{"id":197349,"date":"2020-12-02T10:30:20","date_gmt":"2020-12-02T13:30:20","guid":{"rendered":"https:\/\/www.caririemacao.com\/1\/?p=197349"},"modified":"2020-12-02T10:30:20","modified_gmt":"2020-12-02T13:30:20","slug":"bisneta-de-monteiro-lobato-quer-apagar-o-racismo-de-sua-obra-com-novas-edicoes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.caririemacao.com\/1\/2020\/12\/02\/bisneta-de-monteiro-lobato-quer-apagar-o-racismo-de-sua-obra-com-novas-edicoes\/","title":{"rendered":"Bisneta de Monteiro Lobato quer apagar o racismo de sua obra com novas edi\u00e7\u00f5es"},"content":{"rendered":"\n<p>S\u00c3O PAULO, SP (FOLHAPRESS) &#8211; Um dos c\u00e2nones da literatura infantil brasileira completa, neste m\u00eas de dezembro, cem anos. Escrito por Monteiro Lobato, &#8220;A Menina do Narizinho Arrebitado&#8221; introduziu o universo do &#8220;S\u00edtio do Picapau Amarelo&#8221; e agora suscita n\u00e3o s\u00f3 comemora\u00e7\u00f5es, mas tamb\u00e9m debates fervorosos em torno do autor, considerado racista por alguns leitores e estudiosos, e uma reedi\u00e7\u00e3o de sua obra, adaptada por sua pr\u00f3pria bisneta, Cleo Monteiro Lobato.<\/p>\n\n\n\n<p>Adaptada porque esta n\u00e3o se trata de uma reimpress\u00e3o do texto original, com adendos e novo pref\u00e1cio, como j\u00e1 ocorreu em outras reedi\u00e7\u00f5es, mas de uma reformula\u00e7\u00e3o da obra, com exclus\u00f5es e altera\u00e7\u00f5es de trechos e personagens sendo representados de maneiras diferentes, menos problem\u00e1ticas.<\/p>\n\n\n\n<p>Tudo para entrar em sintonia com as cr\u00edticas de que o escritor paulista teria maculado a inoc\u00eancia das aventuras da boneca Em\u00edlia ao incutir concep\u00e7\u00f5es preconceituosas e estereotipadas em seus livros.<\/p>\n\n\n\n<p>Tia Nast\u00e1cia, a mulher negra que trabalha no s\u00edtio, &#8220;trepa que nem uma macaca de carv\u00e3o&#8221; em determinada passagem do original, por exemplo. Mas n\u00e3o mais nesta reedi\u00e7\u00e3o, que vem na esteira de uma s\u00e9rie de celebra\u00e7\u00f5es do centen\u00e1rio e \u00e9 atrelada \u00e0 publica\u00e7\u00e3o de uma tradu\u00e7\u00e3o da obra para o ingl\u00eas.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Eu acho que h\u00e1 passagens problem\u00e1ticas para quem l\u00ea os livros hoje em dia. A gente queria uma vers\u00e3o atualizada, cujo teor fosse compat\u00edvel com os valores sociais contempor\u00e2neos, mas que mantivesse o estilo do Lobato&#8221;, diz Cleo, a bisneta do autor.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Eu queria que essa vers\u00e3o provocasse essa discuss\u00e3o que provocou, que n\u00e3o \u00e9 sobre o Lobato, mas sobre o racismo estrutural no Brasil. Essa \u00e9 a inten\u00e7\u00e3o.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>Cleo refuta o termo censura ao falar das altera\u00e7\u00f5es feitas \u00e0 obra e lembra que o bisav\u00f4 foi respons\u00e1vel por traduzir diversos cl\u00e1ssicos infantis para o portug\u00eas, como &#8220;Alice no Pa\u00eds das Maravilhas&#8221;, mas n\u00e3o sem os adaptar, de forma incisiva, para o p\u00fablico brasileiro.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;A obra hoje est\u00e1 em dom\u00ednio p\u00fablico. N\u00f3s n\u00e3o a desvirtuamos, porque a original continua l\u00e1, existindo e dispon\u00edvel&#8221;, diz ela. &#8220;Se eu tenho a possibilidade de me posicionar de maneira positiva [por meio dos livros], eu escolho a mudan\u00e7a.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>A ideia de tomar essa liberdade criativa veio depois que Cleo notou diversos conhecidos ou f\u00e3s de Monteiro Lobato que tinham dificuldade em ler a obra para crian\u00e7as, j\u00e1 que, vez ou outra, era preciso interromper a narrativa para explicar termos e representa\u00e7\u00f5es ofensivas \u2013principalmente aquelas direcionadas a Tia Nast\u00e1cia.