{"id":226773,"date":"2021-08-04T10:27:55","date_gmt":"2021-08-04T13:27:55","guid":{"rendered":"https:\/\/www.caririemacao.com\/1\/?p=226773"},"modified":"2021-08-04T10:27:57","modified_gmt":"2021-08-04T13:27:57","slug":"jamal-fugiu-da-guerra-dividiu-cama-com-7-pessoas-e-viveu-a-liberdade-nas-olimpiadas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.caririemacao.com\/1\/2021\/08\/04\/jamal-fugiu-da-guerra-dividiu-cama-com-7-pessoas-e-viveu-a-liberdade-nas-olimpiadas\/","title":{"rendered":"Jamal fugiu da guerra, dividiu cama com 7 pessoas e viveu a &#8216;liberdade&#8217; nas Olimp\u00edadas"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;Entre os 20 competidores da segunda qualificat\u00f3ria para os 5.000 m das Olimp\u00edadas, o sudan\u00eas Jamal Abdelmaji Eisa Mohammed era o mais baixo, com 1,70 m. Precisava dar mais passadas para acompanhar o pelot\u00e3o de elite, o que n\u00e3o conseguiu em grande parte da prova.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Manteve o seu ritmo, sem se desesperar nem sair do seu plano de corrida. Terminou em 13\u00ba. O tempo de 13m42s98 foi o melhor da sua carreira.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Se em maio de 2010, quando dormia em um banco de parque em Tel Aviv, Israel, algu\u00e9m lhe dissesse que 11 anos depois participaria das Olimp\u00edadas&#8230;&nbsp;&#8220;Eu falaria que essa pessoa havia perdido o ju\u00edzo. Minha preocupa\u00e7\u00e3o era ter o que comer, n\u00e3o correr&#8221;, constata o atleta de 27 anos, \u00e0 Folha.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Depois que o pai foi morto em 2003, quando Jamal tinha 10 anos, em um ataque em Barde, um vilarejo do Sud\u00e3o, o garoto decidiu fugir do seu pa\u00eds natal. Imagina que talvez por ser crian\u00e7a demais n\u00e3o tenha tido \u00eaxito. N\u00e3o se lembra quantas vezes tentou. &#8220;Foram muitas&#8221;, diz.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em 2010 conseguiu chegar a Israel e ganhou no centro de deten\u00e7\u00e3o para imigrantes um bilhete de \u00f4nibus (apenas de ida) para Tel Aviv.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&#8220;Eu n\u00e3o conhecia ningu\u00e9m l\u00e1. Fiquei perdido. N\u00e3o sabia o que fazer. Comecei a procurar por outros sudaneses.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Um deles o ajudou e lhe ofereceu vaga em um apartamento onde moravam outros seis compatriotas. Os outros chamavam de casa. Jamal ri com a lembran\u00e7a. Era um quarto com apenas uma cama.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&#8220;Naquele tempo eu nem conseguia pensar em atletismo. Nos finais de semana jogava futebol. Tinha a preocupa\u00e7\u00e3o em procurar emprego. Foi uma caminhada at\u00e9 chegar nesta noite aqui&#8221;, diz o sudan\u00eas apontando para o corredor que leva \u00e0 pista do Est\u00e1dio Ol\u00edmpico de T\u00f3quio, onde havia acabado de correr os melhores 5 km de sua vida na manh\u00e3 desta ter\u00e7a-feira (3).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">N\u00e3o por acaso, ap\u00f3s cruzar a linha de chegada, ele estava exultante. Cumprimentou todos os demais competidores, tenham ficado \u00e0 sua frente ou atr\u00e1s na classifica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Isso foi depois. Antes da prova, ele n\u00e3o quis nem olhar para os outros atletas. N\u00e3o desejava se sentir intimidado com o tamanho deles, com as pernas mais longas ou com as camisas com nomes de pa\u00edses, alguns da Europa para os quais tentou imigrar e n\u00e3o conseguiu. Jamal corre com o uniforme do time de refugiados.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&#8220;Estar entre os melhores do mundo \u00e9 um sonho. Foi o melhor sentimento que tive na vida. Fiquei mais feliz do que quando consegui arrumar emprego em Tel Aviv&#8221;, confessa.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O trabalho em Israel foi como pintor de paredes. O sudan\u00eas ficou no emprego por sete anos. Quando saiu, foi para se dedicar ao atletismo de vez. Um amigo havia sugerido que ele tentasse o esporte porque, no futebol, era quem mais corria em campo. Sua estrutura f\u00edsica lembra a de N&#8217;Golo Kant\u00e9, o volante franc\u00eas de pais malianos, campe\u00e3o da Copa do Mundo de 2018 e conhecido por ser incans\u00e1vel.