{"id":299102,"date":"2025-05-07T13:03:00","date_gmt":"2025-05-07T16:03:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.caririemacao.com\/1\/?p=299102"},"modified":"2025-05-07T13:03:00","modified_gmt":"2025-05-07T16:03:00","slug":"a-historia-da-menina-de-amparo-no-cariri-que-morreu-de-fome-e-sede","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.caririemacao.com\/1\/2025\/05\/07\/a-historia-da-menina-de-amparo-no-cariri-que-morreu-de-fome-e-sede\/","title":{"rendered":"A hist\u00f3ria da menina de Amparo, no Cariri, que morreu de fome e sede"},"content":{"rendered":"<p>No Cariri paraibano, na cidade de Amparo, existe uma Cruz da Menina ou Cruz da Mo\u00e7a, onde os beatos rezam para uma jovem que, segundo a oralidade, morreu de fome e sede.<\/p>\n<p>Entre os s\u00e9culos XIX e XX, aconteceram per\u00edodos de grandes secas no Nordeste. \u00c0 \u00e9poca, com fazendeiros j\u00e1 estabelecidos por todos os cantos da regi\u00e3o e ainda sem as devidas pol\u00edticas p\u00fablicas, os pobres precisavam circular de um lugar para outro em busca de alimento e \u00e1gua. Por vezes, eram expulsos pelas cercas e chamados de flagelados.<\/p>\n<p>A mocinha sem nome era um desses flagelados e viajava com a fam\u00edlia quando, ap\u00f3s dias de caminhada, desfaleceu no local onde hoje fica a pequena capelinha. O agricultor In\u00e1cio Pereira de Vasconcelos, de 75 anos, conheceu a hist\u00f3ria ainda crian\u00e7a, contada pelos seus av\u00f3s.<\/p>\n<p>\u201cEra um um pessoal que vinha viajando, vinha de viagem. Ningu\u00e9m A gente n\u00e3o sabe nem de onde, n\u00e9? A\u00ed vinham viajando com a fam\u00edlia. E quando chegou naquela l\u00e1 onde hoje \u00e9 a cruz, ela cansou. Essa crian\u00e7a cansou, n\u00e3o aguentou mais a viagem, eles n\u00e3o puderam mais levar ela\u201d.<\/p>\n<p>Seu In\u00e1cio conta que, segundo a hist\u00f3ria que ouviu dos av\u00f3s, a fam\u00edlia da menina foi em busca de amparo em alguma casa, mas a situa\u00e7\u00e3o de fome e desidrata\u00e7\u00e3o era t\u00e3o cr\u00edtica que os moradores da regi\u00e3o n\u00e3o conseguiram salvar a crian\u00e7a. Tamanha era a fome, que a menina morreu mastigando um len\u00e7o que usava para amarrar seus cabelos.<\/p>\n<p>\u201cQuando o povo foi chegar l\u00e1, ela tava terminando de morrer, tava mastigando o len\u00e7o, n\u00e9? Tava mastigando o len\u00e7o para chupar algum sumo\u201d.<\/p>\n<p><strong>Devotos e milagres<\/strong><\/p>\n<p>Jos\u00e9 Farias, conhecido como D\u00e9, mora pr\u00f3ximo \u00e0 capela dedicada \u00e0 milagreira e cuida do local. H\u00e1 uma pequena capelinha e ao lado uma maior onde s\u00e3o realizadas missas.<\/p>\n<p>Ele diz que os mais velhos contavam que a fam\u00edlia da menina ainda chegou a pedir comida em uma fazenda nas redondezas, mas o pedido foi negado. Quando a pessoa que negou a comida soube que a menina tinha morrido de fome, mandou fazer uma mortalha para o enterro.<\/p>\n<p>\u201cFicou agoniada, a\u00ed disse: \u2018j\u00e1 que ela morreu, eu vou comprar uma mortalha para enterrar ela\u2019. A\u00ed disse que quando quando enterraram a menina, quando foi no outro dia, a mortalha amanheceu no p\u00e9 da porta da mulher\u201d.<\/p>\n<p>Ainda segundo Jos\u00e9 Farias, outra moradora da cidade sonhou com a crian\u00e7a pedindo para que fosse constru\u00edda a capelinha. Assim, entre sonhos e pedidos atendidos, a menina de Amparo se tornou milagreira. O zelador afirma que recebe pessoas at\u00e9 de outros estados.<\/p>\n<p>\u201cAqui vem muita gente, para carro novo aqui, pagando promessa. Um dia desses, chegou um camarada do Maranh\u00e3o, ele pagou uma promessa aqui\u201d.<\/p>\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/cdn.jornaldaparaiba.com.br\/img\/inline\/190000\/500x0\/Santinhas-as-milagreiras-da-Paraiba-a-historia-da-0019018903202505070607-8.webp?fallback=https%3A%2F%2Fcdn.jornaldaparaiba.com.br%2Fimg%2Finline%2F190000%2FSantinhas-as-milagreiras-da-Paraiba-a-historia-da-0019018903202505070607.jpg%3Fxid%3D1121946&amp;xid=1121946\" alt=\"  Santinhas, as milagreiras da Para\u00edba: a hist\u00f3ria da menina de Amparo, que morreu de fome e sede  \" \/><\/figure>\n<\/div>\n<p>Um dos devotos da menina de Amparo \u00e9 Erivaldo Joaquim, que atribui \u00e0 milagreira ter voltado a andar ap\u00f3s um acidente de moto. Em agradecimento, um ano depois, ele levou a escultura de uma perna at\u00e9 a capela. Esse tipo de objeto \u00e9 chamado de ex-voto e \u00e9 oferecido a santos e milagreiros ap\u00f3s uma gra\u00e7a alcan\u00e7ada.