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas, mesmo assumindo que alguns aspectos na obra n\u00e3o est\u00e3o em concord\u00e2ncia com os tempos atuais, Cleo \u00e9 assertiva ao dizer que o bisav\u00f4 n\u00e3o era racista e que os trechos problem\u00e1ticos de sua obra tamb\u00e9m n\u00e3o o s\u00e3o. \u00c9 um posicionamento pol\u00eamico e complicado, ela assume, afirmando que \u00e9 preciso ter um entendimento total da vida e da obra de Monteiro Lobato para opinar sobre o assunto.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;O que eu noto \u00e9 que quem leu tudo, luta fervorosamente contra as acusa\u00e7\u00f5es de racismo. Quem pega uma carta, um livro e analisa por um prisma estreito, enxerga o Lobato oposto&#8221;, diz Cleo, sobre documentos escritos pelo autor em que ele faz men\u00e7\u00e3o positiva \u00e0 Ku Klux Klan e \u00e0s ideias eugenistas de seu tempo.<\/p>\n\n\n\n<p>Monteiro Lobato n\u00e3o \u00e9 o primeiro \u2013e nem ser\u00e1 o \u00faltimo\u2013 artista com obras submetidas a interven\u00e7\u00f5es cir\u00fargicas. Se no caso do pai de Em\u00edlia o procedimento parece invasivo demais, em outros ele \u00e9 mais comedido.<\/p>\n\n\n\n<p>No audiovisual, avisos de que as ideias e representa\u00e7\u00f5es observadas em alguns filmes s\u00e3o datadas, discriminat\u00f3rias e que refletem o pensamento predominante de uma outra \u00e9poca se tornaram frequentes, diante do ressurgimento de obras antigas em plataformas de streaming.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 esse tipo de mea-culpa que acompanha, por exemplo, diversas anima\u00e7\u00f5es dispon\u00edveis na plataforma Disney+, como &#8220;Peter Pan&#8221; e &#8220;A Dama e o Vagabundo&#8221;, e o cl\u00e1ssico &#8220;&#8230; E o Vento Levou&#8221;, agora no cat\u00e1logo do HBO Max, hoje indispon\u00edvel no Brasil.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Eu entendo a decis\u00e3o tomada pela fam\u00edlia, mas a minha posi\u00e7\u00e3o seria de que vale a pena fazer, no m\u00e1ximo, altera\u00e7\u00f5es ortogr\u00e1ficas, em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 l\u00edngua, e manter a obra em si tal qual ela est\u00e1&#8221;, diz M\u00e1rio Augusto Medeiros da Silva, professor de ci\u00eancias sociais da Unicamp e que se debru\u00e7a sobre a \u00e1rea da literatura.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Que o leitor seja beneficiado com uma nota pr\u00e9via, um pref\u00e1cio, um texto anal\u00edtico para que fa\u00e7a suas pr\u00f3prias pondera\u00e7\u00f5es, embora eu entenda que a adapta\u00e7\u00e3o \u00e9 uma sa\u00edda que ela [Cleo Monteiro Lobato] encontrou para se adequar aos novos tempos.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>Segundo o acad\u00eamico, \u00e9 importante compreender Monteiro Lobato inserido no contexto em que viveu, tamb\u00e9m enquanto cidad\u00e3o e n\u00e3o s\u00f3 como escritor. Segundo ele, limpar esse aspecto de sua vida e obra \u00e9 uma op\u00e7\u00e3o da fam\u00edlia, mas que ofusca a trajet\u00f3ria e as contradi\u00e7\u00f5es do autor.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Isso n\u00e3o apaga o editor, o homem preso pelo Estado Novo, o nacionalista que lutou pela Campanha do Petr\u00f3leo, o criador de uma literatura infantil no Brasil. Mas tamb\u00e9m faz parte dele ser pensado como um autor que n\u00e3o foi t\u00e3o al\u00e9m de seu tempo, um tempo racista. Nenhum artista deve ser tratado de maneira sagrada, todos est\u00e3o envolvidos com quest\u00f5es de seu tempo, e \u00e9 saud\u00e1vel que os leitores saibam disso.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Eu n\u00e3o defendo censurar e tamb\u00e9m n\u00e3o concordo com o apagamento de sua obra \u2013e mesmo essa limpeza dessa nova vers\u00e3o pode ser lida como apagamento, o que precisa ser debatido. Mas uma atitude antirracista talvez mais adequada seria inserir um estudo cr\u00edtico a respeito da obra e, ent\u00e3o, deixar para o leitor tomar suas posi\u00e7\u00f5es&#8221;, conclui.<\/p>\n\n\n\n<p>ClickPB<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>S\u00c3O PAULO, SP (FOLHAPRESS) &#8211; Um dos c\u00e2nones da literatura infantil brasileira completa, neste m\u00eas de dezembro, cem anos. 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