{"id":190381,"date":"2020-09-28T17:19:02","date_gmt":"2020-09-28T20:19:02","guid":{"rendered":"https:\/\/www.caririemacao.com\/1\/?p=190381"},"modified":"2020-09-28T17:19:04","modified_gmt":"2020-09-28T20:19:04","slug":"filha-que-doou-orgaos-do-pai-lembra-decisao-e-diz-que-sensacao-de-salvar-vidas-e-gratificante","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.caririemacao.com\/1\/2020\/09\/28\/filha-que-doou-orgaos-do-pai-lembra-decisao-e-diz-que-sensacao-de-salvar-vidas-e-gratificante\/","title":{"rendered":"Filha que doou \u00f3rg\u00e3os do pai lembra decis\u00e3o e diz que sensa\u00e7\u00e3o de salvar vidas \u00e9 gratificante"},"content":{"rendered":"\n<p>Ana Val\u00e9ria de Brito n\u00e3o sabe precisar direito o exato momento em que tudo aconteceu. Era um momento de festa, de comemora\u00e7\u00f5es, em que ela e algumas amigas davam as boas-vindas ao ano que acabava de se iniciar. Ela estava na praia de Intermares, em Cabedelo, munic\u00edpio da Grande Jo\u00e3o Pessoa, nas primeiras horas daquele 1\u00ba de janeiro de 2020. O telefone tocou de repente. Ela viu no visor do aparelho que era a sua m\u00e3e no outro lado da linha. Atendeu. De forma despretensiosa. Sem saber ainda que sua vida mudaria para sempre a partir dali. E que nas horas seguintes precisaria tomar decis\u00f5es das mais dif\u00edceis.<\/p>\n\n\n\n<p>A hist\u00f3ria dessa menina de 18 anos de idade tem tudo a ver com este 27 de setembro, quando se homenageia o Dia Nacional da Doa\u00e7\u00e3o de \u00d3rg\u00e3os. A hist\u00f3ria dela \u00e9, ao mesmo tempo, a de tantos outros paraibanos e brasileiros. Que se conectam entre si. Numa rede que envolve sentimentos diversos \u2013 e aparentemente opostos \u2013 como tristeza, dor, luto, revolta, esperan\u00e7a, solidariedade, amor, alegria. E que ligam para sempre pessoas desconhecidas entre si: doadores, familiares dos doadores, pacientes na fila de espera, receptores de \u00f3rg\u00e3os, que enfim ganham uma segunda chance de seguir vivendo com sa\u00fade.<\/p>\n\n\n\n<p>Ana Val\u00e9ria \u00e9 a filha do pedreiro Walmir Pedro de Brito, de 43 anos. Ele acordou bem cedo naquele dia. Saiu de casa de bicicleta, no bairro pessoense de Portal do Sol, e pedalava pela ciclovia da avenida principal do bairro a caminho do trabalho. Acabou sendo atropelado por um carro em alta velocidade.\u00a0A suspeita \u00e9 a de que o motorista voltava de uma festa de R\u00e9veillon e estava b\u00eabado.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" data-src=\"https:\/\/s2.glbimg.com\/E-k7MX9LXJEBNbviObluZaoYHUM=\/0x0:1600x1292\/984x0\/smart\/filters:strip_icc()\/i.s3.glbimg.com\/v1\/AUTH_59edd422c0c84a879bd37670ae4f538a\/internal_photos\/bs\/2020\/i\/v\/OrphWBSDOPawfhk272bQ\/bicicleta-pedreiro-acidente-joao-pessoa.jpeg\" alt=\"Bicicleta de Walmir em 1\u00ba de janeiro de 2020: atropelado no momento em que ia para o trabalho \u2014 Foto: Walter Paparazzo\/G1\" src=\"data:image\/svg+xml;base64,PHN2ZyB3aWR0aD0iMSIgaGVpZ2h0PSIxIiB4bWxucz0iaHR0cDovL3d3dy53My5vcmcvMjAwMC9zdmciPjwvc3ZnPg==\" class=\"lazyload\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p>Bicicleta de Walmir em 1\u00ba de janeiro de 2020: atropelado no momento em que ia para o trabalho \u2014 Foto: Walter Paparazzo\/G1<\/p>\n\n\n\n<p>Vanessa, m\u00e3e de Ana, ligava para dar a not\u00edcia que a menina n\u00e3o esperava receber naquela manh\u00e3 de divertimentos. O pai estava em estado grav\u00edssimo. Fora atropelado e levado para o hospital entre a vida e a morte. Ela rapidamente deixou o local onde estava e foi ao encontro do pai, ainda achando que tudo terminaria bem. N\u00e3o tardaria, saberia que o caso era irrevers\u00edvel. \u201cNem tudo sai como a gente espera\u201d, resume.