{"id":25238,"date":"2017-08-03T12:21:06","date_gmt":"2017-08-03T15:21:06","guid":{"rendered":"http:\/\/caririemacao.com\/1\/?p=25238"},"modified":"2017-08-03T12:21:06","modified_gmt":"2017-08-03T15:21:06","slug":"ensino-de-historia-em-portugal-perpetua-mito-do-bom-colonizador-e-banaliza-escravidao-diz-pesquisadora","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.caririemacao.com\/1\/2017\/08\/03\/ensino-de-historia-em-portugal-perpetua-mito-do-bom-colonizador-e-banaliza-escravidao-diz-pesquisadora\/","title":{"rendered":"Ensino de Hist\u00f3ria em Portugal perpetua mito do &#8216;bom colonizador&#8217; e banaliza escravid\u00e3o, diz pesquisadora"},"content":{"rendered":"<p class=\"story-body__introduction\">&#8220;De igual modo, em virtude dos descobrimentos, movimentaram-se povos para outros continentes (sobretudo europeus e escravos africanos).&#8221;<\/p>\n<p>\u00c9 dessa forma &#8211; &#8220;como se os negros tivessem optado por emigrar em vez de terem sido levados \u00e0 for\u00e7a&#8221; &#8211; que o colonialismo ainda \u00e9 ensinado em Portugal.<\/p>\n<p>Quem critica \u00e9 a portuguesa Marta Ara\u00fajo, investigadora principal do Centro de Estudos Sociais (CES) da Universidade de Coimbra.<\/p>\n<p>De setembro de 2008 a fevereiro de 2012, ela coordenou uma minuciosa pesquisa ao fim da qual concluiu que os livros did\u00e1ticos do pa\u00eds &#8220;escondem o racismo no colonialismo portugu\u00eas e naturalizam a escravatura&#8221;.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, segundo Ara\u00fajo, &#8220;persiste at\u00e9 hoje a vis\u00e3o rom\u00e2ntica de que cumprimos uma miss\u00e3o civilizat\u00f3ria, ou seja, de que fomos bons colonizadores, mais benevolentes do que outros povos europeus&#8221;.<\/p>\n<p>&#8220;A escravatura n\u00e3o ocupa mais de duas ou tr\u00eas p\u00e1ginas nesses livros, sendo tratada de forma vaga e superficial. Tamb\u00e9m propagam ideias tortuosas. Por exemplo, quando falam sobre as consequ\u00eancias da escravatura, o \u00fanico pa\u00eds a ganhar maior destaque \u00e9 o Brasil e mesmo assim para falar sobre a miscigena\u00e7\u00e3o&#8221;, explica.<\/p>\n<p>&#8220;Por tr\u00e1s disso, est\u00e1 o prop\u00f3sito de destacar a suposta multirracialidade da nossa maior col\u00f4nia que, neste sentido, seria um exemplo do sucesso das pol\u00edticas de miscigena\u00e7\u00e3o. Na pr\u00e1tica, por\u00e9m, sabemos que isso n\u00e3o ocorreu da forma como \u00e9 tratada&#8221;, questiona.<\/p>\n<p>Ara\u00fajo diz que &#8220;nada mudou&#8221; desde 2012 e argumenta que a falta de compreens\u00e3o sobre o assunto traz preju\u00edzos.<\/p>\n<p>&#8220;Essa narrativa gera uma s\u00e9rie de consequ\u00eancias, desde a menor coleta de dados sobre a discrimina\u00e7\u00e3o \u00e9tnico-racial at\u00e9 a pr\u00f3pria n\u00e3o admiss\u00e3o de que temos um problema de racismo&#8221;, afirma.<\/p>\n<p><strong>&#8216;V\u00edtimas passivas?&#8217;<\/strong><\/p>\n<p>Para realizar a pesquisa, Ara\u00fajo contou com a ajuda de outros pesquisadores. O foco principal foi a an\u00e1lise dos cinco livros did\u00e1ticos de Hist\u00f3ria mais vendidos no pa\u00eds para alunos do chamado 3\u00ba Ciclo do Ensino B\u00e1sico (12 a 14 anos), que compreende do 7\u00ba ao 9\u00ba ano.