{"id":308082,"date":"2025-12-16T09:03:08","date_gmt":"2025-12-16T12:03:08","guid":{"rendered":"https:\/\/www.caririemacao.com\/1\/?p=308082"},"modified":"2025-12-16T09:06:59","modified_gmt":"2025-12-16T12:06:59","slug":"o-vazio-existencial-dos-obstinados","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.caririemacao.com\/1\/2025\/12\/16\/o-vazio-existencial-dos-obstinados\/","title":{"rendered":"O vazio existencial dos obstinados"},"content":{"rendered":"<p>Era t\u00e3o rico que s\u00f3 tinha dinheiro.<\/p>\n<p>No Cariri paraibano, em Monteiro, o tempo ensina mais do que corre. Foi ali, numa noite de lua alta sobre a caatinga, sentado \u00e0 porta da casa grande da Fazenda Jatob\u00e1, dos Santa Cruz \u2014 terra de meus antepassados \u2014 que ouvi esse caso pela primeira vez. Quem contava era Z\u00e9 Preto, caseiro antigo, homem de poucas palavras e muita mem\u00f3ria. Contava para mim e para meu pai, Jo\u00e3o Feitosa Santa Cruz, ainda na d\u00e9cada de 1980, n\u00f3s tr\u00eas deitados em redes armadas na varanda, cada qual na sua, enquanto ele enrolava o fumo com calma, cuspia de lado e deixava a hist\u00f3ria correr como quem puxa conversa para espantar o sil\u00eancio da noite. Contava como quem n\u00e3o prega, apenas lembra.<\/p>\n<p>Dizia ele que, certa manh\u00e3, o a\u00e7ude estava parado. \u00c1gua quieta, espessa de sil\u00eancio. Tr\u00eas homens pescavam. Pouca fala, nenhum aperreio. O peixe n\u00e3o vinha em fartura, mas vinha. O suficiente para o dia e para a dignidade.<\/p>\n<p>Chegou um homem de fora. Sudestino. Roupa limpa demais para aquele ch\u00e3o rachado. Olhar inquieto, desses que medem tudo como se a vida fosse planilha.<\/p>\n<p>\u2014 Por que voc\u00eas est\u00e3o pescando a\u00ed? \u2014 perguntou.<\/p>\n<p>O matuto respondeu simples, sem tirar os olhos da \u00e1gua:<br \/>\n\u2014 Pra comer. Pra levar pra casa.<\/p>\n<p>O homem achou pouco. Pensou alto:<br \/>\n\u2014 Voc\u00ea podia botar esses homens pra trabalharem pra voc\u00ea. Comprar mais barcos. Pescar mais.<\/p>\n<p>O matuto esperou um tempo, como quem escuta o vento antes da chuva:<br \/>\n\u2014 Pra qu\u00ea?<\/p>\n<p>\u2014 Pra vender mais.<\/p>\n<p>\u2014 Pra qu\u00ea?<\/p>\n<p>\u2014 Pra ganhar dinheiro.<\/p>\n<p>\u2014 Pra qu\u00ea?<\/p>\n<p>O sudestino respirou fundo:<\/p>\n<p>\u2014 Pra um dia voc\u00ea n\u00e3o precisar mais trabalhar. Ficar tranquilo. Fazer s\u00f3 o que gosta. Pescar com seus amigos.<\/p>\n<p>O matuto sorriu curto, quase piedoso:<\/p>\n<p>\u2014 Oxente\u2026 \u00e9 isso que eu j\u00e1 fa\u00e7o.<\/p>\n<p>E voltou ao anzol.<\/p>\n<p>Z\u00e9 Preto dizia que o homem foi embora calado. A conta estava certa. O sentido, n\u00e3o. E talvez por isso a hist\u00f3ria tenha ficado.<\/p>\n<p>Pensei nisso muitas vezes depois. Porque o obstinado moderno raramente se reconhece nesse espelho. Ningu\u00e9m o chama de fracassado. Pelo contr\u00e1rio. Seu nome costuma ser sin\u00f4nimo de sucesso, disciplina e vit\u00f3ria. Constr\u00f3i biografias impec\u00e1veis, dessas que impressionam em discursos e causam sil\u00eancio em reuni\u00f5es. Trabalha como quem cumpre um chamado \u2014 mas esquece de perguntar quem o chamou.