{"id":205145,"date":"2021-02-03T08:58:20","date_gmt":"2021-02-03T11:58:20","guid":{"rendered":"https:\/\/www.caririemacao.com\/1\/?p=205145"},"modified":"2021-02-03T08:58:21","modified_gmt":"2021-02-03T11:58:21","slug":"brasil-enfrenta-desabastecimento-de-remedios-de-hanseniase-e-entidades-dizem-que-governo-ignora-alertas-ha-mais-de-um-ano","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.caririemacao.com\/1\/2021\/02\/03\/brasil-enfrenta-desabastecimento-de-remedios-de-hanseniase-e-entidades-dizem-que-governo-ignora-alertas-ha-mais-de-um-ano\/","title":{"rendered":"Brasil enfrenta desabastecimento de rem\u00e9dios de hansen\u00edase e entidades dizem que governo ignora alertas h\u00e1 mais de um ano"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Munic\u00edpios de pelo menos 18 estados do pa\u00eds est\u00e3o sem os rem\u00e9dios usados para tratar a&nbsp;<strong>hansen\u00edase<\/strong>, uma combina\u00e7\u00e3o de tr\u00eas antibi\u00f3ticos chamados de poliquimioterapia, ou&nbsp;<strong>PQT<\/strong>. O dado \u00e9 do Movimento de Reintegra\u00e7\u00e3o das Pessoas Atingidas pela Hansen\u00edase (Morhan), que j\u00e1 reuniu nos \u00faltimos 15 dias mais de 100 relatos de pacientes que est\u00e3o desde o 2\u00ba semestre de 2020 sem tratamento.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A\u00a0Organiza\u00e7\u00e3o Mundial da Sa\u00fade (OMS)\u00a0emitiu um alerta aos governos que dependem da importa\u00e7\u00e3o da poliquimioterapia, caso do Brasil, em dezembro de 2019. Outros alertas e recomenda\u00e7\u00f5es foram emitidas pela Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas (ONU) diretamente ao governo brasileiro desde ent\u00e3o. Segundo a ONU, o Minist\u00e9rio da Sa\u00fade apenas tem respondido que cuida do caso. Procurado pelo G1, a pasta n\u00e3o se pronunciou sobre medidas contra o desabastecimento.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">As entidades nacionais ligadas \u00e0 hansen\u00edase tamb\u00e9m t\u00eam se mobilizado para pressionar o Minist\u00e9rio da Sa\u00fade h\u00e1 mais de seis meses. Em agosto, tanto o Morhan quanto a Sociedade Brasileira de Hansenologia (SBH) realizaram audi\u00eancia com o Minist\u00e9rio P\u00fablico Federal (MPF) para relatar a crise.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u201cCome\u00e7amos a receber tanta den\u00fancia de pessoas com o tratamento interrompido que abrimos um formul\u00e1rio online para receber os relatos. No dia 27 de janeiro, lan\u00e7amos uma peti\u00e7\u00e3o para pressionar o governo mais uma vez&#8221;, explica coordenador do Morhan, Artur Custodio.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">As primeiras reclama\u00e7\u00f5es recebidas pelo Movimento no ano passado, explica Custodio, foram de m\u00e9dicos e profissionais da sa\u00fade, desesperados ao ver que as cartelas dos rem\u00e9dios estavam acabando.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>\u201cH\u00e1 mais de 30 anos trabalho diretamente com o acometido pela hansen\u00edase e em todo esse tempo nunca tivemos falta de medicamentos do PQT\u201d, conta um m\u00e9dico de Rond\u00f4nia que preferiu n\u00e3o ser identificado.<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u201cOs pacientes reclamam muito sobre a falta de medica\u00e7\u00e3o. \u00c9 muito dif\u00edcil dizer para eles que n\u00e3o tenho previs\u00e3o da chegada da medica\u00e7\u00e3o&#8221;, diz outro m\u00e9dico anonimamente, dessa vez de Pernambuco.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Segundo o presidente da Sociedade Brasileira de Hansenologia, Claudio Salgado, a situa\u00e7\u00e3o se tornou cr\u00edtica em agosto, quando acabaram todos os estoques de Pernambuco, de S\u00e3o Paulo e do Par\u00e1. O dermatologista atua no estado paraense e conta que, naquele m\u00eas, que pelo menos 20 pacientes foram diagnosticados com a doen\u00e7a e enviados para a casa sem o tratamento.