<\/p>\n<p>\u201cOs m\u00e9dicos disseram que eu ia ficar de cadeira de rodas. A\u00ed fizeram essa promessa para mim, a\u00ed eu, gra\u00e7as a Deus, melhorei, voltei com tr\u00eas meses a conseguir me locomover, andar. N\u00e3o normal, mas pelo menos um pouco um pouco de dificuldade, mas consegui, n\u00e9? A\u00ed, quando foi depois vim pagar a minha promessa aqui\u201d.<\/p>\n<p><em>Com Jornal da Para\u00edba<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No Cariri paraibano, na cidade de Amparo, existe uma Cruz da Menina ou Cruz da Mo\u00e7a, onde os beatos rezam para uma jovem que, segundo a oralidade, morreu de fome e sede. Entre os s\u00e9culos XIX e XX, aconteceram per\u00edodos de grandes secas no Nordeste. \u00c0 \u00e9poca, com fazendeiros j\u00e1 estabelecidos por todos os cantos da regi\u00e3o e ainda sem as devidas pol\u00edticas p\u00fablicas, os pobres precisavam circular de um lugar para outro em busca de alimento e \u00e1gua. Por vezes, eram expulsos pelas cercas e chamados de flagelados. A mocinha sem nome era um desses flagelados e viajava com a fam\u00edlia quando, ap\u00f3s dias de caminhada, desfaleceu no local onde hoje fica a pequena capelinha. O agricultor In\u00e1cio Pereira de Vasconcelos, de 75 anos, conheceu a hist\u00f3ria ainda crian\u00e7a, contada pelos seus av\u00f3s. \u201cEra um um pessoal que vinha viajando, vinha de viagem. Ningu\u00e9m A gente n\u00e3o sabe nem de onde, n\u00e9? A\u00ed vinham viajando com a fam\u00edlia. E quando chegou naquela l\u00e1 onde hoje \u00e9 a cruz, ela cansou. Essa crian\u00e7a cansou, n\u00e3o aguentou mais a viagem, eles n\u00e3o puderam mais levar ela\u201d. Seu In\u00e1cio conta que, segundo a hist\u00f3ria que ouviu dos av\u00f3s, a fam\u00edlia da menina foi em busca de amparo em alguma casa, mas a situa\u00e7\u00e3o de fome e desidrata\u00e7\u00e3o era t\u00e3o cr\u00edtica que os moradores da regi\u00e3o n\u00e3o conseguiram salvar a crian\u00e7a. Tamanha era a fome, que a menina morreu mastigando um len\u00e7o que usava para amarrar seus cabelos. \u201cQuando o povo foi chegar l\u00e1, ela tava terminando de morrer, tava mastigando o len\u00e7o, n\u00e9? Tava mastigando o len\u00e7o para chupar algum sumo\u201d. Devotos e milagres Jos\u00e9 Farias, conhecido como D\u00e9, mora pr\u00f3ximo \u00e0 capela dedicada \u00e0 milagreira e cuida do local. H\u00e1 uma pequena capelinha e ao lado uma maior onde s\u00e3o realizadas missas. Ele diz que os mais velhos contavam que a fam\u00edlia da menina ainda chegou a pedir comida em uma fazenda nas redondezas, mas o pedido foi negado. Quando a pessoa que negou a comida soube que a menina tinha morrido de fome, mandou fazer uma mortalha para o enterro. \u201cFicou agoniada, a\u00ed disse: \u2018j\u00e1 que ela morreu, eu vou comprar uma mortalha para enterrar ela\u2019. A\u00ed disse que quando quando enterraram a menina, quando foi no outro dia, a mortalha amanheceu no p\u00e9 da porta da mulher\u201d. Ainda segundo Jos\u00e9 Farias, outra moradora da cidade sonhou com a crian\u00e7a pedindo para que fosse constru\u00edda a capelinha. Assim, entre sonhos e pedidos atendidos, a menina de Amparo se tornou milagreira. O zelador afirma que recebe pessoas at\u00e9 de outros estados. \u201cAqui vem muita gente, para carro novo aqui, pagando promessa. Um dia desses, chegou um camarada do Maranh\u00e3o, ele pagou uma promessa aqui\u201d. Um dos devotos da menina de Amparo \u00e9 Erivaldo Joaquim, que atribui \u00e0 milagreira ter voltado a andar ap\u00f3s um acidente de moto. Em agradecimento, um ano depois, ele levou a escultura de uma perna at\u00e9 a capela. Esse tipo de objeto \u00e9 chamado de ex-voto e \u00e9 oferecido a santos e milagreiros ap\u00f3s uma gra\u00e7a alcan\u00e7ada. \u201cOs m\u00e9dicos disseram que eu ia ficar de cadeira de rodas. A\u00ed fizeram essa promessa para mim, a\u00ed eu, gra\u00e7as a Deus, melhorei, voltei com tr\u00eas meses a conseguir me locomover, andar. N\u00e3o normal, mas pelo menos um pouco um pouco de dificuldade, mas consegui, n\u00e9? A\u00ed, quando foi depois vim pagar a minha promessa aqui\u201d. 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