{"id":201692,"date":"2021-01-08T06:50:03","date_gmt":"2021-01-08T09:50:03","guid":{"rendered":"https:\/\/www.caririemacao.com\/1\/?p=201692"},"modified":"2021-01-08T06:50:05","modified_gmt":"2021-01-08T09:50:05","slug":"brasil-chega-a-200-mil-mortes-por-covid-19-apos-serie-de-erros-no-combate-a-pandemia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.caririemacao.com\/1\/2021\/01\/08\/brasil-chega-a-200-mil-mortes-por-covid-19-apos-serie-de-erros-no-combate-a-pandemia\/","title":{"rendered":"Brasil chega a 200 mil mortes por Covid-19 ap\u00f3s s\u00e9rie de erros no combate \u00e0 pandemia"},"content":{"rendered":"\n<p>Bastaram apenas 72 horas para que a vida de Tiago C\u00e1ria Sartini, 38, mudasse para sempre. No intervalo de tr\u00eas dias, o engenheiro perdeu o pai e a m\u00e3e para Covid-19.<\/p>\n\n\n\n<p>Jos\u00e9 Luiz Sartini, 73, e Maria das Gra\u00e7as C\u00e1ria Sartini, 69, tomavam todos os cuidados poss\u00edveis para evitar o cont\u00e1gio. N\u00e3o foi o suficiente. &#8220;Qualquer um que minimize essa doen\u00e7a tem, no m\u00ednimo, um d\u00e9ficit cognitivo&#8221; diz o filho.<\/p>\n\n\n\n<p>Ambos fazem parte da triste marca que o Brasil atinge nesta quinta-feira (7). Ap\u00f3s dez meses desde o registro da primeira v\u00edtima por aqui, em 16 de mar\u00e7o, o pa\u00eds contabiliza 200 mil mortes pela doen\u00e7a e uma s\u00e9rie de erros no combate \u00e0 pandemia, alguns deles pass\u00edveis de responsabiliza\u00e7\u00e3o do presidente da Rep\u00fablica, apontam especialistas em sa\u00fade p\u00fablica e direito.<\/p>\n\n\n\n<p>Somos o segundo pa\u00eds do mundo com mais \u00f3bitos em n\u00fameros absolutos, atr\u00e1s apenas dos Estados Unidos. E, assim como l\u00e1, a condu\u00e7\u00e3o do combate \u00e0 pandemia por aqui rendeu e continua a render cr\u00edticas.<\/p>\n\n\n\n<p>Se o agora quase ex-presidente americano Donald Trump desdenhou e minimizou os efeitos do novo coronav\u00edrus em seu pa\u00eds, a gest\u00e3o Jair Bolsonaro (sem partido) n\u00e3o fez diferente e at\u00e9 seguiu alguns exemplos, apontam os especialistas.<\/p>\n\n\n\n<p>Negacionismo, pouco caso, incompet\u00eancia, crimes contra a sa\u00fade da popula\u00e7\u00e3o e viola\u00e7\u00f5es de tratados internacionais que colocaram o Brasil em uma situa\u00e7\u00e3o t\u00e3o delicada quanto vexaminosa s\u00e3o apenas alguns dos erros apontados \u2014 por a\u00e7\u00e3o ou omiss\u00e3o- que pesam contra o governo brasileiro. Isso, de acordo com a opini\u00e3o de quem desde o in\u00edcio vive, estuda e tenta minimizar os efeitos da pandemia.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Ap\u00f3s o per\u00edodo de gesta\u00e7\u00e3o dessa pandemia, parimos um rebento com muitos e diferentes defeitos cong\u00eanitos. Alguns indel\u00e9veis&#8221;, diz a pneumologista e pesquisadora da Fiocruz Margareth Dalcolmo, uma das profissionais de sa\u00fade mais atuantes durante a pandemia.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c0s 22h30 da v\u00e9spera do dia em que o Brasil chegaria \u00e0 nova marca recorde de \u00f3bitos, logo ap\u00f3s terminar mais um laudo de uma v\u00edtima da Covid-19, pouca coisa ainda parecia fazer sentido para ela. &#8220;Ningu\u00e9m se recupera de 200 mil mortes.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>A percep\u00e7\u00e3o dos familiares das v\u00edtimas n\u00e3o \u00e9 muito diferente. &#8220;Negar a doen\u00e7a, colocar empecilhos para o tratamento, falar que o sujeito &#8216;vira jacar\u00e9&#8217; [se tomar a vacina], isso tudo \u00e9 desinformar a popula\u00e7\u00e3o&#8221;, diz Tiago, ele pr\u00f3prio eleitor de Bolsonaro no segundo turno em 2018. &#8220;O pior \u00e9 que muita gente sai replicando isso.