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, a equipe tamb\u00e9m examinou pol\u00edticas p\u00fablicas, entrevistou historiadores e educadores, assistiu a aulas e conduziu workshops com estudantes.<\/p>\n<p>Em um deles, as pesquisadoras presenciaram uma cena que chamou a aten\u00e7\u00e3o, lembra Ara\u00fajo.<\/p>\n<p>Na ocasi\u00e3o, os alunos ficaram surpresos ao saber de revoltas das pr\u00f3prias popula\u00e7\u00f5es escravizadas. E tamb\u00e9m sobre o verdadeiro significado dos quilombos \u2500 destino dos escravos que fugiam, normalmente locais escondidos e fortificados no meio das matas.<\/p>\n<p>&#8220;Em outros pa\u00edses, h\u00e1 uma abertura muito maior para discutir como essas popula\u00e7\u00f5es lutavam contra a opress\u00e3o. Mas, no caso portugu\u00eas, os alunos nem sequer poderiam imaginar que eles se libertavam sozinhos e continuavam a acreditar que todos eram v\u00edtimas passivas da situa\u00e7\u00e3o. \u00c9 uma ideia muito resignada&#8221;, diz.<\/p>\n<p>Ara\u00fajo destaca que nos livros analisados &#8220;n\u00e3o h\u00e1 nenhuma alus\u00e3o \u00e0 Revolu\u00e7\u00e3o do Haiti (conflito sangrento que culminou na aboli\u00e7\u00e3o da escravid\u00e3o e na independ\u00eancia do pa\u00eds, que passou a ser a primeira rep\u00fablica governada por pessoas de ascend\u00eancia africana)&#8221;.<\/p>\n<p>J\u00e1 os quilombos s\u00e3o representados, acrescenta a pesquisadora, como &#8220;locais onde os negros dan\u00e7avam em um dia de festa&#8221;.<\/p>\n<p>&#8220;Como resultado, essas vers\u00f5es acabam sendo consensualizadas e n\u00e3o levantam as pol\u00eamicas necess\u00e1rias para problematizarmos o ensino da Hist\u00f3ria da \u00c1frica.&#8221;<\/p>\n<p><strong>&#8216;Vis\u00e3o rom\u00e2ntica&#8217;<\/strong><\/p>\n<p>Ara\u00fajo diz que, diferentemente de outros pa\u00edses, os livros did\u00e1ticos portugueses continuam a apregoar uma vis\u00e3o &#8220;rom\u00e2ntica&#8221; sobre o colonialismo portugu\u00eas.<\/p>\n<p>&#8220;Perdura a narrativa de que nosso colonialismo foi um colonialismo amig\u00e1vel, do qual resultaram sociedades multiculturais e multirraciais &#8211; e o Brasil seria um exemplo&#8221;, diz.<\/p>\n<p>Ironicamente, contudo, outras pot\u00eancias colonizadoras daquele tempo n\u00e3o s\u00e3o retratadas de igual forma, observa ela.<\/p>\n<p>&#8220;Quando falamos da descoberta das Am\u00e9ricas, os espanh\u00f3is s\u00e3o descritos como extremamente violentos sempre em contraste com a suposta benevol\u00eancia do colonialismo portugu\u00eas. J\u00e1 os imp\u00e9rios franc\u00eas, brit\u00e2nico e belga s\u00e3o tachados de racistas&#8221;, assinala.<\/p>\n<p>&#8220;Por outro lado, nunca se fala da quest\u00e3o racial em rela\u00e7\u00e3o ao colonialismo portugu\u00eas. H\u00e1 despolitiza\u00e7\u00e3o crescente. Os livros did\u00e1ticos holandeses, por exemplo, atribuem a escravatura aos portugueses&#8221;, acrescenta.<\/p>\n<p>Segundo ela, essa ideia da &#8220;benevol\u00eancia do colonizador portugu\u00eas&#8221; acabou encontrando eco no luso-tropicalismo, tese desenvolvida pelo cientista social brasileiro Gilberto Freire sobre a rela\u00e7\u00e3o de Portugal com os tr\u00f3picos.<\/p>\n<p>Em linhas gerais, Freire defendia que a capacidade do portugu\u00eas de se relacionar com os tr\u00f3picos \u2500 n\u00e3o por interesse pol\u00edtico ou econ\u00f4mico, mas por suposta empatia inata \u2500 resultaria de sua pr\u00f3pria origem \u00e9tica h\u00edbrida, da sua bicontinentalidade e do longo contato com mouros e judeus na Pen\u00ednsula Ib\u00e9rica.