 definiu o luto como a \u201cinternaliza\u00e7\u00e3o da pessoa que morre\u201d. O processo do luto seria ocupar um mundo desertificado por essa aus\u00eancia. Aos poucos, vamos recompondo esse espa\u00e7o, nos transformando naquilo que se perdeu, que passa a viver em n\u00f3s.<\/p>\n\n\n\n<p>As teorias desenvolvidas sobre esse processo o enxergam em fases, como nega\u00e7\u00e3o, isolamento, raiva, barganha depress\u00e3o, e por fim, aceita\u00e7\u00e3o (Elizabeth Kubler-Ross, 1926 \u2013 2014), ou o processo de rompimento de um v\u00ednculo e sua reorganiza\u00e7\u00e3o, e n\u00e3o aceita\u00e7\u00e3o, (Colin Murray Parkes, 1928 \u2013 e John Bowlby, 1907 \u2013 1920).<\/p>\n\n\n\n<p>A psic\u00f3loga pioneira do tema no Brasil Maria Helena Franco entende as fases como algo ultrapassado e prefere usar a teoria do processo dual do luto. A dualidade est\u00e1 em voc\u00ea oscilar entre uma viv\u00eancia de perda e uma de restaura\u00e7\u00e3o. \u201cComo oscila\u00e7\u00e3o tem conota\u00e7\u00e3o negativa no Brasil, costumo dizer que s\u00e3o ondas\u201d, diz Franco.<\/p>\n\n\n\n<p>O avan\u00e7o do novo coronav\u00edrus no Brasil tem impactado a forma como lidamos com a morte e, principalmente, com o luto. Rituais f\u00fanebres como vel\u00f3rios e enterros passaram a ser evitados, mas n\u00e3o est\u00e3o proibidos.<\/p>\n\n\n\n<p>Segundo o documento oficial do Minist\u00e9rio da Sa\u00fade, publicado em 25 de mar\u00e7o, sobre o manejo dos corpos, os vel\u00f3rios e funerais de pacientes com confirma\u00e7\u00e3o ou suspeita de Covid-19 n\u00e3o s\u00e3o recomendados.<\/p>\n\n\n\n<p>Se ocorrerem, h\u00e1 uma orienta\u00e7\u00e3o para que tenham no m\u00e1ximo dez pessoas, respeitando a dist\u00e2ncia m\u00ednima de dois metros entre elas, \u201cbem como outras medidas de isolamento social e de etiqueta respirat\u00f3ria\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Gisela Adissi, presidente do Sindicato e Associa\u00e7\u00e3o dos Cemit\u00e9rios do Brasil, diz ter visto uma diminui\u00e7\u00e3o na ocorr\u00eancia desses rituais desde o in\u00edcio da pandemia, independente da causa da morte. \u201cMuitas vezes, a pr\u00f3pria fam\u00edlia prefere n\u00e3o fazer, ou combinam de adiar o evento at\u00e9 que a pandemia termine.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Adissi organizou um documento que traz orienta\u00e7\u00f5es para esse momento. \u201cO perigo de contamina\u00e7\u00e3o surge do encontro de muitas pessoas. Ent\u00e3o, a orienta\u00e7\u00e3o \u00e9 que os vel\u00f3rios n\u00e3o tomem mais do que duas horas e tenham no m\u00e1ximo dez pessoas no total, e n\u00e3o em sistema de rod\u00edzio. E os profissionais do setor devem usar todos os equipamentos de prote\u00e7\u00e3o adequados\u201d, comenta.<\/p>\n\n\n\n<p>Em algumas cidades, como Curitiba e S\u00e3o Paulo, o rito f\u00fanebre para casos suspeitos e confirmados de Covid-19 est\u00e1 proibido.<\/p>\n\n\n\n<p>A psic\u00f3loga e doutora em psicologia cl\u00ednica Gabriela Casellato, s\u00f3cia-fundadora do 4 Esta\u00e7\u00f5es Instituto de Psicologia, especializado em luto, v\u00ea com preocupa\u00e7\u00e3o as consequ\u00eancias da priva\u00e7\u00e3o desses momentos.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cO primeiro impacto \u00e9 viver o luto abafadamente, isoladamente. Isso tende a impactar a dura\u00e7\u00e3o do luto e sua intensidade. Outra quest\u00e3o \u00e9 a falta da concretude, do corpo presente, podendo criar um aspecto amb\u00edguo no enfrentamento da perda. A pessoa tende a ter mais dificuldades em seguir a vida\u201d, diz.<\/p>\n\n\n\n<p>O luto de quem perdeu um ente querido para o v\u00edrus \u00e9 ainda mais dif\u00edcil. Casellato teme o estigma da morte pelo v\u00edrus. \u201cA pessoa que est\u00e1 em luto por algu\u00e9m que morreu em decorr\u00eancia da contamina\u00e7\u00e3o representa o que mais tememos neste contexto da pandemia. \u00c9 algu\u00e9m que est\u00e1 vivendo algo que eu n\u00e3o quero viver. A minha tend\u00eancia instintiva \u00e9 me defender dessa dor, porque eu n\u00e3o quero me ver na posi\u00e7\u00e3o dessa pessoa. E tem o risco do cont\u00e1gio real, n\u00e3o posso conviver com essa pessoa porque ela conviveu com algu\u00e9m que se contaminou.