{"id":194549,"date":"2020-11-05T06:37:56","date_gmt":"2020-11-05T09:37:56","guid":{"rendered":"https:\/\/www.caririemacao.com\/1\/?p=194549"},"modified":"2020-11-05T06:37:56","modified_gmt":"2020-11-05T09:37:56","slug":"tragedia-de-mariana-5-anos-sem-julgamento-ou-recuperacao-ambiental-5-vidas-contam-os-impactos-no-periodo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.caririemacao.com\/1\/2020\/11\/05\/tragedia-de-mariana-5-anos-sem-julgamento-ou-recuperacao-ambiental-5-vidas-contam-os-impactos-no-periodo\/","title":{"rendered":"Trag\u00e9dia de Mariana, 5 anos: sem julgamento ou recupera\u00e7\u00e3o ambiental, 5 vidas contam os impactos no per\u00edodo"},"content":{"rendered":"\n<p>Esperan\u00e7a, prepara\u00e7\u00e3o para o inesperado, injusti\u00e7a, tristeza e revolta. Nesta quinta-feira (5), o\u00a0rompimento da barragem de Fund\u00e3o, em\u00a0Mariana\u00a0(MG), completa cinco anos\u00a0e, com essas palavras e express\u00f5es, cinco pessoas que tiveram as vidas impactadas pelo maior desastre ambiental do pa\u00eds resumem estes 60 meses.<\/p>\n\n\n\n<p>A barragem da Samarco, cujas donas s\u00e3o a Vale e BHP Billiton, rompeu-se na tarde do dia 5 de novembro de 2015,&nbsp;provocando 19 mortes. Al\u00e9m de destruir casas, o mar de lama devastou o Rio Doce e atingiu o oceano no Esp\u00edrito Santo.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" data-src=\"https:\/\/s2.glbimg.com\/IyFZyKMLLj5UsOGtp2ZBxU_yzxM=\/0x0:4000x3000\/1008x0\/smart\/filters:strip_icc()\/i.s3.glbimg.com\/v1\/AUTH_59edd422c0c84a879bd37670ae4f538a\/internal_photos\/bs\/2020\/M\/Y\/4ZkKO2TxAwBzfYkmbGCA\/20201027-111901.jpg\" alt=\"Cinco anos depois, \u00e1guas seguem tingidas pelo alaranjado da lama no encontro dos rios do Carmo e Piranga \u2014 Foto: Lucas Franco\/TV Globo\" src=\"data:image\/svg+xml;base64,PHN2ZyB3aWR0aD0iMSIgaGVpZ2h0PSIxIiB4bWxucz0iaHR0cDovL3d3dy53My5vcmcvMjAwMC9zdmciPjwvc3ZnPg==\" class=\"lazyload\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p>Cinco anos depois, \u00e1guas seguem tingidas pelo alaranjado da lama no encontro dos rios do Carmo e Piranga \u2014 Foto: Lucas Franco\/TV Globo<\/p>\n\n\n\n<p>Nestes mais de 1,8 mil dias,\u00a0os respons\u00e1veis pela trag\u00e9dia n\u00e3o foram julgados. Em 2019,\u00a0o crime de homic\u00eddio foi retirado do processo.\u00a0As mortes provocadas pelo rompimento da barragem foram consideradas pela Justi\u00e7a como consequ\u00eancia da inunda\u00e7\u00e3o causada pelo rompimento.<\/p>\n\n\n\n<p>Durante este per\u00edodo, as comunidades destru\u00eddas\u00a0n\u00e3o foram reconstru\u00eddas\u00a0e ainda faltam respostas para a recupera\u00e7\u00e3o do meio ambiente.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" data-src=\"https:\/\/s2.glbimg.com\/_ZhrYGorDWBZkF4SNA6Wm9cfoBE=\/0x0:4000x3000\/1008x0\/smart\/filters:strip_icc()\/i.s3.glbimg.com\/v1\/AUTH_59edd422c0c84a879bd37670ae4f538a\/internal_photos\/bs\/2020\/T\/D\/Ij9nRHSIeZHE6l9YKAuQ\/20201018-103645.jpg\" alt=\"Rompimento da barragem de Fund\u00e3o destruiu casas em Mariana e Barra Longa \u2014 Foto: Lucas Franco\/TV Globo\" src=\"data:image\/svg+xml;base64,PHN2ZyB3aWR0aD0iMSIgaGVpZ2h0PSIxIiB4bWxucz0iaHR0cDovL3d3dy53My5vcmcvMjAwMC9zdmciPjwvc3ZnPg==\" class=\"lazyload\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p>Rompimento da barragem de Fund\u00e3o destruiu casas em Mariana e Barra Longa \u2014 Foto: Lucas Franco\/TV Globo<\/p>\n\n\n\n<p>Em mais um dia 5 de novembro sem a repara\u00e7\u00e3o definitiva dos danos causados rompimento da barragem, o&nbsp;<strong>G1<\/strong>&nbsp;relembra os primeiros momentos do desastre pela perspectiva de cinco atingidos:&nbsp;um sobrevivente, um bombeiro, um promotor, uma ativista e um pescador.&nbsp;Eles tamb\u00e9m falam sobre impactos da trag\u00e9dia em suas vidas ao longo desses cinco anos.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" data-src=\"https:\/\/s2.glbimg.com\/QcaVMZAOQIRGaPzswuPlrwuDWaI=\/0x0:1920x1080\/984x0\/smart\/filters:strip_icc()\/i.s3.glbimg.com\/v1\/AUTH_59edd422c0c84a879bd37670ae4f538a\/internal_photos\/bs\/2020\/Z\/g\/b4v21qR7iFW3HVYA2dBQ\/design-sem-nome.png\" alt=\"Sobrevivente, promotor, bombeiro, pescador e ativista relembram 5 anos da trag\u00e9dia \u2014 Foto: Reprodu\u00e7\u00e3o\" src=\"data:image\/svg+xml;base64,PHN2ZyB3aWR0aD0iMSIgaGVpZ2h0PSIxIiB4bWxucz0iaHR0cDovL3d3dy53My5vcmcvMjAwMC9zdmciPjwvc3ZnPg==\" class=\"lazyload\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p>Sobrevivente, promotor, bombeiro, pescador e ativista relembram 5 anos da trag\u00e9dia \u2014 Foto: Reprodu\u00e7\u00e3o<\/p>\n\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\">Francisco, sobrevivente<\/h4>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" data-src=\"https:\/\/s2.glbimg.com\/WgojGU9rZS0tX5DPFChGLBJCOiw=\/0x0:1700x1065\/1008x0\/smart\/filters:strip_icc()\/s.glbimg.com\/jo\/g1\/f\/original\/2016\/10\/30\/tratada_bento_francisco.jpg\" alt=\"Francisco de Paula Felipe, morador de Bento Rodrigues, visita local da trag\u00e9dia em 2016. \u2014 Foto: Cida Alves\/G1\" src=\"data:image\/svg+xml;base64,PHN2ZyB3aWR0aD0iMSIgaGVpZ2h0PSIxIiB4bWxucz0iaHR0cDovL3d3dy53My5vcmcvMjAwMC9zdmciPjwvc3ZnPg==\" class=\"lazyload\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p>Francisco de Paula Felipe, morador de Bento Rodrigues, visita local da trag\u00e9dia em 2016. \u2014 Foto: Cida Alves\/G1<\/p>\n\n\n\n<p>Enquanto a estrutura de Fund\u00e3o ru\u00eda, Francisco de Paula Felipe, de 51 anos, estava na sua casa, em Bento Rodrigues, uma das comunidades arrasadas pela enxurrada de rejeitos. Naquela tarde, acompanhado da mulher, Marli de F\u00e1tima Felipe, e da sogra, Maria das Gra\u00e7as Celestino Silva, a dona Gracita, ele assistia na TV uma novela que falava sobre a b\u00edblia.<\/p>\n\n\n\n<p>O barulho da lama varrendo o que encontrava pela frente \u00e9 algo que Francisco n\u00e3o se esquece. Era um estrondo que nunca tinha ouvido. Pensou em diversas possibilidades, at\u00e9 mesmo na barragem. N\u00e3o demorou muito para que visse a avalanche de rejeito engolindo o distrito em que viveu por mais de 30 anos.<\/p>\n\n\n\n<p>Como a casa de Francisco ficava em uma \u00e1rea mais alta, ele, a mulher e as duas filhas se salvaram ilesos. Mas a sogra dele saiu do local pouco tempo antes.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Quando foi por volta das 15h40, ela [dona Gracita] foi para casa e mais tarde voltaria. Desceu e n\u00e3o voltou mais&#8221;, lembra.&nbsp;A sogra de Francisco, que tinha 64 anos, \u00e9 uma das 19 v\u00edtimas da trag\u00e9dia.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" data-src=\"https:\/\/s2.glbimg.com\/mUIy59Q8-WpVWfcC8R9-N_Q9RGI=\/0x0:620x465\/984x0\/smart\/filters:strip_icc()\/s.glbimg.com\/jo\/g1\/f\/original\/2015\/11\/09\/maria_das_gracas_celestino_da_silva_620.jpg\" alt=\"Maria das Gra\u00e7as Celestino da Silva, 65 anos \u2014 Foto: Arquivo pessoal\" src=\"data:image\/svg+xml;base64,PHN2ZyB3aWR0aD0iMSIgaGVpZ2h0PSIxIiB4bWxucz0iaHR0cDovL3d3dy53My5vcmcvMjAwMC9zdmciPjwvc3ZnPg==\" class=\"lazyload\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p>Maria das Gra\u00e7as Celestino da Silva, 65 anos \u2014 Foto: Arquivo pessoal<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cA vida \u00e9 uma coisa que nunca mais se recupera. Bens materiais, a gente consegue por outros no lugar, mas a vida n\u00e3o tem como voltar de novo. S\u00f3 fica a saudade\u201d, diz ele.<\/p>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m da sogra de Francisco, a m\u00e3e dele, Marcelina Xavier Felipe, de 80 anos, foi arrastada pela lama. Mas moradores da regi\u00e3o conseguiram salv\u00e1-la.&nbsp;A idosa precisou ser internada e, mesmo cinco anos depois, convive com dores provocadas por sequelas do desastre.<\/p>\n\n\n\n<p>Desde o dia em que foi obrigado a deixar tudo para tr\u00e1s, Francisco j\u00e1 teve quatro endere\u00e7os. Hoje vive em um apartamento alugado pela Funda\u00e7\u00e3o Renova, entidade criada pelas mineradoras para gerir as a\u00e7\u00f5es de repara\u00e7\u00e3o dos danos causados pelo desastre.<\/p>\n\n\n\n<p>Passados 60 meses da trag\u00e9dia, ele afirma que&nbsp;ainda n\u00e3o foi indenizado&nbsp;porque, segundo Francisco, os valores est\u00e3o sendo discutidos. De acordo com o Minist\u00e9rio P\u00fablico de Minas Gerais (MPMG), de 925 n\u00facleos familiares cadastrados em Mariana, at\u00e9 outubro,&nbsp;apenas 345 haviam recebido indeniza\u00e7\u00f5es finais.<\/p>\n\n\n\n<p>Ao longo destes cinco anos, nem sequer o projeto da casa de Francisco foi finalizado. Al\u00e9m dele,\u00a0outras cerca de 210 fam\u00edlias aguardam a conclus\u00e3o das obras do novo Bento Rodrigues. O prazo fixado pela Justi\u00e7a para a entrega do reassentamento \u00e9 fevereiro de 2021, mas a pandemia do\u00a0coronav\u00edrus impactou o andamento dos trabalhos, que\u00a0foram suspensos duas vezes neste ano.