<\/p>\n\n\n\n<p>Ainda no dia 1\u00ba de janeiro j\u00e1 se sabia que muito provavelmente Walmir n\u00e3o acordaria mais. A literatura m\u00e9dica, contudo, obriga um prazo de 24 horas antes de atestar oficialmente a morte encef\u00e1lica de uma pessoa, de forma que o diagn\u00f3stico s\u00f3 foi confirmado tecnicamente no dia 2. Naquele meio tempo, entre o luto pela morte e a revolta pelas suspeitas sobre a causa do acidente, a pergunta inevit\u00e1vel: doar ou n\u00e3o doar os \u00f3rg\u00e3os? Pela lei brasileira, cabe exclusivamente \u00e0 fam\u00edlia a decis\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cFiquei sabendo dos detalhes no hospital. Fui para casa de uma tia e l\u00e1 refleti muito\u201d, relembra. Em seguida, ela narra como foi todo o processo: \u201cFoi algo muito triste, completamente inesperado, um momento de luto, tristeza e ang\u00fastia, mas n\u00e3o chegou a ser uma decis\u00e3o dif\u00edcil\u201d.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" data-src=\"https:\/\/s2.glbimg.com\/bm_jewm4-fb8QvRgrzbGHds3x5E=\/0x68:768x672\/984x0\/smart\/filters:strip_icc()\/i.s3.glbimg.com\/v1\/AUTH_59edd422c0c84a879bd37670ae4f538a\/internal_photos\/bs\/2020\/R\/K\/nHBY1zSGK9LBJF0fMH5A\/whatsapp-image-2020-09-22-at-10.41.34.jpeg\" alt=\"Walmir Pedro de Brito foi declarado morto em 2 de janeiro \u2014 Foto: Ana Val\u00e9ria de Brito \/ Arquivo Pessoal\" src=\"data:image\/svg+xml;base64,PHN2ZyB3aWR0aD0iMSIgaGVpZ2h0PSIxIiB4bWxucz0iaHR0cDovL3d3dy53My5vcmcvMjAwMC9zdmciPjwvc3ZnPg==\" class=\"lazyload\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p>Walmir Pedro de Brito foi declarado morto em 2 de janeiro \u2014 Foto: Ana Val\u00e9ria de Brito \/ Arquivo Pessoal<\/p>\n\n\n\n<p>Partiu dela a palavra final sobre a doa\u00e7\u00e3o:<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>\u201cNo momento que eu enterrei meu pai, eu enterrei parte de mim. Mas o sentimento de salvar uma vida, de dar esperan\u00e7as para algu\u00e9m, de dar felicidade para uma outra fam\u00edlia, \u00e9 muito gratificante\u201d, analisa Ana Val\u00e9ria.<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p>Ela pondera ainda que tudo fica mais f\u00e1cil quando se muda as perspectivas. \u201cSe fosse o meu pai numa fila de transplante, eu gostaria que ele recebesse um \u00f3rg\u00e3o\u201d. Ana Val\u00e9ria explica que as li\u00e7\u00f5es do pr\u00f3prio pai, em vida, foram fundamentais para ela saber o que era o certo a fazer: \u201cEle sempre me ensinou a praticar o bem, a n\u00e3o ser ego\u00edsta. Foi o que fiz. A doa\u00e7\u00e3o \u00e9 um ato muito nobre, porque o transplante pode ser a \u00fanica possibilidade de recome\u00e7o para muitas pessoas\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>O f\u00edgado e dois rins de Walmir puderam ser doados. Dias depois, a filha foi avisada pelas autoridades de sa\u00fade da Para\u00edba do sucesso das opera\u00e7\u00f5es. \u00d3rg\u00e3os do pai dela salvaram pessoas (an\u00f4nimas para ela) em Jo\u00e3o Pessoa e em Recife. Ela gosta de pensar que, com a decis\u00e3o, \u201ca vida p\u00f4de ter sequ\u00eancia\u201d. E ainda hoje guarda no cora\u00e7\u00e3o os passeios de fim de tarde que fazia na praia, ao lado dele, no que classifica como \u201cos momentos mais felizes da vida\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Walmir passou a fazer parte de estat\u00edsticas de doa\u00e7\u00f5es de \u00f3rg\u00e3os, que est\u00e3o em crescimento na Para\u00edba. Segundo a Central de Transplantes do Governo do Estado, os \u00edndices dos dois \u00faltimos anos foram animadores.