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>O efeito disso \u00e9 que, assim como as mortes se avolumaram, as informa\u00e7\u00f5es sobre mandos e desmandos do governo federal no curso da pandemia se sucederam em velocidade assustadora. &#8220;S\u00e3o crimes de responsabilidade e contra a sa\u00fade p\u00fablica pass\u00edveis de puni\u00e7\u00e3o aqui e no Tribunal Penal Internacional&#8221;, diz a professora aposentada da USP Sueli Dallari, especialista em direito sanit\u00e1rio.<\/p>\n\n\n\n<p>Essas s\u00e3o alguns dos motivos que, de acordo com especialistas ouvidos pela reportagem, nos aproximaram mais rapidamente da marca de 200 mil \u00f3bitos.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Comportamento irrespons\u00e1vel e negacionista do presidente Jair Bolsonaro<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Desde o in\u00edcio da pandemia, o comportamento do presidente Jair Bolsanaro se destacou entre os l\u00edderes mundiais de forma negativa.<\/p>\n\n\n\n<p>Ao lado de mandat\u00e1rios como Donald Trump (EUA), Viktor Orb\u00e1n (Hungria), Aleksandr Lukashenko (Belarus) e Gurbanguly Berdymukhamedov (Turcomenist\u00e3o), o brasileiro desdenhou do potencial de letalidade do v\u00edrus, chamou a Covid-19 de &#8220;gripezinha&#8221;, disse que seu povo deveria ser estudado pois mergulha no esgoto e n\u00e3o contrai nenhuma doen\u00e7a e recomendou diversas vezes o uso de coloroquina, medicamento comprovadamente ineficaz para evitar o cont\u00e1gio e potencialmente perigoso.<\/p>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m disso, Bolsonaro afirmou que n\u00e3o era coveiro para opinar sobre o elevado n\u00famero de mortes, comemorou e difundiu informa\u00e7\u00f5es falsas, como a morte de um volunt\u00e1rio dos testes da vacina Coronavac, desenvolvida na China em parceria com o Instituto Butantan.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Se nossas institui\u00e7\u00f5es estivessem, de fato, funcionando, os processos de impeachment contra ele estariam andando na C\u00e2mara&#8221;, diz o advogado, professor da Faculdade de Sa\u00fade P\u00fablica da USP e diretor do Centro de Estudos e Pesquisas de Direito Sanit\u00e1rio (Cepedisa\/USP), Fernando Aith. Ele v\u00ea claras evid\u00eancias de crimes de responsabilidade contra o presidente do Brasil.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 a mesma opini\u00e3o da professora de \u00e9tica da Faculdade de Sa\u00fade P\u00fablica da USP e pesquisadora do Cepedisa, Deisy Ventura. &#8220;Minha impress\u00e3o \u00e9 que o governo brasileiro quer disseminar a Covid-19 entre a popula\u00e7\u00e3o. N\u00e3o se trata de incompet\u00eancia, mas de uma estrat\u00e9gia do governo federal&#8221;, diz.<\/p>\n\n\n\n<p>Ela exemplifica com o conte\u00fado do livro do ex-ministro da Sa\u00fade Luiz Henrique Mandetta, demitido no meio da pandemia. &#8220;H\u00e1 uma estrat\u00e9gia clara de dissemina\u00e7\u00e3o do v\u00edrus. E essa \u00e9 uma ideia eleitoral porque quanto antes acabar, mais cedo se retoma o caminho para 2022&#8221;, afirma.<\/p>\n\n\n\n<p>A professora da USP aponta tr\u00eas eixos pelos quais a gest\u00e3o Bolsonaro obstruiu e prejudicou o combate \u00e0 Covid-19: comunica\u00e7\u00e3o, gest\u00e3o e normas.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;O governo mobilizou at\u00e9 mesmo a Secom [Secretaria de Comunica\u00e7\u00e3o] e o Minist\u00e9rio da Sa\u00fade para serem divulgadores de fake news. Para o discurso extremista e populista n\u00e3o h\u00e1 problema em ser contradit\u00f3rio&#8221;, diz. &#8220;Tamb\u00e9m agiu editando normas que consideraram servi\u00e7os essenciais sal\u00f5es de beleza e igrejas e agiu para obstruir as respostas locais de prefeitos e governadores \u00e0 pandemia.