<\/p>\n\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\">40 mil sem tratamento<\/h4>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mais de 40 mil brasileiros est\u00e3o em tratamento de hansen\u00edase e dependem desses rem\u00e9dios, segundo dados de agosto de 2020 do Minist\u00e9rio da Sa\u00fade. O&nbsp;<strong>G1<\/strong>&nbsp;procurou a pasta para posicionamento sobre a crise no tratamento da doen\u00e7a, mas n\u00e3o teve resposta at\u00e9 a mais recente atualiza\u00e7\u00e3o desta reportagem.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A psicopedagoga Tatielle Naiara, de 24 anos, moradora de Tapurah, interior do Mato Grosso, \u00e9 uma desses 40 mil brasileiros desassistidos. Ela estava em tratamento de hansen\u00edase h\u00e1 quatro meses quando o tratamento teve que ser interrompido por falta de rem\u00e9dio. J\u00e1 s\u00e3o mais de quatro meses sem tratar a doen\u00e7a e os retrocessos come\u00e7am a dar sinais.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>\u201cN\u00e3o consigo fazer mais nada que force as minhas m\u00e3os, como segurar uma caneta, escrever, digitar no computador ou celular por muito tempo. O mesmo est\u00e1 acontecendo com a perna direita, estou arrastando para andar. Meus nervos voltaram a inflamar e as c\u00e2imbras nos p\u00e9s, que tanto me incomodavam antes do tratamento, voltaram\u201d &#8211;&nbsp;<strong>Tatielle, 24 anos, paciente de hansen\u00edase h\u00e1 4 meses sem tratamento.<\/strong><\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/s2.glbimg.com\/ycfCNlDuU7RMepMAgOsVJiLPL0g=\/0x0:1280x962\/984x0\/smart\/filters:strip_icc()\/i.s3.glbimg.com\/v1\/AUTH_59edd422c0c84a879bd37670ae4f538a\/internal_photos\/bs\/2021\/G\/z\/wMBwriSCWXcPEGsZsaTw\/whatsapp-image-2021-02-02-at-11.27.48-am.jpeg\" alt=\"Tatielle Naiara tem 24 anos e estava no segundo tratamento da hansen\u00edase quando a crise do abastecimento de rem\u00e9dios atingiu o Brasil. \u2014 Foto: Arquivo pessoal\"\/><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Tatielle Naiara tem 24 anos e estava no segundo tratamento da hansen\u00edase quando a crise do abastecimento de rem\u00e9dios atingiu o Brasil. \u2014 Foto: Arquivo pessoal<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Sem previs\u00e3o de chegada dos rem\u00e9dios e com medo do avan\u00e7o da doen\u00e7a, a jovem come\u00e7ou a se sentir ansiosa.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u201cTive crises de p\u00e2nico assim que os rem\u00e9dios foram cortados. Desde ent\u00e3o, tomo quatro antidepressivos por m\u00eas\u201d, diz.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Tatielle e mais sete pessoas da fam\u00edlia foram diagnosticadas com hansen\u00edase em 2018, durante uma campanha de preven\u00e7\u00e3o da doen\u00e7a que ocorreu na sua cidade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u201cSinto dores nas juntas desde os 12 anos, mas os m\u00e9dicos achavam que era reumatismo infantil. Quando minha av\u00f3 fez o exame na campanha e descobriu que tinha hansen\u00edase, eu e minhas primas, que fomos cuidadas por ela na inf\u00e2ncia, resolvemos fazer. Todas fomos diagnosticadas\u201d, conta.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Tatielle \u00e9 a \u00fanica da fam\u00edlia que ainda estava em tratamento quando teve in\u00edcio a crise de abastecimento de rem\u00e9dios no SUS. Isso porque o seu primeiro tratamento, feito durante os 12 meses de 2018 sem interrup\u00e7\u00e3o, n\u00e3o foi eficaz.<\/p>\n\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\">Tratamento brasileiro \u00e9 defasado<\/h4>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O dermatologista Claudio Salgado explica que hist\u00f3rias como a da psicopedagoga n\u00e3o s\u00e3o raras de acontecer porque a forma como o Brasil trata a hansen\u00edase est\u00e1 defasada.