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>Em 2020, a m\u00e9dia est\u00e1 em tr\u00eas \u00f3rg\u00e3os doados por m\u00eas, contra uma m\u00e9dia de 0,8 por m\u00eas em 2019. Na soma dos dois anos, 68 pessoas da Para\u00edba e 40 de outros estados j\u00e1 deixaram a fila de transplantes por interven\u00e7\u00e3o direta dos esfor\u00e7os locais.<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" data-src=\"https:\/\/s2.glbimg.com\/Q4ChvpZs8NtUuIdnEjiFLqzlb4A=\/0x0:768x512\/984x0\/smart\/filters:strip_icc()\/i.s3.glbimg.com\/v1\/AUTH_59edd422c0c84a879bd37670ae4f538a\/internal_photos\/bs\/2020\/m\/k\/PhH2CzSoeHBHDXbGWVqA\/9a1aad61-a811-4f5d-9c3b-422b4658792f.jpeg\" alt=\"Para\u00edba voltou a realizar transplantes em 2019, depois de dez anos sem realizar esse tipo de cirurgia \u2014 Foto: Ricardo Puppe \/ Governo da Para\u00edba\" src=\"data:image\/svg+xml;base64,PHN2ZyB3aWR0aD0iMSIgaGVpZ2h0PSIxIiB4bWxucz0iaHR0cDovL3d3dy53My5vcmcvMjAwMC9zdmciPjwvc3ZnPg==\" class=\"lazyload\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p>Para\u00edba voltou a realizar transplantes em 2019, depois de dez anos sem realizar esse tipo de cirurgia \u2014 Foto: Ricardo Puppe \/ Governo da Para\u00edba<\/p>\n\n\n\n<p>Mas, se o retorno dado pela Central de Transplantes sobre o sucesso da interven\u00e7\u00e3o \u00e9 algo que comove Ana Val\u00e9ria, isso nem sempre foi assim. A fonoaudi\u00f3loga Pollyana Saraiva, 40 anos, viu a m\u00e3e morrer em mar\u00e7o de 2006. Naquela \u00e9poca, ela e sua fam\u00edlia autorizaram a doa\u00e7\u00e3o. As c\u00f3rneas foram doadas. O Estado prometeu dar um retorno, mas isso nunca aconteceu. \u201cFicamos tristes na \u00e9poca. Est\u00e1vamos abalados e era reconfortante para a gente saber que a doa\u00e7\u00e3o ajudou algu\u00e9m. Mas, embora prometido, nunca recebemos uma resposta\u201d, comentou ela.<\/p>\n\n\n\n<p>Pollyana admite, inclusive, que essa quest\u00e3o a incomoda at\u00e9 hoje, ainda que isso n\u00e3o a impe\u00e7a de tamb\u00e9m querer ser doadora de \u00f3rg\u00e3os. \u201cEu entendo, no fim das contas, que naquela \u00e9poca o servi\u00e7o ainda deveria estar no in\u00edcio\u201d, explica.<\/p>\n\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\">Quem recebe doa\u00e7\u00e3o de \u00f3rg\u00e3os<\/h4>\n\n\n\n<p>Hist\u00f3rias como as de Ana Val\u00e9ria e Pollyana t\u00eam sempre um outro lado da moeda. O lado de quem recebe o \u00f3rg\u00e3o. O lado que torna tudo muito emblem\u00e1tico e que interliga para sempre hist\u00f3rias que s\u00e3o ao mesmo tempo de dor e de alegria extremas. \u00c9 o caso de Jo\u00e3o Paulo da Costa, hoje com 39 anos, que em 2018 passou por um transplante de rim e recuperou parte de sua vida de volta.<\/p>\n\n\n\n<p>A narrativa sobre Jo\u00e3o Paulo, contudo, come\u00e7a 21 anos atr\u00e1s, quando ele tinha 18 e come\u00e7ou a ter frequentes dores de garganta. Foi ao m\u00e9dico, descobriu que estava com uma bact\u00e9ria alojada no local, come\u00e7ou a se tratar. Era um problema brando, na maioria das vezes tratado com medicamentos simples, mas com ele a coisa se complicou.