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Falta de um plano nacional de combate \u00e0 pandemia<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>\u00c0 medida que a pandemia crescia no Brasil, ficava evidente a falta de coordena\u00e7\u00e3o entre o governo federal e os estados. Medidas de fechamento do com\u00e9rcio e divisas circulavam nas diferentes regi\u00f5es do pa\u00eds sem que uma orienta\u00e7\u00e3o ou norma da Uni\u00e3o pudesse esclarecer a necessidade e a viabilidade dessas a\u00e7\u00f5es. Em pouco tempo era clara a descoordena\u00e7\u00e3o que atingia o pa\u00eds. Em decorr\u00eancia da ina\u00e7\u00e3o da Uni\u00e3o, estados e munic\u00edpios passaram a agir por conta pr\u00f3pria. &#8220;Isso \u00e9 um n\u00edtido exemplo da falta de coordena\u00e7\u00e3o. At\u00e9 hoje n\u00e3o temos um plano decente, mesmo esse entregue ao STF [Supremo Tribunal Federal] \u00e9 incompleto&#8221;, diz Fernando Aith.<\/p>\n\n\n\n<p>Lockdowns, confisco de respiradores, falta de insumos para a intuba\u00e7\u00e3o de pacientes, e agora escassez de seringas e agulhas s\u00e3o alguns dos exemplos da confus\u00e3o causada pela falta de coordena\u00e7\u00e3o e erros do governo federal. &#8220;O que est\u00e1 acontecendo agora? Diversos prefeitos e governadores est\u00e3o indo direto ao Butantan para ter acesso \u00e0 vacina para suas popula\u00e7\u00f5es&#8221;, afirma Deisy Ventura.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Desde a sa\u00edda do ministro Mandetta nunca mais fomos ouvidos pelo governo&#8221;, diz Margareth Dalcolmo. &#8220;N\u00e3o por respeito ou qualquer coisa assim, mas pela necessidade de ouvir o que est\u00e3o dizendo os cientistas isso deveria ocorrer.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>A pneumologista e pesquisadora da Fiocruz refor\u00e7a que oportunidades fact\u00edveis foram perdidas ou ignoradas. &#8220;Por que tanta gente morreu em casa? Porque n\u00e3o foram usadas ferramentas simples e dispon\u00edveis como os aplicativos de celular&#8221;, diz. &#8220;Fazemos isso aqui na comunidade da Mar\u00e9, com 180 mil pessoas, no meio de fuzis e por aplicativos acompanhamos os casos.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Mudan\u00e7as de ministros da Sa\u00fade em meio \u00e0 crise<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Para os especialistas ouvidos pela reportagem, a falta de um plano nacional de coordena\u00e7\u00e3o \u00e9 um dos fatores diretos pela crise aberta por Bolsonaro com dois ministros da Sa\u00fade trocados em meio \u00e0 pandemia. Luiz Henrique Mandetta e Nelson Teich entraram em rota de colis\u00e3o com o presidente ap\u00f3s darem sinais de que levariam \u00e0 frente o desenvolvimento de um plano de conten\u00e7\u00e3o do v\u00edrus e por se negarem a chancelar o uso da cloroquina como medicamento contra a Covid-19.<\/p>\n\n\n\n<p>Mandetta deixou o governo em 16 de abril, ap\u00f3s um ano e meio no cargo. Entre os principais pontos que levaram o ex-ministro ao limite estavam a insist\u00eancia de Bolsonaro no uso de cloroquina e o &#8220;isolamento vertical&#8221; que era defendido pelo presidente mesmo sem nenhum respaldo cient\u00edfico.<\/p>\n\n\n\n<p>Fora do governo, Mandetta lan\u00e7ou o livro &#8220;Um Paciente Chamado Brasil&#8221;. Nele, narra que o presidente ignorou completamente a pandemia, n\u00e3o demonstrou qualquer interesse em salvar vidas e s\u00f3 se preocupava com o efeito da quarentena sobre suas chances de reelei\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Em seu lugar, assumiu Teich. Pressionado a mudar o protocolo e indicar a cloroquina para pacientes com casos de leves de Covid, pediu demiss\u00e3o. Deixou o cargo quase um m\u00eas depois, em 15 de maio, quando o Brasil tinha 218.223 casos e 14.817 mortes pela Covid.<\/p>\n\n\n\n<p>Desde ali, o minist\u00e9rio ficou sem titular. Em seu lugar, um militar da ativa, general Eduardo Pazuello, assumiu interinamente. Logo de cara, fez acenos a Bolsonaro e na contram\u00e3o da ci\u00eancia. O primeiro deles foi ampliar a oferta de cloroquina para casos leves.