{"id":215388,"date":"2021-04-22T11:39:33","date_gmt":"2021-04-22T14:39:33","guid":{"rendered":"https:\/\/www.caririemacao.com\/1\/?p=215388"},"modified":"2021-04-22T11:39:36","modified_gmt":"2021-04-22T14:39:36","slug":"coronavirus-agiu-de-forma-inesperada-e-deu-um-baile-na-gente-diz-diretor-clinico-do-fleury","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.caririemacao.com\/1\/2021\/04\/22\/coronavirus-agiu-de-forma-inesperada-e-deu-um-baile-na-gente-diz-diretor-clinico-do-fleury\/","title":{"rendered":"Coronav\u00edrus agiu de forma inesperada e deu um baile na gente, diz diretor cl\u00ednico do Fleury"},"content":{"rendered":"\n<p>Um ano e dois meses desde o primeiro caso de Covid-19 confirmado em S\u00e3o Paulo, \u00e9 seguro dizer que a doen\u00e7a mudou em diversos aspectos. Segundo o infectologista Celso Granato, diretor cl\u00ednico do grupo Fleury, a variante P.1 alterou drasticamente o perfil da doen\u00e7a, com pacientes com exames de sangue alterados, possivelmente relacionados \u00e0 nova cepa.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Os exames de sangue dos pacientes internados [em mar\u00e7o] eram todos alterados, com mais pedidos de hemocultura do que o normal, permanecendo mais tempo em UTI.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>O coronav\u00edrus Sars-CoV-2, diz ele, se comportou de maneira inesperada at\u00e9 mesmo para outros coronav\u00edrus, como Sars e Mers, respons\u00e1veis pelas epidemias em 2002 e 2009.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Batemos na tecla de &#8216;imunidade de rebanho&#8217; l\u00e1 atr\u00e1s e hoje sabemos que foi um erro. Isso n\u00e3o faz sentido com as novas variantes do Sars-CoV-2, \u00e9 s\u00f3 ver o que aconteceu em Manaus. O v\u00edrus deu um baile na gente.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>Para ele, \u00e9 fundamental fortalecer o SUS, usar a estrutura montada para a Covid e investir na ci\u00eancia brasileira para outras epidemias futuras. &#8220;Precisamos ter mais independ\u00eancia na produ\u00e7\u00e3o de vacinas e de reagentes para testes diagn\u00f3sticos. Ficamos muito tempo no ano passado na depend\u00eancia de importa\u00e7\u00e3o&#8221;, diz.<\/p>\n\n\n\n<p>O m\u00e9dico conversou com a reportagem ainda sobre os desafios impostos pela pandemia para a medicina diagn\u00f3stica e sobre os tipos de testes dispon\u00edveis.<\/p>\n\n\n\n<p>PERGUNTA &#8211; H\u00e1 um ano, a pandemia da Covid-19 desafiou a medicina, e o que antes parecia ser um v\u00edrus causador de s\u00edndrome gripal mostrou trazer outros efeitos, inclusive com sintomas persistentes depois da alta hospitalar. Como infectologista, j\u00e1 viu outro caso de uma infec\u00e7\u00e3o viral parecida?<\/p>\n\n\n\n<p>CELSO GRANATO &#8211; Na minha atua\u00e7\u00e3o cl\u00ednica, como infectologista, um estrago dessa dimens\u00e3o n\u00e3o vi. A surpresa maior dessa \u00e1rea foi com o v\u00edrus da zika [em 2015] e tamb\u00e9m era algo cuja dimens\u00e3o s\u00f3 fomos descobrir depois, quando foi demonstrada a associa\u00e7\u00e3o da microcefalia com o zika.<\/p>\n\n\n\n<p>Para compara\u00e7\u00e3o, em 2009 o Fleury chegou a fazer 150 testes por dia para o H1N1 [v\u00edrus da gripe su\u00edna], e hoje s\u00e3o cerca de 6.000 testes por dia [para Covid], uma diferen\u00e7a enorme em termos de propor\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 doen\u00e7a em si, nosso conhecimento mudou muito do in\u00edcio da pandemia para c\u00e1. Eu mesmo devo ter falado coisas equivocadas, porque o conceito que t\u00ednhamos na \u00e9poca era outro.