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" data-src=\"https:\/\/s2.glbimg.com\/tTH3RZJ24tGqp02RfjguSjrVEyc=\/0x358:960x1078\/984x0\/smart\/filters:strip_icc()\/i.s3.glbimg.com\/v1\/AUTH_59edd422c0c84a879bd37670ae4f538a\/internal_photos\/bs\/2020\/a\/W\/tWEeqcRCmiqAt74uWQIQ\/whatsapp-image-2020-09-23-at-11.04.16.jpeg\" alt=\"Jo\u00e3o Paulo ao lado da esposa, Katyuscia: o outro lado da moeda \u2014 Foto: Jo\u00e3o Paulo da Costa \/ Arquivo Pessoal\" src=\"data:image\/svg+xml;base64,PHN2ZyB3aWR0aD0iMSIgaGVpZ2h0PSIxIiB4bWxucz0iaHR0cDovL3d3dy53My5vcmcvMjAwMC9zdmciPjwvc3ZnPg==\" class=\"lazyload\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p>Jo\u00e3o Paulo ao lado da esposa, Katyuscia: o outro lado da moeda \u2014 Foto: Jo\u00e3o Paulo da Costa \/ Arquivo Pessoal<\/p>\n\n\n\n<p>A bact\u00e9ria desceu e se alojou nos rins, agravando o quadro. Pelos dez anos seguintes, passou por um tratamento intenso. Rem\u00e9dios fortes, alimenta\u00e7\u00e3o controlada, proibi\u00e7\u00e3o de consumo de bebidas alco\u00f3licas. Ainda assim, tinha vida normal. Trabalhava como comerciante e taxista. Conheceu a namorada, Katyuscia, que viria a ser sua esposa. \u201cO maior presente que Deus me deu\u201d, declara.<\/p>\n\n\n\n<p>As coisas, contudo, estavam para mudar. Em 3 de agosto de 2009, ele recebeu o diagn\u00f3stico de insufici\u00eancia renal cr\u00f4nica. Os rins pararam de funcionar. Ele passou a ser obrigado a fazer hemodi\u00e1lise tr\u00eas vezes por semana, em sess\u00f5es que duravam entre tr\u00eas e quatro horas cada. \u00c9 um tratamento invasivo, constante, que aprisiona.<\/p>\n\n\n\n<p>O paciente n\u00e3o pode viajar, visto que n\u00e3o pode se distanciar por tempo demais da cl\u00ednica em que realiza o tratamento. Al\u00e9m disso, as sess\u00f5es debilitam o corpo, destroem a imunidade, tornam o passar do tempo um processo dolorido. \u201cA gente fica muito debilitado, muito fraco. Foi um per\u00edodo muito duro\u201d, explica.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" data-src=\"https:\/\/s2.glbimg.com\/toxwv6dEP4A-tEL86ToOPZ8Uj2Q=\/0x0:877x544\/984x0\/smart\/filters:strip_icc()\/i.s3.glbimg.com\/v1\/AUTH_59edd422c0c84a879bd37670ae4f538a\/internal_photos\/bs\/2020\/t\/b\/wsBAV2S6qF7BzFgDfH1A\/tvcamara.jpg\" alt=\"Jo\u00e3o Paulo passou dez longos anos fazendo hemodi\u00e1lise, processo que retira, filtra e recoloca todo o sangue do corpo do paciente \u2014 Foto: TV C\u00e2mara de Jo\u00e3o Pessoa \/ Reprodu\u00e7\u00e3o\" src=\"data:image\/svg+xml;base64,PHN2ZyB3aWR0aD0iMSIgaGVpZ2h0PSIxIiB4bWxucz0iaHR0cDovL3d3dy53My5vcmcvMjAwMC9zdmciPjwvc3ZnPg==\" class=\"lazyload\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p>Jo\u00e3o Paulo passou dez longos anos fazendo hemodi\u00e1lise, processo que retira, filtra e recoloca todo o sangue do corpo do paciente \u2014 Foto: TV C\u00e2mara de Jo\u00e3o Pessoa \/ Reprodu\u00e7\u00e3o<\/p>\n\n\n\n<p>Com o tempo, ele diz que cria-se uma rede de apoio e de amizades. A hemodi\u00e1lise \u00e9 feita numa sala com v\u00e1rias cadeiras, cada qual ocupada por um paciente diferente. E como as pessoas costumam realizar as sess\u00f5es sempre nos mesmos dias e hor\u00e1rios, todos acabam se conhecendo. Tornam-se amigos. Passam a se ajudar.<\/p>\n\n\n\n<p>Isso \u00e9 bom, claro. Mas tem o lado ruim. O lado da dor e do medo. Da conviv\u00eancia com a morte.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>\u201cTr\u00eas amigos meus morreram no exato momento em que estavam conversando comigo. A gente estava conversando e, de repente, a pessoa parava. Sofria uma parada card\u00edaca\u201d, relembra Jo\u00e3o Paulo.