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Jamal gostou da ideia de competir em corridas de longa dist\u00e2ncia. Mas a prioridade era pintar. Isso lhe possibilitava manter-se em Israel e mandar dinheiro para a fam\u00edlia no Sud\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Levou tempo, mas o quarto para sete pessoas ficou no passado.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&#8220;Aos poucos, eu e as outras pessoas conseguimos algum dinheiro e alugamos um espa\u00e7o maior. Hoje n\u00e3o tenho minha pr\u00f3pria casa, mas vivo bem melhor. Foi o resultado de muito trabalho&#8221;, diz.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ele mora no apartamento de um volunt\u00e1rio do Alleys Runners Club, onde trabalha como massagista. N\u00e3o paga nada, apenas cuida do lugar onde tem o seu pr\u00f3prio quarto e n\u00e3o se reveza com mais ningu\u00e9m para se deitar em uma cama.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Para quem ainda tem as imagens da guerra civil do Sud\u00e3o, a morte do pai e as v\u00e1rias tentativas de fuga na mem\u00f3ria, Jamal usa a palavra &#8220;liberdade&#8221; para definir como se sentiu na prova dos 5000 m em T\u00f3quio.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&#8220;N\u00e3o acabou. Tenho de trabalhar mais duro agora. Tudo o que aconteceu aqui \u00e9 um incentivo para mostrar que eu posso mais&#8221;, completa. Desde 2017, ele \u00e9 bolsista ol\u00edmpico em um programa do COI (Comit\u00ea Ol\u00edmpico Internacional) que lhe d\u00e1 condi\u00e7\u00f5es de treinar em alto n\u00edvel no atletismo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No horizonte est\u00e3o provas de cross country, feitas em espa\u00e7os abertos, em terra ou grama. \u00c9 uma maneira de continuar competindo e, quem sabe, tentar de novo nos Jogos de Paris-2024.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&#8220;Isso aqui [as Olimp\u00edadas] \u00e9 mais do que sonhei. Nunca vou esquecer que vivi isso&#8221;, conclui Jamal Abdelmaji Eisa Mohammed.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">FolhaPress<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp;Entre os 20 competidores da segunda qualificat\u00f3ria para os 5.000 m das Olimp\u00edadas, o sudan\u00eas Jamal Abdelmaji Eisa Mohammed era o mais baixo, com 1,70 m. Precisava dar mais passadas para acompanhar o pelot\u00e3o de elite, o que n\u00e3o conseguiu em grande parte da prova. Manteve o seu ritmo, sem se desesperar nem sair do seu plano de corrida. Terminou em 13\u00ba. O tempo de 13m42s98 foi o melhor da sua carreira. Se em maio de 2010, quando dormia em um banco de parque em Tel Aviv, Israel, algu\u00e9m lhe dissesse que 11 anos depois participaria das Olimp\u00edadas&#8230;&nbsp;&#8220;Eu falaria que essa pessoa havia perdido o ju\u00edzo. Minha preocupa\u00e7\u00e3o era ter o que comer, n\u00e3o correr&#8221;, constata o atleta de 27 anos, \u00e0 Folha. Depois que o pai foi morto em 2003, quando Jamal tinha 10 anos, em um ataque em Barde, um vilarejo do Sud\u00e3o, o garoto decidiu fugir do seu pa\u00eds natal. Imagina que talvez por ser crian\u00e7a demais n\u00e3o tenha tido \u00eaxito. N\u00e3o se lembra quantas vezes tentou. &#8220;Foram muitas&#8221;, diz. Em 2010 conseguiu chegar a Israel e ganhou no centro de deten\u00e7\u00e3o para imigrantes um bilhete de \u00f4nibus (apenas de ida) para Tel Aviv. &#8220;Eu n\u00e3o conhecia ningu\u00e9m l\u00e1. Fiquei perdido. N\u00e3o sabia o que fazer. Comecei a procurar por outros sudaneses.&#8221; Um deles o ajudou e lhe ofereceu vaga em um apartamento onde moravam outros seis compatriotas. Os outros chamavam de casa. Jamal ri com a lembran\u00e7a. Era um quarto com apenas uma cama. &#8220;Naquele tempo eu nem conseguia pensar em atletismo. Nos finais de semana jogava futebol. Tinha a preocupa\u00e7\u00e3o em procurar emprego. Foi uma caminhada at\u00e9 chegar nesta noite aqui&#8221;, diz o sudan\u00eas apontando para o corredor que leva \u00e0 pista do Est\u00e1dio Ol\u00edmpico de T\u00f3quio, onde havia acabado de correr os melhores 5 km de sua vida na manh\u00e3 desta ter\u00e7a-feira (3). N\u00e3o por acaso, ap\u00f3s cruzar a linha de chegada, ele estava exultante. Cumprimentou todos os demais competidores, tenham ficado \u00e0 sua frente ou atr\u00e1s na classifica\u00e7\u00e3o. Isso foi depois. Antes da prova, ele n\u00e3o quis nem olhar para os outros