<\/p>\n\n\n\n<p>Nossa refer\u00eancia eram os v\u00edrus de Sars e Mers, que eram muito mais letais, ent\u00e3o esse tipo de sintoma perene, falta de ar persistente meses ap\u00f3s a recupera\u00e7\u00e3o, perda de olfato, presen\u00e7a de AVCs e outros sintomas, eram coisas inimagin\u00e1veis h\u00e1 um ano.<\/p>\n\n\n\n<p>Outra tecla que batemos l\u00e1 atr\u00e1s e hoje sabemos que foi um erro foi a tal &#8216;imunidade de rebanho&#8217; [atingida ap\u00f3s um n\u00famero de pessoas j\u00e1 terem desenvolvido a doen\u00e7a]. Isso n\u00e3o faz sentido com as novas variantes do Sars-CoV-2. \u00c9 s\u00f3 ver o que aconteceu em Manaus. O v\u00edrus deu um baile na gente.<\/p>\n\n\n\n<p>No come\u00e7o, a falta de insumos para testes do coronav\u00edrus foi um gargalo no Brasil e no mundo. Hoje, n\u00e3o h\u00e1 mais esse problema?Quais s\u00e3o os testes dispon\u00edveis no Fleury e qual a indica\u00e7\u00e3o de cada um?<\/p>\n\n\n\n<p>CG &#8211; Isso evoluiu muito e deixou de ser um problema a partir do momento em que os grandes laborat\u00f3rios passaram a fazer os pr\u00f3prios testes. Al\u00e9m disso, temos alguns testes chamados de beira de leito [cujo uso \u00e9 indicado quando o paciente n\u00e3o pode ser removido], o que tamb\u00e9m \u00e9 uma vantagem para fazer um teste em uma gestante que chega em uma maternidade ou para uma pessoa que sofreu um acidente e precisa ir para a mesa de cirurgia. Esses pacientes n\u00e3o podem aguardar tr\u00eas dias \u00fateis por um resultado de RT-PCR, eles precisam saber em quest\u00e3o de horas.<\/p>\n\n\n\n<p>Hoje o Fleury tem oito tipos de testes, seis moleculares e dois sorol\u00f3gicos. Os dois sorol\u00f3gicos diferem porque temos um para verificar se a pessoa teve Covid no passado e n\u00e3o sabe -ele \u00e9 usado tamb\u00e9m no nosso censo sorol\u00f3gico- e um p\u00f3s-vacina\u00e7\u00e3o, que detecta anticorpos neutralizantes produzidos com a vacina.<\/p>\n\n\n\n<p>Temos um desafio que \u00e9 n\u00e3o termos encontrado ainda o melhor teste de anticorpos para captar a vacina. Em um estudo nosso, 70% de vacinados tiveram resultado positivo para os anticorpos neutralizantes, mas em 30% dessas pessoas o resultado foi n\u00e3o reagente. A\u00ed perguntam &#8216;Ent\u00e3o n\u00e3o estou protegido? A vacina n\u00e3o funcionou?&#8217; e n\u00e3o sabemos responder. A verdade \u00e9 que n\u00e3o acertamos o ajuste fino desse teste, a vacina tamb\u00e9m fornece prote\u00e7\u00e3o celular, que \u00e9 diferente da resposta de anticorpos, e n\u00e3o \u00e9 detect\u00e1vel.<\/p>\n\n\n\n<p>Do ponto de vista cl\u00ednico, a doen\u00e7a tamb\u00e9m parece ter mudado. Como era a evolu\u00e7\u00e3o e at\u00e9 mesmo a din\u00e2mica dos exames dos pacientes na primeira onda e como \u00e9 agora?<\/p>\n\n\n\n<p>CG &#8211; Se voc\u00ea olhar os dados de mar\u00e7o e abril de 2020, os pacientes eram mais velhos, com diabetes, hipertens\u00e3o, muitas comorbidades. E o perfil epidemiol\u00f3gico da doen\u00e7a come\u00e7ou a mudar aos poucos, com crescimento de casos entre mais jovens e queda entre mais velhos. Passamos a ter menos mortes em agosto e setembro, mas, a partir do \u00faltimo trimestre do ano passado, em um levantamento da \u00e1rea t\u00e9cnica do Fleury, observamos um aumento no Ct dos exames [a carga viral do coronav\u00edrus] at\u00e9 cinco vezes maior no in\u00edcio deste ano do que no ano passado, e isso provavelmente \u00e9 em raz\u00e3o da P.1, porque ela tem uma carga viral maior.