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" data-src=\"https:\/\/s2.glbimg.com\/mv2KNQKpMGJuLSlhZPDcX0haUkY=\/0x0:620x465\/984x0\/smart\/filters:strip_icc()\/s.glbimg.com\/jo\/g1\/f\/original\/2015\/11\/08\/personagem.jpg\" alt=\"Francisco de Paula Felipe dias ap\u00f3s o rompimento no primeiro dos 4 endere\u00e7os que teve ap\u00f3s a trag\u00e9dia: um quarto de uma pousada \u2014 Foto: Raquel Freitas\/G1\" src=\"data:image\/svg+xml;base64,PHN2ZyB3aWR0aD0iMSIgaGVpZ2h0PSIxIiB4bWxucz0iaHR0cDovL3d3dy53My5vcmcvMjAwMC9zdmciPjwvc3ZnPg==\" class=\"lazyload\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p>Francisco de Paula Felipe dias ap\u00f3s o rompimento no primeiro dos 4 endere\u00e7os que teve ap\u00f3s a trag\u00e9dia: um quarto de uma pousada \u2014 Foto: Raquel Freitas\/G1<\/p>\n\n\n\n<p>Segundo o MPMG, apenas duas moradias estavam em fase de finaliza\u00e7\u00e3o em outubro. De acordo com a Renova, atualmente, a constru\u00e7\u00e3o de 5 casas, da escola, do posto de servi\u00e7os e do posto de sa\u00fade est\u00e1 em andamento.<\/p>\n\n\n\n<p>Recentemente,\u00a0o diretor-presidente da entidade, Andr\u00e9 de Freitas, reconheceu que muito tempo est\u00e1 sendo gasto nas obras, mas disse que a funda\u00e7\u00e3o se esfor\u00e7a para dar celeridade ao processo. Entretanto, esse n\u00e3o \u00e9 o sentimento dos moradores, que\u00a0j\u00e1 esperam por mais atrasos. Dois, quatro ou at\u00e9 cinco anos. Para Francisco, \u00e9 dif\u00edcil ter uma estimativa de quando poder\u00e1 voltar para casa.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" data-src=\"https:\/\/s2.glbimg.com\/8AzxMcLdTZKymQqsPP5tODujnXU=\/0x0:4000x3000\/984x0\/smart\/filters:strip_icc()\/i.s3.glbimg.com\/v1\/AUTH_59edd422c0c84a879bd37670ae4f538a\/internal_photos\/bs\/2020\/B\/I\/aiw742RzG3EWjKqy586Q\/20201019-103312.jpg\" alt=\"Obras do novo Bento Rodrigues foram paralisadas duas vezes em 2020 \u2014 Foto: Lucas Le\u00e3o\/TV Globo\" src=\"data:image\/svg+xml;base64,PHN2ZyB3aWR0aD0iMSIgaGVpZ2h0PSIxIiB4bWxucz0iaHR0cDovL3d3dy53My5vcmcvMjAwMC9zdmciPjwvc3ZnPg==\" class=\"lazyload\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p>Obras do novo Bento Rodrigues foram paralisadas duas vezes em 2020 \u2014 Foto: Lucas Le\u00e3o\/TV Globo<\/p>\n\n\n\n<p>Apesar de todas as perdas,&nbsp;esperan\u00e7a&nbsp;\u00e9 a palavra que, segundo ele, marca esses cinco anos.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>\u201cMesmo que as coisas da vida abalem a gente, Deus \u00e9 maior. Pode demorar, mas a gente tem que ter esperan\u00e7a que vai vir o melhor depois. Se a gente perder, acaba a for\u00e7a, a gente entra num fracasso sem volta e fica dif\u00edcil para gente mesmo e para as outras pessoas\u201d, diz.<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\">Tiago, bombeiro<\/h4>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" data-src=\"https:\/\/s2.glbimg.com\/rngCm9yWHQmYzHsCsPW5BgyBrfM=\/0x89:1280x633\/1008x0\/smart\/filters:strip_icc()\/i.s3.glbimg.com\/v1\/AUTH_59edd422c0c84a879bd37670ae4f538a\/internal_photos\/bs\/2019\/W\/1\/qQWD3HRDAFoiFi2JVRrQ\/whatsapp-image-2019-05-24-at-15.37.15-1-.jpeg\" alt=\"Capit\u00e3o Tiago atuou em Mariana e em Brumadinho \u2014 Foto: Corpo de Bombeiros\" src=\"data:image\/svg+xml;base64,PHN2ZyB3aWR0aD0iMSIgaGVpZ2h0PSIxIiB4bWxucz0iaHR0cDovL3d3dy53My5vcmcvMjAwMC9zdmciPjwvc3ZnPg==\" class=\"lazyload\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p>Capit\u00e3o Tiago atuou em Mariana e em Brumadinho \u2014 Foto: Corpo de Bombeiros<\/p>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m de dona Gracita, a trag\u00e9dia deixou mais quatro v\u00edtimas em Bento Rodrigues. As outras 14 trabalhavam no Complexo de Germano, onde se localiza a barragem de Fund\u00e3o. Para localizar os corpos, durante quase dois meses,&nbsp;mais de 1,6 mil integrantes do Corpo de Bombeiros trabalharam nas opera\u00e7\u00f5es de resgate em Mariana.<\/p>\n\n\n\n<p>Um desses militares \u00e9 o capit\u00e3o Tiago Costa, de 30 anos. Naquela \u00e9poca, ainda tenente, o oficial do Batalh\u00e3o de Emerg\u00eancias Ambientais e Resposta a Desastres (Bemad) acumulava seis anos de experi\u00eancia na corpora\u00e7\u00e3o. Ele se recorda que, na tarde em que a barragem se rompeu, estava de plant\u00e3o. &#8220;Recebemos uma liga\u00e7\u00e3o falando da possibilidade do rompimento, mas a situa\u00e7\u00e3o ainda estava para se confirmar&#8221;, recorda.<\/p>\n\n\n\n<p>A equipe do capit\u00e3o foi uma das primeiras que chegaram \u00e0 regi\u00e3o de Bento Rodrigues. E l\u00e1 ele&nbsp;permaneceu nos dez primeiros dias ap\u00f3s o desastre, sem que voltasse para casa.<\/p>\n\n\n\n<p>Acostumado a atuar em situa\u00e7\u00f5es adversas, enquanto seguia para Mariana, o militar ainda n\u00e3o tinha dimens\u00e3o do desafio que encontraria.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>&#8220;Foi algo inesperado. Algo daquele tamanho foi uma surpresa para todo mundo. A minha equipe foi por terra para Bento Rodrigues. S\u00f3 quando cheguei, a\u00ed sim tive a dimens\u00e3o do que foi a trag\u00e9dia&#8221;, relembra.