{"id":320716,"date":"2026-08-28T07:15:48","date_gmt":"2026-08-28T10:15:48","guid":{"rendered":"https:\/\/www.caririemacao.com\/1\/?p=320716"},"modified":"2026-08-28T11:34:10","modified_gmt":"2026-08-28T14:34:10","slug":"geracao-beta-chega-as-escolas-em-2030-os-professores-estao-preparados-por-inacio-feitosa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.caririemacao.com\/1\/2026\/08\/28\/geracao-beta-chega-as-escolas-em-2030-os-professores-estao-preparados-por-inacio-feitosa\/","title":{"rendered":"Gera\u00e7\u00e3o Beta chega \u00e0s escolas em 2030: os professores est\u00e3o preparados? \u2013 Por In\u00e1cio Feitosa"},"content":{"rendered":"<p>Vejo filmes todo fim de semana, e h\u00e1 um enredo que me persegue desde menino: a bomba cai, o mundo acaba, e sobreviventes resistem contra as m\u00e1quinas. Deus permita que esse n\u00e3o seja o nosso fim. Mas ele nunca me assustou pelo motivo certo. O que me prende \u00e9 a pergunta que sobra: o que permite ao ser humano resistir?<\/p>\n<p>O cinema responde sempre a mesma coisa, e nunca \u00e9 a tecnologia. \u00c9 improvisar, convencer algu\u00e9m, recome\u00e7ar depois da perda. Aprendi isso sem fic\u00e7\u00e3o, em Monteiro, no Cariri paraibano, vendo meu av\u00f4 construir neg\u00f3cios onde ningu\u00e9m garantia nada.<\/p>\n<p>Voltei a pensar nisso estudando a Gera\u00e7\u00e3o Beta, os nascidos entre 2025 e 2039, conforme a defini\u00e7\u00e3o do dem\u00f3grafo Mark McCrindle. A Z cresceu com a internet, a Alfa com tablets, e a Beta cresce num mundo em que a intelig\u00eancia artificial j\u00e1 est\u00e1 dentro da escola, do hospital e da conversa. Recus\u00e1-la lhes parecer\u00e1 t\u00e3o estranho quanto recusar eletricidade.<\/p>\n<p>S\u00f3 que crescer dentro de uma ferramenta n\u00e3o \u00e9 o mesmo que saber us\u00e1-la com ju\u00edzo. A Alfa cresceu com tablets e nem por isso aprendeu sozinha a separar informa\u00e7\u00e3o de propaganda. Algu\u00e9m precisa ensinar. E esse algu\u00e9m tem nome, sala e di\u00e1rio de classe.<\/p>\n<p>Diz-se que essa gera\u00e7\u00e3o n\u00e3o dar\u00e1 valor ao diploma. \u00c9 meia verdade, e a metade que falta importa. Nos Estados Unidos, a fatia de vagas que exige ensino superior caiu de 51% para cerca de 44% em sete anos. Mas quando pesquisadores de Harvard foram conferir quem de fato foi contratado, a mudan\u00e7a alcan\u00e7ou menos de um em cada setecentos: quase metade das empresas trocou apenas o texto do an\u00fancio. O diploma perdeu a exclusividade, n\u00e3o a relev\u00e2ncia.<\/p>\n<p>Diz-se tamb\u00e9m que a Beta n\u00e3o ter\u00e1 a nossa obsess\u00e3o com estabilidade, porque viver\u00e1 mais. Cuidado: nascer sem a promessa de estabilidade n\u00e3o \u00e9 privil\u00e9gio, \u00e9 perda. E quanto a viver mais, vale a r\u00e9gua do IBGE: quem nasce hoje tem expectativa de 76,8 anos, e 76,4 no Nordeste. N\u00e3o os 90 ou 100 que se repetem por a\u00ed.<\/p>\n<p>Mas o dado que mais me inquietou \u00e9 o mais simples. Falar de Gera\u00e7\u00e3o Beta soa conversa de futuro distante, e n\u00e3o \u00e9. Os primeiros Betas j\u00e1 est\u00e3o na creche. Em 2030 estar\u00e3o na pr\u00e9-escola obrigat\u00f3ria e, no ano seguinte, no ensino fundamental, dentro da vig\u00eancia dos planos de educa\u00e7\u00e3o que estamos escrevendo agora. O professor que vai alfabetiz\u00e1-los j\u00e1 est\u00e1 formado e j\u00e1 est\u00e1 em sala.<\/p>\n<p>Cheguei a supor que essa gera\u00e7\u00e3o nasceria pronta, com as habilidades de vender, entregar e se reinventar embutidas. N\u00e3o nasce.<\/p>\n<p>Meus alunos da educa\u00e7\u00e3o de jovens e adultos aprenderam apanhando da vida, e n\u00e3o desejo esse professor a ningu\u00e9m. Isso devolve a responsabilidade a quem sempre a teve: a fam\u00edlia e a escola. E cuidar da Beta come\u00e7a num lugar improv\u00e1vel, educar os adultos de hoje, que s\u00e3o os pais dela.