{"id":196252,"date":"2020-11-23T06:08:25","date_gmt":"2020-11-23T09:08:25","guid":{"rendered":"https:\/\/www.caririemacao.com\/1\/?p=196252"},"modified":"2020-11-23T06:08:25","modified_gmt":"2020-11-23T09:08:25","slug":"apenas-1-em-cada-4-matriculados-em-programas-de-mestrado-e-de-doutorado-no-brasil-e-negro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.caririemacao.com\/1\/2020\/11\/23\/apenas-1-em-cada-4-matriculados-em-programas-de-mestrado-e-de-doutorado-no-brasil-e-negro\/","title":{"rendered":"Apenas 1 em cada 4 matriculados em programas de mestrado e de doutorado no Brasil \u00e9 negro"},"content":{"rendered":"\n<p>S\u00c3O PAULO, SP (FOLHAPRESS) &#8211; A ci\u00eancia produzida no Brasil \u00e9 branca \u2013 e, em algumas \u00e1reas do conhecimento, \u00e9 mais branca ainda. Um retrato da p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o do pa\u00eds mostra que, em m\u00e9dia, um em cada quatro matriculados em programas de mestrado e de doutorado \u00e9 negro. Em \u00e1reas como medicina, a participa\u00e7\u00e3o dos negros cai para um em cada dez cientistas em forma\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>As informa\u00e7\u00f5es raciais foram tabuladas pela Folha de S.Paulo a partir de uma base de dados abertos de 2018 da Capes, ag\u00eancia do MEC voltada \u00e0 p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o no pa\u00eds. Foram considerados nos c\u00e1lculos apenas os alunos de p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o do pa\u00eds que informaram a cor da pele \u2013o que \u00e9 feito de maneira autodeclarada.<\/p>\n\n\n\n<p>Olhar para a p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o no Brasil \u00e9 importante porque cientistas em forma\u00e7\u00e3o produzem boa parte do conhecimento nacional. Isso acontece por meio de bolsas de pesquisa \u2013uma esp\u00e9cie de &#8220;sal\u00e1rio&#8221; pago por ag\u00eancias de fomento aos p\u00f3s-graduandos para que trabalhem integralmente com ci\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p>Os dados mostram que em algumas \u00e1reas da sa\u00fade (como odontologia e medicina), em direito, engenharias e em arquitetura \u2013consideradas &#8220;de elite&#8221;\u2013 a participa\u00e7\u00e3o dos negros entre p\u00f3s-graduandos despenca.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;J\u00e1 fui a \u00fanica negra apresentando uma pesquisa em uma sala com 24 cientistas em um congresso acad\u00eamico&#8221;, diz Thays Torres Oliveira, mestranda na Ufpel (Universidade Federal de Pelotas) em cl\u00ednica odontol\u00f3gica \u2013uma das \u00e1reas mais embranquecidas da ci\u00eancia nacional.<\/p>\n\n\n\n<p>Oliveira chegou na universidade h\u00e1 dez anos, vinda do Maranh\u00e3o, para cursar odontologia. Encontrou apenas um colega negro na turma (de 44 alunos) e uma veterana negra. Na \u00e9poca, n\u00e3o havia nenhum docente preto ou pardo no curso.<br>Hoje, na p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o, ela encontra mais pares negros \u2013incluindo um colega do Cabo Verde. Desde 2017, a Ufpel reserva 20% das vagas dos mestrados e doutorados para cientistas negros em forma\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>A medida foi uma resposta a uma portaria de maio de 2016 \u2013\u00faltima assinatura da presidente Dilma Rousseff (PT) antes do impeachment. O texto previa que universidades federais criassem sistemas de reserva de vagas para alunos negros, ind\u00edgenas e pessoas com defici\u00eancia nos mestrados e doutorados.<\/p>\n\n\n\n<p>Simbolicamente, a revoga\u00e7\u00e3o da portaria, em junho deste ano, tamb\u00e9m foi o \u00faltimo ato do ent\u00e3o ministro da Educa\u00e7\u00e3o Abraham Weintraub antes de ser demitido.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;N\u00e3o tenho alunos negros na gradua\u00e7\u00e3o ou na p\u00f3s trabalhando com ci\u00eancia&#8221;, diz o astrof\u00edsico Alan Alves Brito. &#8220;Tampouco tenho colegas ou parceiros de trabalho.&#8221; Ele \u00e9 o \u00fanico docente negro dentre mais de cem professores do Instituto de F\u00edsica da UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul). Brito coleciona experi\u00eancias como \u00fanico cientista negro em congressos nacionais e internacionais de sua \u00e1rea de pesquisa. Em um deles, chegou a ser confundido com um funcion\u00e1rio da cozinha. Tamb\u00e9m j\u00e1 perguntaram se ele era m\u00fasico. &#8220;Nunca acreditam quando digo que sou cientista.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>Cientistas em forma\u00e7\u00e3o que se declaram especificamente pretos desaparecem ainda mais nas estat\u00edsticas nacionais. Em odonto e medicina, menos de 2% dos p\u00f3s-graduandos s\u00e3o pretos. \u00c9 a menor taxa nacional.