<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p>O capit\u00e3o conta que, no primeiro momento, a prioridade era retirar as pessoas que estavam na lama e tamb\u00e9m criar mecanismos para que as pessoas pudessem ser evacuadas. Ele e outros militares&nbsp;passaram a madrugada abrindo uma estrada&nbsp;para que os moradores ilhados fossem retirados dali.<\/p>\n\n\n\n<p>Entre os momentos que mais marcaram a mem\u00f3ria do capit\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o \u00e0queles dias de trabalho incessante, dois envolvem a frustra\u00e7\u00e3o de n\u00e3o poder levar conforto \u00e0s fam\u00edlias das v\u00edtimas.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>\u201cTinha uma crian\u00e7a, o Thiago, meu xar\u00e1, que estava desaparecido desde o in\u00edcio. Conseguimos localizar a casa, os brinquedos. Era uma esperan\u00e7a muito grande de o corpo ser encontrado ali. A inten\u00e7\u00e3o era dar aquele alento, mesmo sabendo que n\u00e3o era poss\u00edvel encontr\u00e1-lo com vida\u201d, recorda.<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" data-src=\"https:\/\/s2.glbimg.com\/dz4MSQ5zonCLlEiw3fH_lXwnWwU=\/0x0:1440x1080\/984x0\/smart\/filters:strip_icc()\/s.glbimg.com\/jo\/g1\/f\/original\/2015\/11\/07\/thiago_7anos_620.jpg\" alt=\"Thiago Damasceno, 7 anos, desaparecido ap\u00f3s rompimento de barragens. \u2014 Foto: Reprodu\u00e7\u00e3o\/TV Globo\" src=\"data:image\/svg+xml;base64,PHN2ZyB3aWR0aD0iMSIgaGVpZ2h0PSIxIiB4bWxucz0iaHR0cDovL3d3dy53My5vcmcvMjAwMC9zdmciPjwvc3ZnPg==\" class=\"lazyload\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p>Thiago Damasceno, 7 anos, desaparecido ap\u00f3s rompimento de barragens. \u2014 Foto: Reprodu\u00e7\u00e3o\/TV Globo<\/p>\n\n\n\n<p>Entretanto, o corpo do garoto, de 7 anos, acabou sendo encontrado em outro local e foi reconhecido 6 dias ap\u00f3s o desastre.<\/p>\n\n\n\n<p>A outra marca que o militar carrega da trag\u00e9dia \u00e9 o fato de uma das 19 v\u00edtimas, o funcion\u00e1rio da Samarco Edmirson Jos\u00e9 Pessoa, de 48 anos,&nbsp;nunca ter sido localizado.<\/p>\n\n\n\n<p>Durante tr\u00eas anos, o capit\u00e3o e outros militares do batalh\u00e3o acreditaram que a trag\u00e9dia de Mariana seria a maior ocorr\u00eancia em que atuariam ao longo da carreira no Corpo de Bombeiros. Mas, em janeiro de 2019, Minas Gerais foi palco de\u00a0mais um desastre da minera\u00e7\u00e3o: o\u00a0rompimento da barragem da Vale, em Brumadinho.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" data-src=\"https:\/\/s2.glbimg.com\/JNZ26ZVsn3x80m6hsQVzNyDumdU=\/0x0:1700x1065\/984x0\/smart\/filters:strip_icc()\/s.glbimg.com\/jo\/g1\/f\/original\/2015\/11\/08\/mariana2.jpg\" alt=\" Bombeiros trabalham na busca por v\u00edtimas em Mariana por cerca de dois meses \u2014 Foto: Ricardo Moraes\/Reuters\" src=\"data:image\/svg+xml;base64,PHN2ZyB3aWR0aD0iMSIgaGVpZ2h0PSIxIiB4bWxucz0iaHR0cDovL3d3dy53My5vcmcvMjAwMC9zdmciPjwvc3ZnPg==\" class=\"lazyload\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p>Bombeiros trabalham na busca por v\u00edtimas em Mariana por cerca de dois meses \u2014 Foto: Ricardo Moraes\/Reuters<\/p>\n\n\n\n<p>O oficial tamb\u00e9m participou ativamente da opera\u00e7\u00e3o de resgate no C\u00f3rrego do Feij\u00e3o. A equipe coordenada por ele foi a respons\u00e1vel pela&nbsp;localiza\u00e7\u00e3o do refeit\u00f3rio, onde estavam diversas das 270 v\u00edtimas da trag\u00e9dia.<\/p>\n\n\n\n<p>Ap\u00f3s os dois desastres, o capit\u00e3o torce para que nada parecido se repita, mas diz que os bombeiros seguem se preparando para qualquer situa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>\u201cA frase que n\u00f3s temos \u00e9 que \u00e9 melhor estar preparado para o imposs\u00edvel do que ser surpreendido pelo inesperado\u201d, diz.<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\">Guilherme, promotor<\/h4>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" data-src=\"https:\/\/s2.glbimg.com\/sWI7lJMxXsOLh48tW4Mrt_Tte0Y=\/0x0:1280x960\/1008x0\/smart\/filters:strip_icc()\/i.s3.glbimg.com\/v1\/AUTH_59edd422c0c84a879bd37670ae4f538a\/internal_photos\/bs\/2020\/e\/M\/aV1KaQQAODN6Wloc7jcg\/whatsapp-image-2020-10-28-at-18.24.47.jpeg\" alt=\"Guilherme Meneghin atua na defesa dos direitos dos atingidos desde os primeiros momentos da trag\u00e9dia \u2014 Foto: Guilherme Meneghin\/Arquivo Pessoal\" src=\"data:image\/svg+xml;base64,PHN2ZyB3aWR0aD0iMSIgaGVpZ2h0PSIxIiB4bWxucz0iaHR0cDovL3d3dy53My5vcmcvMjAwMC9zdmciPjwvc3ZnPg==\" class=\"lazyload\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p>Guilherme Meneghin atua na defesa dos direitos dos atingidos desde os primeiros momentos da trag\u00e9dia \u2014 Foto: Guilherme Meneghin\/Arquivo Pessoal<\/p>\n\n\n\n<p>Se em uma frente autoridades do estado estavam preocupadas em localizar os corpos das v\u00edtimas que perderam a vida, em outra o objetivo era&nbsp;fazer cumprir os direitos daqueles que conseguiram sobreviver, mas viram ir embora tudo o que tinham.