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Essa militariza\u00e7\u00e3o se refletiu em muitos cargos importantes do minist\u00e9rio que foram ocupados por pessoas desqualificadas, que n\u00e3o sabem o que \u00e9 e como funciona o SUS&#8221;, diz Fernando Aith. &#8220;Isso \u00e9 de uma irresponsabilidade muito grande.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Insist\u00eancia no uso da cloroquina<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Em seu livro, o ex-ministro Mandetta afirma que Bolsonaro nunca se interessou pela capacidade da cloroquina de curar algu\u00e9m. Queria que os brasileiros n\u00e3o ficassem em casa, voltassem a trabalhar com a falsa sensa\u00e7\u00e3o de seguran\u00e7a que o medicamento daria, e assim reativassem a economia, algo que via como fundamental para aumentar suas chances de reelei\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Em junho, o Laborat\u00f3rio Qu\u00edmico e Farmac\u00eautico do Ex\u00e9rcito j\u00e1 havia gastado mais de R$ 1,5 milh\u00e3o para ampliar em cem vezes sua produ\u00e7\u00e3o de cloroquina.<\/p>\n\n\n\n<p>A amplia\u00e7\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o virou alvo do Tribunal de Contas da Uni\u00e3o, que investigou suspeita de superfaturamento nas compras do Ex\u00e9rcito, al\u00e9m da participa\u00e7\u00e3o do presidente em suposta m\u00e1 aplica\u00e7\u00e3o de recursos p\u00fablicos, j\u00e1 que o medicamento nunca teve comprova\u00e7\u00e3o cient\u00edfica para tratar a Covid-19.<\/p>\n\n\n\n<p>Para os especialistas ouvidos pela reportagem, \u00e9 imposs\u00edvel saber hoje o tamanho dos problemas que o uso do rem\u00e9dio trouxe para os brasileiros, e isso tamb\u00e9m \u00e9 pass\u00edvel de responsabiliza\u00e7\u00e3o do presidente.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Quanto esfor\u00e7o, tempo e dinheiro n\u00e3o foram gastos com rem\u00e9dios sem nenhuma comprova\u00e7\u00e3o?&#8221;, diz Margareth Dalcolmo.<\/p>\n\n\n\n<p>Sueli Dallari estava na Fran\u00e7a no in\u00edcio da pandemia. Por l\u00e1, diz ela, o uso do medicamento tamb\u00e9m foi discutido, mas abandonado logo que as primeiras pesquisas apontaram a inefic\u00e1cia e o perigo para sa\u00fade que o rem\u00e9dio pode representar. &#8220;Quando cheguei aqui, em julho, era aquela fanfarronice, um horror, um desvario&#8221;, afirma.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Mau uso do or\u00e7amento da Sa\u00fade<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Em novembro, pouco mais de oito meses ap\u00f3s o in\u00edcio da pandemia, o governo Jair Bolsonaro (sem partido) havia deixado de gastar dinheiro reservado para contratar m\u00e9dicos, reestruturar hospitais, comprar testes de Covid-19 para pres\u00eddios e fomentar agricultura familiar para doa\u00e7\u00e3o de alimentos, de acordo com informa\u00e7\u00f5es de relat\u00f3rios da C\u00e2mara.<\/p>\n\n\n\n<p>Os relat\u00f3rios com a execu\u00e7\u00e3o or\u00e7ament\u00e1ria dos gastos previstos para o combate \u00e0 Covid-19 trataram, al\u00e9m das a\u00e7\u00f5es nas regi\u00f5es fortemente afetadas pela pandemia, de infraestrutura de hospitais universit\u00e1rios, com finalidade de cria\u00e7\u00e3o de novos leitos, e hospitais de campanha em pres\u00eddios.<\/p>\n\n\n\n<p>Os cr\u00e9ditos foram gerados dentro do chamado or\u00e7amento de guerra. Com ele, h\u00e1 flexibiliza\u00e7\u00e3o das regras fiscais.<\/p>\n\n\n\n<p>No or\u00e7amento de guerra, a pandemia conta com gastos espec\u00edficos, sem as amarras habituais para a cria\u00e7\u00e3o de uma despesa. Assim, MPs foram editadas para garantir cr\u00e9ditos a diferentes minist\u00e9rios e \u00f3rg\u00e3os do governo.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Foram dadas todas as ferramentas para o combate \u00e0 pandemia, mas houve uma enorme incompet\u00eancia&#8221;, diz Fernando Aith.