<\/p>\n\n\n\n<p>No Reino Unido, j\u00e1 foi confirmada a maior transmissibilidade da variante brit\u00e2nica, mas sua maior letalidade ainda \u00e9 um ponto sem consenso cient\u00edfico. Temos dados quanto \u00e0 maior letalidade ou gravidade da variante P.1?<\/p>\n\n\n\n<p>CG &#8211; A nossa viv\u00eancia de laborat\u00f3rio mostrou muito antes o que estava acontecendo em termos de epidemiologia das variantes. Percebemos, em mar\u00e7o, que nossos equipamentos que funcionavam um m\u00eas sem problemas paravam com uma semana de uso. A primeira ideia era que havia mais testes sendo feitos em cada equipamento, mas esse n\u00famero n\u00e3o mudou em rela\u00e7\u00e3o a dezembro, por exemplo. Ent\u00e3o a equipe t\u00e9cnica avaliou e descobriu que as m\u00e1quinas estavam entupindo por excesso de prote\u00edna.<\/p>\n\n\n\n<p>As prote\u00ednas que causam a coagula\u00e7\u00e3o no sangue e podem levar \u00e0 trombose e acidentes vasculares [por Covid] estavam fazendo o mesmo nas m\u00e1quinas. Com isso, os exames de sangue vinham todos alterados, como a gasometria, que \u00e9 um exame para medir oxigena\u00e7\u00e3o no sangue. Tamb\u00e9m come\u00e7amos a notar mais pedidos de hemocultura [para ver presen\u00e7a de bact\u00e9rias que podem causar infec\u00e7\u00f5es no sangue]. Em um m\u00eas, esses pedidos aumentaram mais de 50%. Ent\u00e3o a doen\u00e7a de fato mudou neste ano ano, os pacientes est\u00e3o muito mais suscet\u00edveis a essas infec\u00e7\u00f5es hospitalares.<\/p>\n\n\n\n<p>E isso tem rela\u00e7\u00e3o com a variante P.1?<\/p>\n\n\n\n<p>CG &#8211; N\u00e3o imagino outra raz\u00e3o. Essa observa\u00e7\u00e3o coincidiu com o final do segundo semestre do ano passado [quando surgiram as novas variantes] e teve um pico na \u00e9poca em que foi divulgado um estudo apontando que, em S\u00e3o Paulo, quase 80% das amostras do v\u00edrus sequenciadas eram P.1. N\u00e3o sabemos ainda exatamente os mecanismos por tr\u00e1s disso, mas esses estudos devem sair em breve.<\/p>\n\n\n\n<p>O sr. tem alguma previs\u00e3o sobre quando vamos passar da pandemia e o que ela deixa de legado?<\/p>\n\n\n\n<p>CG &#8211; Quando a pandemia vai passar depende de duas coisas: vacina\u00e7\u00e3o e isolamento social. J\u00e1 est\u00e1 claro, a partir de outros pa\u00edses que est\u00e3o progredindo bastante na vacina\u00e7\u00e3o, que s\u00f3 vacinar n\u00e3o \u00e9 suficiente, \u00e9 preciso manter o isolamento social e as medidas sanit\u00e1rias at\u00e9 atingir um n\u00famero grande de vacinados. Quantos? N\u00e3o sabemos. H\u00e1 estimativas de 60%, 70%. Por isso, acho que at\u00e9 o final desse ano, come\u00e7o do ano que vem, ainda vamos ter que manter o isolamento social, e isso \u00e9 dif\u00edcil porque as pessoas est\u00e3o cada vez mais reticentes.<\/p>\n\n\n\n<p>A pandemia vai deixar um legado imenso e espero que n\u00f3s, como sociedade, aproveitemos isso. Aprendemos muitas li\u00e7\u00f5es quanto ao conv\u00edvio em sociedade, teletrabalho, viv\u00eancia em cidades. E essa n\u00e3o \u00e9 a \u00faltima pandemia, infelizmente. Em algum momento outro v\u00edrus vai surgir, no m\u00ednimo uma gripe, e por isso \u00e9 importante ter esse conhecimento. O esquema j\u00e1 est\u00e1 pronto.