<\/p>\n\n\n\n<p>Desde os primeiros momentos da trag\u00e9dia, o promotor Guilherme Meneghin tem atuado para buscar garantias aos atingidos. Nascido em Ouro Preto, antes de ingressar na 1\u00aa Promotoria de Mariana, atuou como advogado e delegado e morou em outros locais do estado. Ao voltar para sua regi\u00e3o, esperava encontrar tranquilidade e aproveitar a proximidade da fam\u00edlia. Mas essa expectativa n\u00e3o corresponde \u00e0 rotina dos \u00faltimos cinco anos.<\/p>\n\n\n\n<p>A primeira informa\u00e7\u00e3o que teve sobre a trag\u00e9dia foi por meio de uma liga\u00e7\u00e3o que sua assessora recebeu de parentes, relatando o rompimento da barragem e dizendo que a avalanche de rejeitos poderia atingir Barra Longa, cidade que tamb\u00e9m teve uma comunidade destru\u00edda.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>\u201cLogo a gente achou que era algo extraordin\u00e1rio, que n\u00e3o parecia nem ser verdade. Recebemos outras liga\u00e7\u00f5es. E ent\u00e3o comecei a entrar em contato com colegas do Minist\u00e9rio P\u00fablico, Pol\u00edcia Militar, Corpo de Bombeiros\u201d, relembra.<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p>O promotor foi at\u00e9 a Arena Mariana, gin\u00e1sio para onde seriam levados os moradores desabrigados. \u201cFui at\u00e9 l\u00e1 para recepcionar as pessoas. Mas a ficha caiu que a gravidade era maior que a gente podia imaginar. A Arena Mariana ainda estava vazia. Fiquei ainda mais preocupado quando&nbsp;descobri que as pessoas ainda estavam ilhadas\u201d, recorda.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" data-src=\"https:\/\/s2.glbimg.com\/84B9h8bFJEPE_KZGvcagiwsI4F8=\/0x0:1280x1204\/984x0\/smart\/filters:strip_icc()\/i.s3.glbimg.com\/v1\/AUTH_59edd422c0c84a879bd37670ae4f538a\/internal_photos\/bs\/2020\/L\/O\/R4BgIBQympkvOva72skQ\/whatsapp-image-2020-10-28-at-10.26.52.jpeg\" alt=\"Guilherme Meneghin ao centro da mesa na \u00e9poca do desastre \u2014 Foto: Guilherme Meneghin\/Arquivo Pessoal\" src=\"data:image\/svg+xml;base64,PHN2ZyB3aWR0aD0iMSIgaGVpZ2h0PSIxIiB4bWxucz0iaHR0cDovL3d3dy53My5vcmcvMjAwMC9zdmciPjwvc3ZnPg==\" class=\"lazyload\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p>Guilherme Meneghin ao centro da mesa na \u00e9poca do desastre \u2014 Foto: Guilherme Meneghin\/Arquivo Pessoal<\/p>\n\n\n\n<p>Ainda nas primeiras 24 horas ap\u00f3s a trag\u00e9dia, Meneghin come\u00e7ou a colher depoimentos dos sobreviventes. Cinco dias ap\u00f3s o rompimento, o promotor moveu a primeira a\u00e7\u00e3o contra a Samarco e suas controladoras. Hoje, mais de 1,8 mil dias ap\u00f3s desastre,&nbsp;j\u00e1 s\u00e3o 25 processos ajuizados pelo MPMG em Mariana relacionados \u00e0 trag\u00e9dia.<\/p>\n\n\n\n<p>A quantidade de a\u00e7\u00f5es civis p\u00fablicas, cautelares e de cumprimento de senten\u00e7a se justificam diante da demora e da negativa em rela\u00e7\u00e3o ao cumprimento dos direitos dos atingidos. Meneghin cita como exemplos a postura da Funda\u00e7\u00e3o Renova, que classifica como ineficiente, em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 reconstru\u00e7\u00e3o das comunidades atingidas e ao pagamento de indeniza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>\u201cAl\u00e9m do crime no dia 5, h\u00e1 uma continuidade de atos ilegais da Renova, atuando em nome das empresas. Na maioria das vezes, ela atua somente sob press\u00e3o do Minist\u00e9rio P\u00fablico, do poder Judici\u00e1rio e da manifesta\u00e7\u00e3o dos atingidos\u201d, afirma.<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" data-src=\"https:\/\/s2.glbimg.com\/bFR6flGi5md1cv2N2CXYp1u9Iao=\/0x0:4000x3000\/1008x0\/smart\/filters:strip_icc()\/i.s3.glbimg.com\/v1\/AUTH_59edd422c0c84a879bd37670ae4f538a\/internal_photos\/bs\/2020\/f\/H\/uwmBPYRdCtKllffvAQ1A\/20201018-110718.jpg\" alt=\"Estrutura da Escola de Bento Rodrigues ainda guarda marcas da lama 5 anos ap\u00f3s o desastre \u2014 Foto: Lucas Le\u00e3o\/TV Globo\" src=\"data:image\/svg+xml;base64,PHN2ZyB3aWR0aD0iMSIgaGVpZ2h0PSIxIiB4bWxucz0iaHR0cDovL3d3dy53My5vcmcvMjAwMC9zdmciPjwvc3ZnPg==\" class=\"lazyload\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p>Estrutura da Escola de Bento Rodrigues ainda guarda marcas da lama 5 anos ap\u00f3s o desastre \u2014 Foto: Lucas Le\u00e3o\/TV Globo<\/p>\n\n\n\n<p>Ao tentar resumir os \u00faltimos cinco anos, o promotor aponta a palavra&nbsp;injusti\u00e7a. \u201cA gente ainda tem muitas vezes no Brasil a culpabiliza\u00e7\u00e3o das v\u00edtimas. A Renova&nbsp;n\u00e3o pediu perd\u00e3o pelo crime&nbsp;e por todas as falhas nesses cinco anos. No dia em que eu ouvir isso, um pedido de perd\u00e3o, a\u00ed eu vou come\u00e7ar a acreditar na Funda\u00e7\u00e3o Renova\u201d, diz. A entidade n\u00e3o quis comentar a declara\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Para o futuro, ele espera que os direitos conquistados pelos moradores de Mariana, por meio de acordos e decis\u00f5es, sejam garantidos em lei a todas a v\u00edtimas de desastre, evitando assim batalhas judiciais como as que vem enfrentando ao longo destes cinco anos.