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>\u201cUsamos os mesmos antibi\u00f3ticos para tratar a hansen\u00edase h\u00e1 40 anos. \u00c9 \u00f3bvio que a bact\u00e9ria causadora da doen\u00e7a tenta se proteger e, com isso, temos novas cepas circulando no pa\u00eds que s\u00e3o resistentes aos medicamentos antigos\u201d, explica o presidente da SBH.<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u201cEm mar\u00e7o de 2020, quando a SBH come\u00e7ou a receber as primeiras den\u00fancias de falta de medicamento no SUS, pedimos que o Minist\u00e9rio da Sa\u00fade comprasse outros antibi\u00f3ticos dispon\u00edveis para o tratamento, rem\u00e9dios at\u00e9 mais eficazes que os que usamos. Mais uma vez, o governo n\u00e3o fez nada\u201d, afirma Salgado.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">As orienta\u00e7\u00f5es de administra\u00e7\u00e3o do PQT tamb\u00e9m divergem. Diferente do governo, Salgado explica que a SBH alerta que os rem\u00e9dios devem ser administrados por um m\u00ednimo de seis meses, se estendendo at\u00e9 dois anos ou mais, a depender do caso.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>\u201cA hansen\u00edase tem um tratamento administrativo. Se resume a uma norma do Minist\u00e9rio da Sa\u00fade que diz que o paciente deve tomar 12 doses dos antibi\u00f3ticos em at\u00e9 18 meses. Ap\u00f3s esse tempo, \u00e9 automaticamente tido como curado\u201d, aponta o dermatologista.<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/s03.video.glbimg.com\/x240\/9225862.jpg\" alt=\"Den\u00fancia relata falta de medicamentos para tratamento de Hansen\u00edase, na PB\" title=\"Den\u00fancia relata falta de medicamentos para tratamento de Hansen\u00edase, na PB\"\/><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Den\u00fancia relata falta de medicamentos para tratamento de Hansen\u00edase, na PB<\/p>\n\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\">Falta soberania<\/h4>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Apesar de ser o pa\u00eds com o maior n\u00famero de casos de hansen\u00edase por habitantes no mundo &#8211; diagnosticamos cerca de 30 mil novos casos por ano -, o Brasil, igual a pa\u00edses da \u00c1frica, n\u00e3o produz medicamentos para tratar a doen\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Os rem\u00e9dios do PQT que chegam no pa\u00eds s\u00e3o, h\u00e1 mais de 40 anos, doa\u00e7\u00f5es diretas da OMS, que s\u00e3o repassados ao Sistema \u00danico de Sa\u00fade (SUS) e n\u00e3o s\u00e3o vendidos nas farm\u00e1cias. Assim, todo paciente brasileiro depende exclusivamente do bom funcionamento do SUS para ter acesso ao tratamento.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em entrevista ao<strong>&nbsp;G1<\/strong>, a relatora especial da ONU sobre a Elimina\u00e7\u00e3o da Discrimina\u00e7\u00e3o Contra as Pessoas Afetadas pela Hansen\u00edase, Alice Cruz, explica que o problema de desabastecimento ocorrido em v\u00e1rios pa\u00edses tem sido pior no Brasil, uma vez que o pa\u00eds depende exclusivamente da importa\u00e7\u00e3o dos rem\u00e9dios.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u201cFizemos o \u00faltimo mapeamento em dezembro e levantamos que cinco pa\u00edses estavam com os tratamentos da hansen\u00edase suspensos por falta de medicamento. Eram eles: Brasil, Nig\u00e9ria, Sud\u00e3o, Camar\u00f5es e Indon\u00e9sia. A situa\u00e7\u00e3o \u00e9 din\u00e2mica e a Nig\u00e9ria j\u00e1 conseguiu resolver o problema em janeiro, por exemplo. No Brasil, contudo, o problema vem se arrastando\u201d, afirma Cruz.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A relatora especial da ONU lembra que a \u00cdndia tem a segunda pior taxa de novos casos de hansen\u00edase por habitantes, atr\u00e1s apenas do Brasil, mas n\u00e3o passou pela crise porque \u00e9 produtora e exportadora mundial do PQT. Os antibi\u00f3ticos utilizados no SUS v\u00eam da \u00cdndia.