<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p>Ao menos outras dez pessoas que se tornaram amigas dele morreram na mesma \u00e9poca. \u201cEra algo corriqueiro. Voc\u00ea percebia. S\u00e3o sempre os mesmos hor\u00e1rios, os mesmos locais, as mesmas pessoas. Quando uma n\u00e3o aparecia, a gente j\u00e1 sabia o que tinha acontecido\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Foi um outro telefonema que mudou a vida de Jo\u00e3o Paulo. E, coincid\u00eancia maior, um que ele recebeu no dia 3 de agosto de 2019, no dia exato em que se completava dez anos do seu diagn\u00f3stico de insufici\u00eancia renal cr\u00f4nica.<\/p>\n\n\n\n<p>No dia anterior, ele diz que assistiu a uma reportagem sobre um acidente automobil\u00edstico registrado em Campina Grande. Uma mulher de 37 anos havia morrido. Mas, na hora, ele n\u00e3o pensou em nada ligado a ele. Passou o dia. \u00c0 noite, foi dormir como se fosse uma noite qualquer. N\u00e3o seria.<\/p>\n\n\n\n<p>De madrugada, o celular dele tocou. Foi a esposa, Katyuscia, quem atendeu. Sobressaltou-se. Acordou-o completamente assustado. Havia um rim compat\u00edvel \u00e0 espera dele. \u00c0s quatro da tarde daquele mesmo dia, estaria entrando na sala de cirurgia, de onde saiu \u00e0 meia-noite com um novo rim.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cHoje eu vivo uma vida quase normal. N\u00e3o posso pegar peso, n\u00e3o posso sofrer nenhuma pancada mais forte no local, mas hoje eu tenho uma liberdade que n\u00e3o conhecia h\u00e1 tempos. Sem a necessidade de hemodi\u00e1lise. N\u00e3o tem compara\u00e7\u00e3o. Estou livre daquela agulha, que \u00e9 mais grossa do que a usada para doa\u00e7\u00e3o de sangue\u201d, descreve.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" data-src=\"https:\/\/s2.glbimg.com\/3o1rq2324W0ohM_0uuadcNxFZtI=\/0x269:720x1139\/984x0\/smart\/filters:strip_icc()\/i.s3.glbimg.com\/v1\/AUTH_59edd422c0c84a879bd37670ae4f538a\/internal_photos\/bs\/2020\/T\/4\/GDEdC3SxAtk0owdADxJQ\/whatsapp-image-2020-09-23-at-11.03.48.jpeg\" alt=\"Jo\u00e3o Paulo e Katyuscia na \u00e9poca de seu transplante: um final feliz depois de duas d\u00e9cadas de incertezas \u2014 Foto: Jo\u00e3o Paulo da Costa \/ Arquivo Pessoal\" src=\"data:image\/svg+xml;base64,PHN2ZyB3aWR0aD0iMSIgaGVpZ2h0PSIxIiB4bWxucz0iaHR0cDovL3d3dy53My5vcmcvMjAwMC9zdmciPjwvc3ZnPg==\" class=\"lazyload\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p>Jo\u00e3o Paulo e Katyuscia na \u00e9poca de seu transplante: um final feliz depois de duas d\u00e9cadas de incertezas \u2014 Foto: Jo\u00e3o Paulo da Costa \/ Arquivo Pessoal<\/p>\n\n\n\n<p>Jo\u00e3o Paulo est\u00e1 fora da fila. No entanto, ela segue longa.&nbsp;S\u00e3o atualmente 642 em espera por transplante na Para\u00edba, sendo 438 no aguardo de c\u00f3rnea, 197 de rim, seis de f\u00edgado e um de cora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas Jo\u00e3o Paulo s\u00f3 pensa mesmo em viajar, t\u00e3o logo acabe a pandemia. E, para quem nunca p\u00f4de sair de Jo\u00e3o Pessoa, pequenos feitos se transformam em desejos de toda uma vida. \u201cMeu sonho \u00e9 conhecer a praia de Pipa\u201d, comenta Jo\u00e3o Paulo, sorridente, se dizendo pronto para ser feliz.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ana Val\u00e9ria de Brito n\u00e3o sabe precisar direito o exato momento em que tudo aconteceu. 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