<\/p>\n\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\">Vera, ativista<\/h4>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" data-src=\"https:\/\/s2.glbimg.com\/F9jpfhsUiwF4WZX4flXehwZfruk=\/0x0:1920x1080\/1008x0\/smart\/filters:strip_icc()\/i.s3.glbimg.com\/v1\/AUTH_59edd422c0c84a879bd37670ae4f538a\/internal_photos\/bs\/2018\/B\/z\/07tXwcTNaAGHYy9mwX7g\/20181016-181455-1.jpg\" alt=\"Vera L\u00facia Aleixo e Silva durante reuni\u00e3o de atingidos em 2018 em Gesteira, distrito de Barra Longa \u2014 Foto: Raquel Freitas\/G1\" src=\"data:image\/svg+xml;base64,PHN2ZyB3aWR0aD0iMSIgaGVpZ2h0PSIxIiB4bWxucz0iaHR0cDovL3d3dy53My5vcmcvMjAwMC9zdmciPjwvc3ZnPg==\" class=\"lazyload\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p>Vera L\u00facia Aleixo e Silva durante reuni\u00e3o de atingidos em 2018 em Gesteira, distrito de Barra Longa \u2014 Foto: Raquel Freitas\/G1<\/p>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m dos questionamentos na Justi\u00e7a, a atua\u00e7\u00e3o da Funda\u00e7\u00e3o Renova foi in\u00fameras vezes alvo de&nbsp;protestos de moradores. A aposentada Vera L\u00facia Aleixo e Silva, de 64 anos, j\u00e1 perdeu as contas de quantas manifesta\u00e7\u00f5es participou desde o rompimento da barragem.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>\u201cA dor \u00e9 t\u00e3o grande que me empoderou para lutar por mim e pelo outro. Essa coragem vem da dor e da necessidade. Eu luto mais \u00e9 por causa dessas pessoas que j\u00e1 perderam a esperan\u00e7a, e a pior coisa na nossa vida \u00e9 perder a esperan\u00e7a. Se depender de eu lutar, eu vou lutar at\u00e9 quando tiver for\u00e7a\u201d, diz a idosa.<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p>Depois do rompimento de Fund\u00e3o, a aposentada tornou-se integrante da comiss\u00e3o dos atingidos e tamb\u00e9m do Movimento de Atingidos por Barragem (MAB).<\/p>\n\n\n\n<p>Do dia 5 de novembro de 2015, ela n\u00e3o se esquece do \u201cbarulho apavorante\u201d da chegada da lama em Gesteira, distrito de Barra Longa (MG), nos \u00faltimos minutos do dia. \u201cChegou arrasando tudo, por volta das 23h45. A lama n\u00e3o vinha de manso que dava para sair fora.&nbsp;Perdi minha casa inteira, que tinha acabado de reformar\u201d, rememora.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" data-src=\"https:\/\/s2.glbimg.com\/64jufB3FPVeYKaHTnfDbGzQ6Dm4=\/0x0:2000x1127\/984x0\/smart\/filters:strip_icc()\/s.glbimg.com\/jo\/g1\/f\/original\/2016\/11\/06\/dsc00858_KLXSr3T.jpg\" alt=\"Rio Gualaxo do Norte, em Gesteira, distrito de Barra Longa em 2016 \u2014 Foto: Raquel Freitas\/G1\" src=\"data:image\/svg+xml;base64,PHN2ZyB3aWR0aD0iMSIgaGVpZ2h0PSIxIiB4bWxucz0iaHR0cDovL3d3dy53My5vcmcvMjAwMC9zdmciPjwvc3ZnPg==\" class=\"lazyload\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p>Rio Gualaxo do Norte, em Gesteira, distrito de Barra Longa em 2016 \u2014 Foto: Raquel Freitas\/G1<\/p>\n\n\n\n<p>Vera nasceu, cresceu e criou sua fam\u00edlia em Gesteira, mas h\u00e1 cinco anos vive em Mariana, em uma casa alugada pela Funda\u00e7\u00e3o Renova. Para ela, o sentimento que representa esse per\u00edodo \u00e9 a\u00a0tristeza.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>\u201cO que eu levei 40 anos para construir, eles levaram 20 minutos para destruir\u201d, afirma.<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p>M\u00e3e de tr\u00eas filhos, Vera complementava a renda com servi\u00e7os de cabeleireira e manicure em um sal\u00e3o domiciliar, atividade que n\u00e3o conseguiu retomar em Mariana. J\u00e1 o marido, plantava feij\u00e3o, milho, verduras e frutas, que garantiam um dinheiro extra para fam\u00edlia.<\/p>\n\n\n\n<p>A luta pelo reconhecimento pela perda de renda levou cerca de tr\u00eas anos. E, s\u00f3 depois de mais de quatro anos, a aposentada&nbsp;conseguiu receber uma indeniza\u00e7\u00e3o&nbsp;pelos danos sofridos na trag\u00e9dia.<\/p>\n\n\n\n<p>At\u00e9 o fim de agosto, segundo a Funda\u00e7\u00e3o Renova, R$ 2,6 bilh\u00f5es haviam sido destinados ao pagamento de aux\u00edlios financeiros emergenciais e indeniza\u00e7\u00f5es a mais de 321 mil pessoas ao longo da bacia do Rio Doce.