<\/p>\n<p>A resist\u00eancia dos filmes, no fim das contas, n\u00e3o \u00e9 contra as m\u00e1quinas. \u00c9 contra o esquecimento. Quanto mais a m\u00e1quina avan\u00e7a, mais caro fica o que s\u00f3 o humano sabe fazer. Fica ent\u00e3o a provoca\u00e7\u00e3o a quem est\u00e1 na sala de aula.<\/p>\n<p>Quando o Beta sentar na sua cadeira, ele ter\u00e1 no bolso uma m\u00e1quina que responde tudo, mais r\u00e1pido e sem impaci\u00eancia. Se a aula continuar sendo o lugar onde se transmite resposta, ele descobrir\u00e1 cedo que n\u00e3o precisa de n\u00f3s. Mas n\u00e3o h\u00e1 algoritmo que ensine a improvisar quando o plano falha, a convencer algu\u00e9m olhando nos olhos, a levantar depois da perda.<\/p>\n<p>Professor, faltam quatro anos: o senhor est\u00e1 preparando a sua aula para competir com a m\u00e1quina ou para ensinar o que ela nunca far\u00e1?<\/p>\n<p>Que Deus nos d\u00ea o discernimento de fortalecer, desde a escola, a \u00fanica tecnologia que nunca ficou obsoleta: o ser humano.<\/p>\n<p>In\u00e1cio Feitosa<\/p>\n<p>Advogado, mestre em Educa\u00e7\u00e3o pela UFPE e escritor (projetos@igeduc.org.br)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Vejo filmes todo fim de semana, e h\u00e1 um enredo que me persegue desde menino: a bomba cai, o mundo acaba, e sobreviventes resistem contra as m\u00e1quinas. Deus permita que esse n\u00e3o seja o nosso fim. Mas ele nunca me assustou pelo motivo certo. O que me prende \u00e9 a pergunta que sobra: o que permite ao ser humano resistir? O cinema responde sempre a mesma coisa, e nunca \u00e9 a tecnologia. \u00c9 improvisar, convencer algu\u00e9m, recome\u00e7ar depois da perda. Aprendi isso sem fic\u00e7\u00e3o, em Monteiro, no Cariri paraibano, vendo meu av\u00f4 construir neg\u00f3cios onde ningu\u00e9m garantia nada. Voltei a pensar nisso estudando a Gera\u00e7\u00e3o Beta, os nascidos entre 2025 e 2039, conforme a defini\u00e7\u00e3o do dem\u00f3grafo Mark McCrindle. A Z cresceu com a internet, a Alfa com tablets, e a Beta cresce num mundo em que a intelig\u00eancia artificial j\u00e1 est\u00e1 dentro da escola, do hospital e da conversa. Recus\u00e1-la lhes parecer\u00e1 t\u00e3o estranho quanto recusar eletricidade. S\u00f3 que crescer dentro de uma ferramenta n\u00e3o \u00e9 o mesmo que saber us\u00e1-la com ju\u00edzo. A Alfa cresceu com tablets e nem por isso aprendeu sozinha a separar informa\u00e7\u00e3o de propaganda. Algu\u00e9m precisa ensinar. E esse algu\u00e9m tem nome, sala e di\u00e1rio de classe. Diz-se que essa gera\u00e7\u00e3o n\u00e3o dar\u00e1 valor ao diploma. \u00c9 meia verdade, e a metade que falta importa. Nos Estados Unidos, a fatia de vagas que exige ensino superior caiu de 51% para cerca de 44% em sete anos. Mas quando pesquisadores de Harvard foram conferir quem de fato foi contratado, a mudan\u00e7a alcan\u00e7ou menos de um em cada setecentos: quase metade das empresas trocou apenas o texto do an\u00fancio. O diploma perdeu a exclusividade, n\u00e3o a relev\u00e2ncia. Diz-se tamb\u00e9m que a Beta n\u00e3o ter\u00e1 a nossa obsess\u00e3o com estabilidade, porque viver\u00e1 mais. Cuidado: nascer sem a promessa de estabilidade n\u00e3o \u00e9 privil\u00e9gio, \u00e9 perda. E quanto a viver mais, vale a r\u00e9gua do IBGE: quem nasce hoje tem expectativa de 76,8 anos, e 76,4 no Nordeste. N\u00e3o os 90 ou 100 que se repetem por a\u00ed. Mas o dado que mais me inquietou \u00e9 o mais simples. Falar de Gera\u00e7\u00e3o Beta soa conversa de futuro distante, e n\u00e3o \u00e9. Os primeiros Betas