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>\u201cA situa\u00e7\u00e3o \u00e9 catastr\u00f3fica e tem um car\u00e1ter de urg\u00eancia. Por isso, a ONU recomendou ao governo brasileiro que comece a produzir o PQT. O pa\u00eds tem condi\u00e7\u00f5es t\u00e9cnicas e recursos econ\u00f4micos para se tornar soberano nessa produ\u00e7\u00e3o\u201d &#8211;&nbsp;<strong>Alice Cruz, relatora especial da ONU.<\/strong><\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">A hansen\u00edase no Brasil<\/h3>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/s2.glbimg.com\/8ndV3tEMnu1mMRG6quDmwUTatMI=\/0x0:651x1561\/984x0\/smart\/filters:strip_icc()\/i.s3.glbimg.com\/v1\/AUTH_59edd422c0c84a879bd37670ae4f538a\/internal_photos\/bs\/2020\/9\/w\/xvAPDSTkqOeIepiqU5tQ\/hanseniase-01.jpg\" alt=\"O que \u00e9 a hansen\u00edase e os n\u00fameros altos de cont\u00e1gio no Brasil. \u2014 Foto: Arte\/G1\"\/><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O que \u00e9 a hansen\u00edase e os n\u00fameros altos de cont\u00e1gio no Brasil. \u2014 Foto: Arte\/G1<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A hansen\u00edase \u00e9 uma doen\u00e7a contagiosa que atinge os nervos e pode causar sequelas, como a perda da sensibilidade da pele e dos movimentos. Nos casos mais graves, pode levar \u00e0 amputa\u00e7\u00e3o dos membros.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Al\u00e9m de promover a cura, o tratamento adequado da hansen\u00edase impede a transmiss\u00e3o de pessoa a pessoa da bact\u00e9ria causadora da infec\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Diante da crise de abastecimento e interrup\u00e7\u00e3o do tratamento, a ONU estima que o Brasil dever\u00e1 ter grave retrocesso no controle e transmiss\u00e3o da hansen\u00edase e na preven\u00e7\u00e3o de defici\u00eancias<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A redu\u00e7\u00e3o de diagn\u00f3sticos \u00e9 outro problema que tem sido observada no Brasil durante a pandemia. De acordo com o Morhan, nos \u00faltimos 5 anos, o pa\u00eds registrou em m\u00e9dia 15 mil casos de hansen\u00edase no primeiro semestre de cada ano. Em 2020, o Brasil teve apenas 6 mil notifica\u00e7\u00f5es nesse per\u00edodo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">G1<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Munic\u00edpios de pelo menos 18 estados do pa\u00eds est\u00e3o sem os rem\u00e9dios usados para tratar a&nbsp;hansen\u00edase, uma combina\u00e7\u00e3o de tr\u00eas antibi\u00f3ticos chamados de poliquimioterapia, ou&nbsp;PQT. O dado \u00e9 do Movimento de Reintegra\u00e7\u00e3o das Pessoas Atingidas pela Hansen\u00edase (Morhan), que j\u00e1 reuniu nos \u00faltimos 15 dias mais de 100 relatos de pacientes que est\u00e3o desde o 2\u00ba semestre de 2020 sem tratamento. A\u00a0Organiza\u00e7\u00e3o Mundial da Sa\u00fade (OMS)\u00a0emitiu um alerta aos governos que dependem da importa\u00e7\u00e3o da poliquimioterapia, caso do Brasil, em dezembro de 2019. Outros alertas e recomenda\u00e7\u00f5es foram emitidas pela Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas (ONU) diretamente ao governo brasileiro desde ent\u00e3o. Segundo a ONU, o Minist\u00e9rio da Sa\u00fade apenas tem respondido que cuida do caso. Procurado pelo G1, a pasta n\u00e3o se pronunciou sobre medidas contra o desabastecimento. As entidades nacionais ligadas \u00e0 hansen\u00edase tamb\u00e9m t\u00eam se mobilizado para pressionar o Minist\u00e9rio da Sa\u00fade h\u00e1 mais de seis meses. Em agosto, tanto o Morhan quanto a Sociedade Brasileira de Hansenologia (SBH) realizaram audi\u00eancia com o Minist\u00e9rio P\u00fablico Federal (MPF) para relatar a