<\/p>\n\n\n\n<p>Entretanto, esses cinco anos n\u00e3o foram suficientes sequer para que Vera consiga ter expectativa de quando poder\u00e1 ter de volta uma casa pr\u00f3pria. Vinte e seis fam\u00edlias devem ser reassentadas na nova Gesteira, mas at\u00e9 hoje&nbsp;o projeto das obras ainda n\u00e3o saiu do papel.<\/p>\n\n\n\n<p>Outras oito fam\u00edlias optaram pelo reassentamento familiar e, segundo a Renova, j\u00e1 foram fechados os acordos.<\/p>\n\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\"><strong>Jos\u00e9 M\u00e1rcio, pescador<\/strong><\/h4>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" data-src=\"https:\/\/s2.glbimg.com\/3bZev0s3DrAsqie6ihZ_lbs8jOA=\/0x0:797x575\/1008x0\/smart\/filters:strip_icc()\/i.s3.glbimg.com\/v1\/AUTH_59edd422c0c84a879bd37670ae4f538a\/internal_photos\/bs\/2020\/Q\/u\/EYt7vISPCtNIKIFaKo4Q\/josemarcio.png\" alt=\"Jos\u00e9 M\u00e1rcio Lazarini, \u00e0 direita, tinha o rio como sustento \u2014 Foto: Jos\u00e9 M\u00e1rcio Lazarini\/Arquivo Pessoal\" src=\"data:image\/svg+xml;base64,PHN2ZyB3aWR0aD0iMSIgaGVpZ2h0PSIxIiB4bWxucz0iaHR0cDovL3d3dy53My5vcmcvMjAwMC9zdmciPjwvc3ZnPg==\" class=\"lazyload\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p>Jos\u00e9 M\u00e1rcio Lazarini, \u00e0 direita, tinha o rio como sustento \u2014 Foto: Jos\u00e9 M\u00e1rcio Lazarini\/Arquivo Pessoal<\/p>\n\n\n\n<p>Nestes 60 meses, tamb\u00e9m n\u00e3o foram trazidas respostas definitivas sobre a quest\u00e3o ambiental para quem vive na regi\u00e3o da Usina Hidrel\u00e9trica Risoleta Neves, mais conhecida como Candonga. A estrutura serviu de barreira para parte da lama que vazou da barragem de Fund\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Segundo a Renova, cerca de 9,6 milh\u00f5es de metros c\u00fabicos de rejeito ficaram retidos na \u00e1rea da usina.\u00a0Em cinco anos,\u00a0apenas 10% desse total foram removidos do local.<\/p>\n\n\n\n<p>Essa situa\u00e7\u00e3o \u00e9 uma preocupa\u00e7\u00e3o que atormenta Jos\u00e9 M\u00e1rcio Lazarini desde o dia 6 de novembro de 2015, quando o \u201cmar de lama\u201d chegou \u00e0 cidade do Rio Doce. Al\u00e9m de pescador, ele \u00e9 garimpeiro, mas hoje trabalha como pedreiro para conseguir sustentar a fam\u00edlia.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>\u201cTransformou a nossa vida em outro jeito de viver. Hoje n\u00e3o tem mais o rio, a gente sofre muito ainda. A gente at\u00e9 vai no rio, mas n\u00e3o \u00e9 mais igual antigamente. (&#8230;) A \u00fanica fonte de renda que a gente tinha aqui era o rio. Ele era o nosso patr\u00e3o. N\u00e3o era s\u00f3 ouro e peixe, tinha cascalho, pedra, areia. Hoje n\u00e3o temos nada\u201d, diz.<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" data-src=\"https:\/\/s2.glbimg.com\/XVl9Hwa_K_k_68ZE3fwfl6B82xA=\/0x0:1558x757\/984x0\/smart\/filters:strip_icc()\/i.s3.glbimg.com\/v1\/AUTH_59edd422c0c84a879bd37670ae4f538a\/internal_photos\/bs\/2018\/2\/H\/Iv82r3SNK5wB2Hn6gcjA\/marcio-.jpg\" alt=\"Pescador e garimpeiro, Jos\u00e9 M\u00e1rcio Lazarini em 2018 na margem do Rio Doce \u2014 Foto: Raquel Freitas\/G1\" src=\"data:image\/svg+xml;base64,PHN2ZyB3aWR0aD0iMSIgaGVpZ2h0PSIxIiB4bWxucz0iaHR0cDovL3d3dy53My5vcmcvMjAwMC9zdmciPjwvc3ZnPg==\" class=\"lazyload\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p>Pescador e garimpeiro, Jos\u00e9 M\u00e1rcio Lazarini em 2018 na margem do Rio Doce \u2014 Foto: Raquel Freitas\/G1<\/p>\n\n\n\n<p>No momento em que a barragem se rompeu, Jos\u00e9 M\u00e1rcio estava dentro da \u00e1gua, como foi costume em grande parte da vida. O pescador s\u00f3 ficou sabendo da trag\u00e9dia quando chegou em casa, \u00e0 noite, e assistiu ao jornal.<\/p>\n\n\n\n<p>Na manh\u00e3 seguinte, ele retornou ao rio, sem saber que aquele seria o caminho do \u201cmar de lama\u201d e presenciou cenas como aquelas que havia visto pela televis\u00e3o. \u201cNem gosto de lembrar desse dia. Chorei porque via peixe, capivara debatendo no barro para morrer\u201d, conta.<\/p>\n\n\n\n<p>Apesar de integrar a comiss\u00e3o de atingidos de Rio Doce, Jos\u00e9 M\u00e1rcio&nbsp;precisou de cerca de dois anos para que fosse reconhecido formalmente como atingido&nbsp;pela Funda\u00e7\u00e3o Renova.<\/p>\n\n\n\n<p>Atualmente, al\u00e9m de se preocupar com a situa\u00e7\u00e3o do aux\u00edlio emergencial, que\u00a0pode ser reduzido no fim do ano, Jos\u00e9 M\u00e1rcio se inquieta com a morosidade do processo de recupera\u00e7\u00e3o ambiental de Candonga. Ele e outros moradores t\u00eam medo que o lago da usina volte a ser enchido sem que todo rejeito seja retirado. O temor foi motivo para uma\u00a0s\u00e9rie de protestos em outubro.