j\u00e1 est\u00e3o na creche. Em 2030 estar\u00e3o na pr\u00e9-escola obrigat\u00f3ria e, no ano seguinte, no ensino fundamental, dentro da vig\u00eancia dos planos de educa\u00e7\u00e3o que estamos escrevendo agora. O professor que vai alfabetiz\u00e1-los j\u00e1 est\u00e1 formado e j\u00e1 est\u00e1 em sala. Cheguei a supor que essa gera\u00e7\u00e3o nasceria pronta, com as habilidades de vender, entregar e se reinventar embutidas. N\u00e3o nasce. Meus alunos da educa\u00e7\u00e3o de jovens e adultos aprenderam apanhando da vida, e n\u00e3o desejo esse professor a ningu\u00e9m. Isso devolve a responsabilidade a quem sempre a teve: a fam\u00edlia e a escola. E cuidar da Beta come\u00e7a num lugar improv\u00e1vel, educar os adultos de hoje, que s\u00e3o os pais dela. A resist\u00eancia dos filmes, no fim das contas, n\u00e3o \u00e9 contra as m\u00e1quinas. \u00c9 contra o esquecimento. Quanto mais a m\u00e1quina avan\u00e7a, mais caro fica o que s\u00f3 o humano sabe fazer. Fica ent\u00e3o a provoca\u00e7\u00e3o a quem est\u00e1 na sala de aula. Quando o Beta sentar na sua cadeira, ele ter\u00e1 no bolso uma m\u00e1quina que responde tudo, mais r\u00e1pido e sem impaci\u00eancia. Se a aula continuar sendo o lugar onde se transmite resposta, ele descobrir\u00e1 cedo que n\u00e3o precisa de n\u00f3s. Mas n\u00e3o h\u00e1 algoritmo que ensine a improvisar quando o plano falha, a convencer algu\u00e9m olhando nos olhos, a levantar depois da perda. Professor, faltam quatro anos: o senhor est\u00e1 preparando a sua aula para competir com a m\u00e1quina ou para ensinar o que ela nunca far\u00e1? Que Deus nos d\u00ea o discernimento de fortalecer, desde a escola, a \u00fanica tecnologia que nunca ficou obsoleta: o ser humano. In\u00e1cio Feitosa Advogado, mestre em Educa\u00e7\u00e3o pela UFPE e escritor (projetos@igeduc.org.br)<\/p>\n","protected":false},"author":6,"featured_media":320720,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"sfsi_plus_gutenberg_text_before_share":"","sfsi_plus_gutenberg_show_text_before_share":"","sfsi_plus_gutenberg_icon_type":"","sfsi_plus_gutenberg_icon_alignemt":"","sfsi_plus_gutenburg_max_per_row":"","footnotes":""},"categories":[2],"tags":[],"class_list":["post-320716","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-geral"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.caririemacao.com\/1\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/320716","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.caririemacao.com\/1\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.caririemacao.com\/1\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.caririemacao.com\/1\/wp-json\/wp\/v2\/users\/6"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.caririemacao.com\/1\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=320716"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.caririemacao.com\/1\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/320716\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":320721,"href":"https:\/\/www.caririemacao.com\/1\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/320716\/revisions\/320721"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.caririemacao.com\/1\/wp-json\/wp\/v2\/media\/320720"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.caririemacao.com\/1\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=320716"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.caririemacao.com\/1\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=320716"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.caririemacao.com\/1\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=320716"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}