<\/p>\n<p>Apesar de rejeitado pelo Estado Novo de Get\u00falio Vargas (1930-1945), por causa da import\u00e2ncia que conferia \u00e0 miscigena\u00e7\u00e3o e \u00e0 interpenetra\u00e7\u00e3o de culturas, o luso-tropicalismo ganhou for\u00e7a como pe\u00e7a de propaganda durante a ditadura do portugu\u00eas Ant\u00f3nio de Oliveira Salazar (1932-1968). Uma vers\u00e3o simplificada e nacionalista da tese acabou guiando a pol\u00edtica externa do regime.<\/p>\n<p>&#8220;Ocorre que a quest\u00e3o racial nunca foi debatida em Portugal&#8221;, ressalta Ara\u00fajo.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/FD35\/production\/_97112846_livro.jpg\" alt=\"Passagem de livro did\u00e1tico em Portugal\" width=\"1024\" height=\"576\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><span class=\"off-screen\">Direito de imagem<\/span><span class=\"story-image-copyright\">MARTA ARA\u00daJO<\/span><\/span><figcaption class=\"media-caption\"><span class=\"off-screen\">Image caption<\/span><span class=\"media-caption__text\">Livro did\u00e1tico portugu\u00eas diz que escravos africanos &#8220;movimentaram-se para outros continentes&#8221;<\/span><\/figcaption><figcaption><\/figcaption><\/figure>\n<p><strong>&#8216;Sem resposta&#8217;<\/strong><\/p>\n<p>A pesquisadora alega que enviou os resultados da pesquisa ao Minist\u00e9rio da Educa\u00e7\u00e3o portugu\u00eas, mas nunca obteve resposta.<\/p>\n<p>&#8220;Nossa percep\u00e7\u00e3o \u00e9 que os respons\u00e1veis acreditam que tudo est\u00e1 bem assim e que medidas paliativas, como festivais culturais sazonais, podem substituir a problematiza\u00e7\u00e3o de um assunto t\u00e3o importante&#8221;, critica.<\/p>\n<p>Nesse sentido, Ara\u00fajo elogia a iniciativa brasileira de 2003 que tornou obrigat\u00f3rio o ensino da hist\u00f3ria e cultura afro-brasileira e ind\u00edgena em todas as escolas, p\u00fablicas e particulares, do ensino fundamental at\u00e9 o ensino m\u00e9dio.<\/p>\n<p>&#8220;Precisamos combater o racismo, mas isso n\u00e3o ser\u00e1 poss\u00edvel se n\u00e3o mudarmos a forma como ensinamos nossa Hist\u00f3ria&#8221;, conclui.<\/p>\n<p>Procurado pela BBC Brasil, o Minist\u00e9rio da Educa\u00e7\u00e3o portugu\u00eas n\u00e3o havia respondido at\u00e9 a publica\u00e7\u00e3o desta reportagem.<\/p>\n<p><strong>CARIRI EM A\u00c7\u00c3O<\/strong><\/p>\n<p><em>Com BBC Brasil\/Foto: Reprodu\u00e7\u00e3o\u00a0BBC\u00a0<\/em><\/p>\n<p><strong>Leia mais not\u00edcias em\u00a0<\/strong><a href=\"http:\/\/www.caririemacao.com\/\"><strong>caririemacao.com<\/strong><\/a><strong>, siga nossa p\u00e1gina no\u00a0<\/strong><a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/CaririEmAcao\/?ref=aymt_homepage_panel\"><strong>Facebook<\/strong><\/a>,<strong>\u00a0<\/strong><a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/cariri_em_acao\/?hl=pt-br\"><strong>Instagram<\/strong><\/a><strong>\u00a0e <\/strong><a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/channel\/UCAptA0jQuYQy8vMhLt2m4qg\"><strong>Youtube<\/strong><\/a><strong>\u00a0e veja nossas mat\u00e9rias, v\u00eddeos e fotos. 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