<\/p>\n\n\n\n<p>A falta de diversidade na produ\u00e7\u00e3o cient\u00edfica \u00e9 um problema velho conhecido entre estudiosos da ci\u00eancia. Como a maioria dos pesquisadores no Brasil pertence a uma mesma etnia, quest\u00f5es relacionadas a outros grupos podem ficar de fora dos estudos ou podem ter interpreta\u00e7\u00f5es enviesadas.<\/p>\n\n\n\n<p>Na pr\u00e1tica, corremos o risco, por exemplo, de trabalhar mais na compreens\u00e3o e no tratamento de doen\u00e7as comuns em pessoas brancas do que pretas e pardas \u2013que comp\u00f5em mais da metade da popula\u00e7\u00e3o do pa\u00eds.<\/p>\n\n\n\n<p>Na outra ponta, na \u00e1rea de antropologia, quase 18% dos pesquisadores do pa\u00eds na p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o s\u00e3o especificamente pretos \u2013um recorde nacional. Na sequ\u00eancia, figura servi\u00e7o social \u2013j\u00e1 com menos de 13,6% de pretos dentre os cientistas em forma\u00e7\u00e3o nesta \u00e1rea.<\/p>\n\n\n\n<p>A distribui\u00e7\u00e3o dos cientistas negros na p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m \u00e9 desigual pelo pa\u00eds. Enquanto no Norte 61,2% dos p\u00f3s-granduandos s\u00e3o negros (o que representa cerca de 4.000 alunos), no Sudeste os negros s\u00e3o apenas 21,2% dos matriculados (11,6 mil alunos ao todo). E vale lembrar que os programas de p\u00f3s est\u00e3o concentrados sobretudo no Sudeste do pa\u00eds.<\/p>\n\n\n\n<p>Como os dados de ra\u00e7a passaram a ser coletados somente em 2017 pela Capes, n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel fazer uma an\u00e1lise sobre a evolu\u00e7\u00e3o racial na p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o no pa\u00eds. Isso dificulta a an\u00e1lise e defini\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas p\u00fablicas na \u00e1rea.<\/p>\n\n\n\n<p>Algumas universidades, no entanto, fazem um levantamento pr\u00f3prio. A ge\u00f3loga e professora do Instituto de Geoci\u00eancias da USP, Adriana Alves, compilou dados de distribui\u00e7\u00e3o por cor da pele nos tr\u00eas \u00faltimos n\u00edveis da carreira acad\u00eamica na institui\u00e7\u00e3o paulista: doutorado, p\u00f3s-doutorado e doc\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p>Uma boa not\u00edcia: a taxa de estudantes negros (pretos e pardos) subiu no per\u00edodo de 2010 a 2020 na universidade, passando de 75 para 168 (um alta de 124%), mas ainda representa um quinto do total de p\u00f3s-graduandos.<\/p>\n\n\n\n<p>Entretanto, o n\u00famero de pesquisadores de p\u00f3s-doutorado negros representa ainda 11,4% do total.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;O crescimento de alunos e alunas negras se faz \u00e0s custas do segundo grupo mais hegem\u00f4nico, que s\u00e3o os amarelos [orientais], e n\u00e3o dos brancos. Os brancos n\u00e3o oscilaram na \u00faltima d\u00e9cada em porcentagem na p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o, enquanto os orientais tiveram uma queda, ao mesmo tempo que os pretos e pardos ascenderam&#8221;, explica Alves.<\/p>\n\n\n\n<p>A ge\u00f3loga se lan\u00e7ou sobre as quest\u00f5es de g\u00eanero e ra\u00e7a na p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o e viu como \u00e9 expressiva a diferen\u00e7a entre as mulheres brancas e as pretas, pardas e ind\u00edgenas na carreira acad\u00eamica. Por esse motivo, apresentou na \u00faltima semana na universidade um programa de p\u00f3s-doutorado voltado especificamente para mulheres negras, que deve contar com financiamento privado.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Mesmo sem as cotas na p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o o n\u00famero de pretas quintuplicou. O n\u00famero de pardas encostou no de brancas. A mudan\u00e7a agora precisa vir de cima.&#8221; Para ela, \u00e9 preciso que os brancos &#8220;parem de falar do negro como v\u00edtima do racismo e passem a falar do seu privil\u00e9gio como branco&#8221;. &#8220;Cientistas em geral n\u00e3o admitem que possuem vi\u00e9s. Nas bancas, o argumento \u00e9 de m\u00e9rito, mas como uma pessoa negra vai se sentir incentivada e valorizada se a banca \u00e9 toda formada por brancos?&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>Alves afirma que essa iniciativa ir\u00e1 priorizar \u00e1reas em que n\u00e3o h\u00e1 presen\u00e7a de alunas negras e deve diminuir a baixa representatividade, que \u00e9 t\u00e3o aparente e cujas iniciativas da universidade, nos \u00faltimos anos, foram escassas. &#8220;Quero colocar um ex\u00e9rcito de &#8216;Adrianinhas&#8217; em todas as \u00e1reas da ci\u00eancia&#8221;, finaliza.<\/p>\n\n\n\n<p>Click PB<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>S\u00c3O PAULO, SP (FOLHAPRESS) &#8211; A ci\u00eancia produzida no Brasil \u00e9 branca \u2013 e, em algumas \u00e1reas do conhecimento, \u00e9 mais branca ainda. 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