<\/p>\n\n\n\n<p>Precisamos fortalecer o SUS, porque n\u00e3o podemos pensar que s\u00f3 com a iniciativa privada \u00e9 suficiente, s\u00e3o servi\u00e7os complementares. Precisamos ter mais independ\u00eancia para produ\u00e7\u00e3o de vacinas e de reagentes para testes diagn\u00f3sticos. Ficamos muito tempo ano passado na depend\u00eancia de importa\u00e7\u00e3o. Precisamos aproveitar essa transfer\u00eancia de tecnologia que o Butantan e a Fiocruz v\u00e3o ter para novas vacinas. Temos v\u00e1rias doen\u00e7as respirat\u00f3rias que causam mortalidade infantil; se a Fiocruz puder fazer uma vacina de RNA para esses v\u00edrus ser\u00e1 um salto gigante.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Raio-X<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>CELSO GRANATO, 66<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 infectologista e diretor cl\u00ednico do Grupo Fleury. Graduou-se em medicina na USP e fez resid\u00eancia m\u00e9dica no departamento de Doen\u00e7as Infecciosas e Parasit\u00e1rias do Hospital das Cl\u00ednicas. Foi pesquisador associado na Universidade de Hamburgo (Alemanha), na Universidade Alexis Carrel (Fran\u00e7a) e na Universidade Cornell, em Nova York (EUA). Tem doutorado em infectologia pela Unifesp e, desde 2004, \u00e9 professor livre-docente na mesma institui\u00e7\u00e3o. \u00c9 pesquisador associado do Instituto de Medicina Tropical de S\u00e3o Paulo (IMT-USP).<\/p>\n\n\n\n<p><em>ClickPB<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Um ano e dois meses desde o primeiro caso de Covid-19 confirmado em S\u00e3o Paulo, \u00e9 seguro dizer que a doen\u00e7a mudou em diversos aspectos.&hellip; <\/p>\n","protected":false},"author":6,"featured_media":215389,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"sfsi_plus_gutenberg_text_before_share":"","sfsi_plus_gutenberg_show_text_before_share":"","sfsi_plus_gutenberg_icon_type":"","sfsi_plus_gutenberg_icon_alignemt":"","sfsi_plus_gutenburg_max_per_row":"","footnotes":""},"categories":[124],"tags":[],"class_list":["post-215388","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-covid-19"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.caririemacao.com\/1\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/215388","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.caririemacao.com\/1\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.caririemacao.com\/1\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.caririemacao.com\/1\/wp-json\/wp\/v2\/users\/6"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.caririemacao.com\/1\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=215388"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.caririemacao.com\/1\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/215388\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":215390,"href":"https:\/\/www.caririemacao.com\/1\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/215388\/revisions\/215390"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.caririemacao.com\/1\/wp-json\/wp\/v2\/media\/215389"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.caririemacao.com\/1\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=215388"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.caririemacao.com\/1\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=215388"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.caririemacao.com\/1\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=215388"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}