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" data-src=\"https:\/\/s2.glbimg.com\/JAZpzku_PJaeRc2O3TQ37uYOK4g=\/0x294:960x1280\/984x0\/smart\/filters:strip_icc()\/i.s3.glbimg.com\/v1\/AUTH_59edd422c0c84a879bd37670ae4f538a\/internal_photos\/bs\/2020\/8\/0\/E8nwCgQIAqIQfWFzj2iA\/whatsapp-image-2020-10-05-at-08.58.14-2-.jpeg\" alt=\"Jos\u00e9 M\u00e1rco Lazarini em protesto no m\u00eas de outubro de 2020 \u2014 Foto: Jos\u00e9 M\u00e1rco Lazarini\/Arquivo Pessoal\" src=\"data:image\/svg+xml;base64,PHN2ZyB3aWR0aD0iMSIgaGVpZ2h0PSIxIiB4bWxucz0iaHR0cDovL3d3dy53My5vcmcvMjAwMC9zdmciPjwvc3ZnPg==\" class=\"lazyload\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p>Jos\u00e9 M\u00e1rco Lazarini em protesto no m\u00eas de outubro de 2020 \u2014 Foto: Jos\u00e9 M\u00e1rco Lazarini\/Arquivo Pessoal<\/p>\n\n\n\n<p>Na \u00e9poca, a Renova disse que estudos recentes haviam demonstrado que a remo\u00e7\u00e3o da totalidade do sedimento &#8220;teria um alto impacto ambiental&#8221; e que \u201cassim se definiu por dragar at\u00e9 a cota de 300 metros, apenas o suficiente para possibilitar o retorno operacional da UHE Risoleta Neves\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Agora, a funda\u00e7\u00e3o afirma que&nbsp;os impactos de tr\u00eas cen\u00e1rios foram avaliados&nbsp;e que eles foram submetidos ao \u00f3rg\u00e3o ambiental por meio do processo de licenciamento para que seja definida a alternativa que permita a recupera\u00e7\u00e3o ambiental da \u00e1rea e o retorno operacional da usina.<\/p>\n\n\n\n<p>Para Jos\u00e9 M\u00e1rcio, o sentimento que resume esses cinco anos \u00e9 o de\u00a0revolta.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>\u201cPorque a gente foi atingido diretamente e nem assim eles reconhecem o nosso desespero e a nossa luta. Se eles fizeram a trag\u00e9dia, deveriam cumprir o dever de casa deles e n\u00e3o tem tido compromisso. Acho que daqui a 5 anos vai continuar a mesma coisa. A esperan\u00e7a nossa \u00e9 que o rio seria recuperado, mas parece que vai continuar tudo do mesmo jeito\u201d, desabafa.<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\">O que dizem as mineradoras<\/h4>\n\n\n\n<p>A Samarco afirmou que &#8220;os impactos causados pelo rompimento da barragem de Fund\u00e3o nunca ser\u00e3o esquecidos&#8221; pela empresa. &#8220;Ressalta a complexidade das a\u00e7\u00f5es que est\u00e3o sendo executadas pela Funda\u00e7\u00e3o Renova, como as compensa\u00e7\u00f5es financeiras, recupera\u00e7\u00e3o da flora e fauna, al\u00e9m dos processos de reassentamentos que contam com a participa\u00e7\u00e3o direta dos atingidos e do poder p\u00fablico em todas as etapas e s\u00e3o acompanhados pelo Minist\u00e9rio P\u00fablico de Minas Gerais.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>A Vale disse que, &#8220;como acionista da Samarco, refor\u00e7a o compromisso com a repara\u00e7\u00e3o dos danos causados pelo rompimento da barragem de Fund\u00e3o, prestando todo o suporte \u00e0 Funda\u00e7\u00e3o Renova, respons\u00e1vel por executar os programas de repara\u00e7\u00e3o e compensa\u00e7\u00e3o das \u00e1reas e comunidades atingidas&#8221;. De acordo com a Vale, esses programas receberam, at\u00e9 agora, mais de R$ 10 bilh\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p>A BHP Billiton disse que &#8220;est\u00e1 absolutamente comprometida com as a\u00e7\u00f5es de repara\u00e7\u00e3o relacionadas ao rompimento da barragem de Fund\u00e3o e com o trabalho desenvolvido pela Funda\u00e7\u00e3o Renova no avan\u00e7o dos programas sob sua responsabilidade&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;At\u00e9 setembro deste ano, a Renova j\u00e1 desembolsou R$ 10,1 bilh\u00f5es nos programas de remedia\u00e7\u00e3o e compensa\u00e7\u00e3o. Dentre as a\u00e7\u00f5es, repassou mais de R$ 830 milh\u00f5es para investimentos em educa\u00e7\u00e3o, sa\u00fade e infraestrutura em cidades da bacia do Rio Doce e ainda pagou, at\u00e9 agosto de 2020, cerca de R$ 2,6 bilh\u00f5es em indeniza\u00e7\u00f5es e aux\u00edlios-financeiro emergenciais a mais de 321 mil pessoas. At\u00e9 mesmo os trabalhadores informais, com dificuldades para comprovar como foram atingidos, come\u00e7aram a ser pagos: desde agosto deste ano, mais de 500 trabalhadores dessas categorias receberam suas indeniza\u00e7\u00f5es e quase 6.000 informais se registraram para terem suas demandas analisadas pela Funda\u00e7\u00e3o&#8221;, disse a mineradora.<\/p>\n\n\n\n<p>G1<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Esperan\u00e7a, prepara\u00e7\u00e3o para o inesperado, injusti\u00e7a, tristeza e revolta. 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