<\/p>\n<p>A obstina\u00e7\u00e3o come\u00e7a como virtude. Acordar cedo, insistir, n\u00e3o desistir. Com o tempo, deixa de ser m\u00e9todo e vira altar. Tudo passa a girar em torno do desempenho. Deus fica para depois, como se a eternidade pudesse aguardar o fechamento do pr\u00f3ximo neg\u00f3cio.<\/p>\n<p>Era t\u00e3o obstinado que passou a criar mentiras \u2014 e acreditar fielmente nelas. Mentiras para justificar aus\u00eancias, para suavizar durezas, para explicar por que n\u00e3o voltava cedo, por que n\u00e3o ouvia mais, por que n\u00e3o sentia culpa. Repetidas tantas vezes que j\u00e1 n\u00e3o distinguia estrat\u00e9gia de verdade. O autoengano virou abrigo.<\/p>\n<p>A riqueza veio. Veio farta, vis\u00edvel, incontest\u00e1vel. Mas o cora\u00e7\u00e3o continuava inquieto. Descobriu, tarde demais, que dinheiro compra quase tudo, exceto o sil\u00eancio interior. Quando cessava o barulho das metas, surgia um inc\u00f4modo profundo \u2014 um vazio que n\u00e3o aparecia no balan\u00e7o.<\/p>\n<p>As pessoas foram virando meios. Rela\u00e7\u00f5es, compromissos adi\u00e1veis. Afetos, custos operacionais. Ganhou influ\u00eancia, perdeu intimidade. Estava sempre cercado, raramente acompanhado. A solid\u00e3o dos obstinados n\u00e3o \u00e9 falta de gente; \u00e9 falta de encontro.<\/p>\n<p>Nunca aprendeu a parar. Ignorou o descanso como princ\u00edpio, acreditando que pausar era sinal de fraqueza. Esqueceu que at\u00e9 Deus descansou \u2014 n\u00e3o por cansa\u00e7o, mas para ensinar limite. O s\u00e1bado simb\u00f3lico da vida lhe parecia desperd\u00edcio, quando era lembran\u00e7a de humanidade.<\/p>\n<p>Mediu o sucesso por n\u00fameros, n\u00e3o por frutos. Avaliou a vida por resultados, n\u00e3o por virtudes. Confundiu prosperidade com b\u00ean\u00e7\u00e3o, como se toda abund\u00e2ncia fosse sinal de aprova\u00e7\u00e3o divina. Esqueceu que a B\u00edblia nunca prometeu cofres cheios, mas cora\u00e7\u00f5es inteiros.<\/p>\n<p>Evitava o sil\u00eancio. Sabia, no fundo, que \u00e9 nele que Deus costuma falar. Preferia o ru\u00eddo constante das ocupa\u00e7\u00f5es, pois o recolhimento poderia revelar a dist\u00e2ncia entre tudo o que conquistou e tudo o que negligenciou.<\/p>\n<p>Ajuntou tesouros onde o tempo alcan\u00e7a. Patrim\u00f4nio, propriedades, poder. Mas esqueceu de construir o que n\u00e3o se perde: mem\u00f3rias, v\u00ednculos, f\u00e9, sentido. Quando percebeu, havia garantias para o futuro, mas nenhuma paz para o presente.<\/p>\n<p>O matuto do a\u00e7ude da Fazenda Jatob\u00e1, em Monteiro, nunca fez conta grande. N\u00e3o explorava ningu\u00e9m. Dividia o pouco. Pescava com os amigos. Voltava para casa inteiro. J\u00e1 vivia aquilo que o outro planejava viver um dia \u2014 quando tudo estivesse pronto.<\/p>\n<p>No fim, o paradoxo se imp\u00f5e sem barulho: h\u00e1 quem ganhe o mundo inteiro e perca a si mesmo. Era rico, sim. T\u00e3o rico\u2026 que s\u00f3 tinha dinheiro.<\/p>\n<p>In\u00e1cio Feitosa\/advogado, escritor e pescador.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Era t\u00e3o rico que s\u00f3 tinha dinheiro. No Cariri paraibano, em Monteiro, o tempo ensina mais do que corre. 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