crise. \u201cCome\u00e7amos a receber tanta den\u00fancia de pessoas com o tratamento interrompido que abrimos um formul\u00e1rio online para receber os relatos. No dia 27 de janeiro, lan\u00e7amos uma peti\u00e7\u00e3o para pressionar o governo mais uma vez&#8221;, explica coordenador do Morhan, Artur Custodio. As primeiras reclama\u00e7\u00f5es recebidas pelo Movimento no ano passado, explica Custodio, foram de m\u00e9dicos e profissionais da sa\u00fade, desesperados ao ver que as cartelas dos rem\u00e9dios estavam acabando. \u201cH\u00e1 mais de 30 anos trabalho diretamente com o acometido pela hansen\u00edase e em todo esse tempo nunca tivemos falta de medicamentos do PQT\u201d, conta um m\u00e9dico de Rond\u00f4nia que preferiu n\u00e3o ser identificado. \u201cOs pacientes reclamam muito sobre a falta de medica\u00e7\u00e3o. \u00c9 muito dif\u00edcil dizer para eles que n\u00e3o tenho previs\u00e3o da chegada da medica\u00e7\u00e3o&#8221;, diz outro m\u00e9dico anonimamente, dessa vez de Pernambuco. Segundo o presidente da Sociedade Brasileira de Hansenologia, Claudio Salgado, a situa\u00e7\u00e3o se tornou cr\u00edtica em agosto, quando acabaram todos os estoques de Pernambuco, de S\u00e3o Paulo e do Par\u00e1. O dermatologista atua no estado paraense e conta que, naquele m\u00eas, que pelo menos 20 pacientes foram diagnosticados com a doen\u00e7a e enviados para a casa sem o tratamento. 40 mil sem tratamento Mais de 40 mil brasileiros est\u00e3o em tratamento de hansen\u00edase e dependem desses rem\u00e9dios, segundo dados de agosto de 2020 do Minist\u00e9rio da Sa\u00fade. O&nbsp;G1&nbsp;procurou a pasta para posicionamento sobre a crise no tratamento da doen\u00e7a, mas n\u00e3o teve resposta at\u00e9 a mais recente atualiza\u00e7\u00e3o desta reportagem. A psicopedagoga Tatielle Naiara, de 24 anos, moradora de Tapurah, interior do Mato Grosso, \u00e9 uma desses 40 mil brasileiros desassistidos. Ela estava em tratamento de hansen\u00edase h\u00e1 quatro meses quando o tratamento teve que ser interrompido por falta de rem\u00e9dio. J\u00e1 s\u00e3o mais de quatro meses sem tratar a doen\u00e7a e os retrocessos come\u00e7am a dar sinais. \u201cN\u00e3o consigo fazer mais nada que force as minhas m\u00e3os, como segurar uma caneta, escrever, digitar no computador ou celular por muito tempo. O mesmo est\u00e1 acontecendo com a perna direita, estou arrastando para andar. Meus nervos voltaram a inflamar e as c\u00e2imbras nos p\u00e9s, que tanto me incomodavam antes do tratamento, voltaram\u201d &#8211;&nbsp;Tatielle, 24 anos, paciente de hansen\u00edase h\u00e1 4 meses sem tratamento. Tatielle Naiara tem 24 anos e estava no segundo tratamento da hansen\u00edase quando a crise do abastecimento de rem\u00e9dios atingiu o Brasil. \u2014 Foto: Arquivo pessoal Sem previs\u00e3o de chegada dos rem\u00e9dios e com medo do avan\u00e7o da doen\u00e7a, a jovem come\u00e7ou a se sentir ansiosa. \u201cTive crises de p\u00e2nico assim que os rem\u00e9dios foram cortados. Desde ent\u00e3o, tomo quatro antidepressivos por m\u00eas\u201d, diz. Tatielle e mais sete pessoas da fam\u00edlia foram diagnosticadas com hansen\u00edase em 2018, durante uma campanha de preven\u00e7\u00e3o da doen\u00e7a que ocorreu na sua cidade. \u201cSinto dores nas juntas desde os 12 anos, mas os m\u00e9dicos achavam que era reumatismo infantil. Quando minha av\u00f3 fez o exame na campanha e descobriu que tinha hansen\u00edase, eu e minhas primas, que fomos cuidadas por ela na inf\u00e2ncia, resolvemos fazer. Todas fomos diagnosticadas\u201d, conta. Tatielle \u00e9 a \u00fanica da fam\u00edlia que ainda estava em tratamento quando teve in\u00edcio a crise de abastecimento de rem\u00e9dios no SUS. Isso porque o seu primeiro tratamento, feito durante os 12 meses de 2018 sem interrup\u00e7\u00e3o, n\u00e3o foi eficaz. Tratamento