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Ela diz que costumamos criar uma narrativa para a morte, baseada em como a pessoa ficou doente, quando foi internada, o que aconteceu durante essa interna\u00e7\u00e3o, a fase da complica\u00e7\u00e3o, e como ocorreu a morte em si. Os pacientes contaminados s\u00e3o isolados, n\u00e3o permitindo aos familiares desenvolver essa narrativa. \u201cDeixar a pessoa no hospital, nunca mais v\u00ea-la e n\u00e3o saber o que se passou \u00e9 muito perturbador. Ser\u00e1 que ela sofreu muito, ser\u00e1 que ela agonizou? Fantasias como essas fazem as pessoas ficarem presas nesse pensamento.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Ela sugere, sempre que poss\u00edvel, valorizar o ritual simb\u00f3lico, para n\u00e3o deixar de ter esse momento de processamento da perda. \u201cUma sala de bate papo com fotos da pessoa morta pode parecer m\u00f3rbido, mas exerce a mesma fun\u00e7\u00e3o do funeral, a de poder compartilhar e concretizar. De n\u00e3o estar sozinho na dor\u201d, comenta.<\/p>\n\n\n\n<p>Gisela Adissi v\u00ea essas novas op\u00e7\u00f5es como um poss\u00edvel ensinamento da pandemia no que se refere ao luto. \u201cEstamos ganhando a oportunidade de reescrever os rituais f\u00fanebres\u201d, diz. A pesquisa que realizou em 2018, \u201cA Cartografia da Morte\u201d, concluiu que a maioria dos entrevistados n\u00e3o entendia o significado dos rituais. Esse seria, ent\u00e3o, um momento para repensarmos a forma como s\u00e3o feitos, para ganharem mais sentido e, assim, contribuir ainda mais para o processo do luto.<\/p>\n\n\n\n<p>Pensando nisso, Tom Almeida, fundador do movimento infinito.etc, est\u00e1 trabalhando em uma plataforma, que ser\u00e1 lan\u00e7ada dia 20 de abril, para ajudar as pessoas a realizar seus rituais virtuais. Contar\u00e1 com dicas de planejamento do ritual online, como a escolha da plataforma, a cria\u00e7\u00e3o do convite, com orienta\u00e7\u00e3o para deixar claro a data, hor\u00e1rio, tempo de dura\u00e7\u00e3o e o motivo do encontro.<\/p>\n\n\n\n<p>Tamb\u00e9m h\u00e1 indica\u00e7\u00f5es para a elabora\u00e7\u00e3o do roteiro do encontro. Boas-vindas iniciais, talvez um poema, fazer uma ora\u00e7\u00e3o de acordo com a religi\u00e3o, dependendo do dogma da fam\u00edlia e do falecido, abrir espa\u00e7o para compartilhar hist\u00f3rias e depoimentos, e encerrar com uma m\u00fasica ou com um brinde \u00e0 vida.<\/p>\n\n\n\n<p>Maur\u00edcio (nome fict\u00edcio) perdeu a m\u00e3e para a Covid-19 no final de mar\u00e7o. Ela teve acesso ao tratamento com cloroquina e respirador, mas n\u00e3o melhorou. Tinha 56 anos e nenhum doen\u00e7a pr\u00e9via. \u201cMeu pai foi sozinho reconhecer o corpo no hospital, sozinho at\u00e9 o cemit\u00e9rio e sozinho acompanh\u00e1-lo ao cremat\u00f3rio. \u00c9 tudo muito sozinho\u201d, comenta.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o tiveram vel\u00f3rio ou qualquer ritual f\u00fanebre, mas Mauricio espera poder realizar algo quando a pandemia passar, como \u201cuma missa de celebra\u00e7\u00e3o da vida dela\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Receber liga\u00e7\u00f5es e mensagem de apoio, ver como sua m\u00e3e era querida, trouxe conforto. \u201cMinha m\u00e3e era uma pessoa muito querida por muita gente. Fico emocionado na hora, mas eu me sinto bem. Vejo gente sofrendo por n\u00e3o ter tido o ritual. Faz muita falta sim. A sociedade est\u00e1 passando por uma coisa que vai nos marcar para sempre.\u201d<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O escritor e compositor Jos\u00e9 Miguel Wisnik j\u00e1 definiu o luto como a \u201cinternaliza\u00e7\u00e3o da pessoa que morre\u201d. 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