atletas. N\u00e3o desejava se sentir intimidado com o tamanho deles, com as pernas mais longas ou com as camisas com nomes de pa\u00edses, alguns da Europa para os quais tentou imigrar e n\u00e3o conseguiu. Jamal corre com o uniforme do time de refugiados. &#8220;Estar entre os melhores do mundo \u00e9 um sonho. Foi o melhor sentimento que tive na vida. Fiquei mais feliz do que quando consegui arrumar emprego em Tel Aviv&#8221;, confessa. O trabalho em Israel foi como pintor de paredes. O sudan\u00eas ficou no emprego por sete anos. Quando saiu, foi para se dedicar ao atletismo de vez. Um amigo havia sugerido que ele tentasse o esporte porque, no futebol, era quem mais corria em campo. Sua estrutura f\u00edsica lembra a de N&#8217;Golo Kant\u00e9, o volante franc\u00eas de pais malianos, campe\u00e3o da Copa do Mundo de 2018 e conhecido por ser incans\u00e1vel. Jamal gostou da ideia de competir em corridas de longa dist\u00e2ncia. Mas a prioridade era pintar. Isso lhe possibilitava manter-se em Israel e mandar dinheiro para a fam\u00edlia no Sud\u00e3o. Levou tempo, mas o quarto para sete pessoas ficou no passado. &#8220;Aos poucos, eu e as outras pessoas conseguimos algum dinheiro e alugamos um espa\u00e7o maior. Hoje n\u00e3o tenho minha pr\u00f3pria casa, mas vivo bem melhor. Foi o resultado de muito trabalho&#8221;, diz. Ele mora no apartamento de um volunt\u00e1rio do Alleys Runners Club, onde trabalha como massagista. N\u00e3o paga nada, apenas cuida do lugar onde tem o seu pr\u00f3prio quarto e n\u00e3o se reveza com mais ningu\u00e9m para se deitar em uma cama. Para quem ainda tem as imagens da guerra civil do Sud\u00e3o, a morte do pai e as v\u00e1rias tentativas de fuga na mem\u00f3ria, Jamal usa a palavra &#8220;liberdade&#8221; para definir como se sentiu na prova dos 5000 m em T\u00f3quio. &#8220;N\u00e3o acabou. Tenho de trabalhar mais duro agora. Tudo o que aconteceu aqui \u00e9 um incentivo para mostrar que eu posso mais&#8221;, completa. Desde 2017, ele \u00e9 bolsista ol\u00edmpico em um programa do COI (Comit\u00ea Ol\u00edmpico Internacional) que lhe d\u00e1 condi\u00e7\u00f5es de treinar em alto n\u00edvel no atletismo. No horizonte est\u00e3o provas de cross country, feitas em espa\u00e7os abertos, em terra ou grama. \u00c9 uma maneira de continuar competindo e, quem sabe, tentar de novo nos Jogos de Paris-2024. &#8220;Isso aqui [as Olimp\u00edadas] \u00e9 mais do que sonhei. Nunca vou esquecer que vivi isso&#8221;, conclui Jamal Abdelmaji Eisa Mohammed. FolhaPress<\/p>\n","protected":false},"author":6,"featured_media":226774,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"sfsi_plus_gutenberg_text_before_share":"","sfsi_plus_gutenberg_show_text_before_share":"","sfsi_plus_gutenberg_icon_type":"","sfsi_plus_gutenberg_icon_alignemt":"","sfsi_plus_gutenburg_max_per_row":"","footnotes":""},"categories":[13],"tags":[],"class_list":["post-226773","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-esportes"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.caririemacao.com\/1\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/226773","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.caririemacao.com\/1\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.caririemacao.com\/1\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.caririemacao.com\/1\/wp-json\/wp\/v2\/users\/6"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.caririemacao.com\/1\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=226773"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.caririemacao.com\/1\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/226773\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":226775,"href":"https:\/\/www.caririemacao.com\/1\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/226773\/revisions\/226775"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.caririemacao.com\/1\/wp-json\/wp\/v2\/media\/226774"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.caririemacao.com\/1\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=226773"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.caririemacao.com\/1\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=226773"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.caririemacao.com\/1\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=226773"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}