brasileiro \u00e9 defasado O dermatologista Claudio Salgado explica que hist\u00f3rias como a da psicopedagoga n\u00e3o s\u00e3o raras de acontecer porque a forma como o Brasil trata a hansen\u00edase est\u00e1 defasada. \u201cUsamos os mesmos antibi\u00f3ticos para tratar a hansen\u00edase h\u00e1 40 anos. \u00c9 \u00f3bvio que a bact\u00e9ria causadora da doen\u00e7a tenta se proteger e, com isso, temos novas cepas circulando no pa\u00eds que s\u00e3o resistentes aos medicamentos antigos\u201d, explica o presidente da SBH. \u201cEm mar\u00e7o de 2020, quando a SBH come\u00e7ou a receber as primeiras den\u00fancias de falta de medicamento no SUS, pedimos que o Minist\u00e9rio da Sa\u00fade comprasse outros antibi\u00f3ticos dispon\u00edveis para o tratamento, rem\u00e9dios at\u00e9 mais eficazes que os que usamos. Mais uma vez, o governo n\u00e3o fez nada\u201d, afirma Salgado. As orienta\u00e7\u00f5es de administra\u00e7\u00e3o do PQT tamb\u00e9m divergem. Diferente do governo, Salgado explica que a SBH alerta que os rem\u00e9dios devem ser administrados por um m\u00ednimo de seis meses, se estendendo at\u00e9 dois anos ou mais, a depender do caso. \u201cA hansen\u00edase tem um tratamento administrativo. Se resume a uma norma do Minist\u00e9rio da Sa\u00fade que diz que o paciente deve tomar 12 doses dos antibi\u00f3ticos em at\u00e9 18 meses. Ap\u00f3s esse tempo, \u00e9 automaticamente tido como curado\u201d, aponta o dermatologista. Den\u00fancia relata falta de medicamentos para tratamento de Hansen\u00edase, na PB Falta soberania Apesar de ser o pa\u00eds com o maior n\u00famero de casos de hansen\u00edase por habitantes no mundo &#8211; diagnosticamos cerca de 30 mil novos casos por ano -, o Brasil, igual a pa\u00edses da \u00c1frica, n\u00e3o produz medicamentos para tratar a doen\u00e7a. Os rem\u00e9dios do PQT que chegam no pa\u00eds s\u00e3o, h\u00e1 mais de 40 anos, doa\u00e7\u00f5es diretas da OMS, que s\u00e3o repassados ao Sistema \u00danico de Sa\u00fade<\/p>\n","protected":false},"author":6,"featured_media":205146,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"sfsi_plus_gutenberg_text_before_share":"","sfsi_plus_gutenberg_show_text_before_share":"","sfsi_plus_gutenberg_icon_type":"","sfsi_plus_gutenberg_icon_alignemt":"","sfsi_plus_gutenburg_max_per_row":"","footnotes":""},"categories":[16],"tags":[],"class_list":["post-205145","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-saude"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.caririemacao.com\/1\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/205145","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.caririemacao.com\/1\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.caririemacao.com\/1\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.caririemacao.com\/1\/wp-json\/wp\/v2\/users\/6"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.caririemacao.com\/1\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=205145"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.caririemacao.com\/1\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/205145\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":205147,"href":"https:\/\/www.caririemacao.com\/1\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/205145\/revisions\/205147"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.caririemacao.com\/1\/wp-json\/wp\/v2\/media\/205146"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.caririemacao.com\/1\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=205145"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.caririemacao.com\/1\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=205145"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.caririemacao.com\/1\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=205145"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}