<\/p>\n\n\n\n<p>Obstru\u00e7\u00e3o das respostas locais \u00e0 pandemia e amea\u00e7as aos governadores<br>Entre as muitas discord\u00e2ncias entre o presidente e os governadores nas a\u00e7\u00f5es de combate \u00e0 pandemia, a disputa adiantada de 2022 foi a que mais se destacou. Na corrida pela vacina\u00e7\u00e3o, Bolsonaro chegou a chamar o governador de S\u00e3o Paulo, Jo\u00e3o Doria (PSDB), de lun\u00e1tico por ele ter defendido a obrigatoriedade da vacina\u00e7\u00e3o contra a Covid-19 e por ter encampado um ajuste fiscal que, segundo o mandat\u00e1rio, aumentou tributos no estado.<\/p>\n\n\n\n<p>Nessa disputa, o presidente desautorizou um acordo do Minist\u00e9rio da Sa\u00fade com o estado de S\u00e3o Paulo para a compra de 46 milh\u00f5es de doses da Coronavac. Em resposta, Doria afirmou que era criminosa a atitude de Bolsonaro caso ele negasse o acesso a qualquer vacina aprovada pela Anvisa (Ag\u00eancia Nacional de Vigil\u00e2ncia Sanit\u00e1ria) contra a Covid-19.<\/p>\n\n\n\n<p>Essa, no entanto, n\u00e3o foi a \u00fanica disputa em que Bolsonaro se meteu com os gestores locais. Menos de 12 horas ap\u00f3s ter ido \u00e0 televis\u00e3o propor um pacto a governadores e prefeitos na crise do coronav\u00edrus, voltou a criticar governadores pelas redes sociais, colocando em xeque as medidas de isolamento social.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;O governo federal deixou a doen\u00e7a se disseminar e sabia que os governos locais n\u00e3o iriam deixar isso transbordar, adotando medidas de restri\u00e7\u00e3o ao deslocamento e construindo hospitais de campanha. Cenas como as da It\u00e1lia [com caminh\u00f5es frigor\u00edficos ao lado dos hospitais] n\u00e3o se repetiram em maior escala por causa das a\u00e7\u00f5es locais. Isso ocorreu em 2020, mas n\u00e3o acredito que v\u00e1 ocorrer em 2021&#8221;, afirma Deisy Ventura.<\/p>\n\n\n\n<p>O motivo? &#8220;J\u00e1 n\u00e3o h\u00e1 recursos e n\u00e3o \u00e9 ano eleitoral&#8221;, completa.<\/p>\n\n\n\n<p>Demora para aquisi\u00e7\u00e3o de vacinas e atraso na negocia\u00e7\u00e3o com laborat\u00f3rios<br>Entre os erros do governo federal na condu\u00e7\u00e3o do combate \u00e0 pandemia, pelo menos um deles ainda pode causar estragos e mais v\u00edtimas esperadas mais \u00e0 frente.<\/p>\n\n\n\n<p>Enquanto assiste a pa\u00edses da Uni\u00e3o Europeia, Reino Unido, Estados Unidos e at\u00e9 mesmo seu vizinho Argentina vacinar a popula\u00e7\u00e3o contra a Covid-19, o Brasil sofre os efeitos da demora do governo federal em negociar e comprar os imunizantes no pa\u00eds.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Desde o in\u00edcio, o minist\u00e9rio deveria contar com um \u00f3rg\u00e3o de intelig\u00eancia para fazer o mapeamento do desenvolvimento das vacinas. O governo Trump fez isso, mesmo negando [por muito tempo] o tamanho da pandemia&#8221;, diz Fernando Aith. &#8220;Aqui, deitamos em ber\u00e7o espl\u00eandido.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>Para Margareth Dalcolmo, o Brasil apostou corretamente na vacina da AstraZenenca, mas fechou os olhos para as outras. &#8220;H\u00e1 pelo menos seis meses os pa\u00edses j\u00e1 estavam fazendo suas encomendas&#8221;, afirma.<\/p>\n\n\n\n<p>Para quem, como Tiago, perdeu o pai e a m\u00e3e para o coronav\u00edrus, assim como para as outras fam\u00edlias, fica a clara sensa\u00e7\u00e3o de que muito do que aconteceu em suas vidas poderia ter sido evitado.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;N\u00e3o precisa ser um g\u00eanio para saber que negar [o potencial destrutivo da doen\u00e7a] \u00e9 uma imbecilidade&#8221;, afirma Tiago.<\/p>\n\n\n\n<p>ClickPB<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Bastaram apenas 72 horas para que a vida de Tiago C\u00e1ria Sartini, 38, mudasse para sempre. 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