{"id":323675,"date":"2026-09-16T09:05:39","date_gmt":"2026-09-16T12:05:39","guid":{"rendered":"https:\/\/www.caririemacao.com\/1\/?p=323675"},"modified":"2026-09-16T09:05:39","modified_gmt":"2026-09-16T12:05:39","slug":"a-riqueza-que-vem-do-sertao-mais-um-relato-impressionante-de-inacio-feitosa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.caririemacao.com\/1\/2026\/09\/16\/a-riqueza-que-vem-do-sertao-mais-um-relato-impressionante-de-inacio-feitosa\/","title":{"rendered":"A riqueza que vem do sert\u00e3o; mais um relato impressionante de In\u00e1cio Feitosa"},"content":{"rendered":"<p>Uma picape fora de linha, um moedor de cana na ca\u00e7amba, um megafone anunciando de rua em rua e um menino que m\u00f3i, serve e entrega na porta enquanto o pai recebe. Os dois voltaram quebrados de S\u00e3o Paulo e gastaram o que restou das economias no carro velho, na m\u00e1quina e na cana.<\/p>\n<p>Quem passa v\u00ea um caldo de cana ambulante. Eu vejo um neg\u00f3cio completo: marketing, produ\u00e7\u00e3o, log\u00edstica, venda e cobran\u00e7a no mesmo ato, sem intermedi\u00e1rio e sem aplicativo. Numa capital, seriam quatro departamentos e uma ag\u00eancia contratada. Ali s\u00e3o duas pessoas e uma ca\u00e7amba.<\/p>\n<p>N\u00e3o sei se vai dar certo. O neg\u00f3cio tem poucos meses, pode crescer, pode fechar, pode fechar e recome\u00e7ar. Mas a semente germinou, e a semente \u00e9 a parte dif\u00edcil.<\/p>\n<h3>O que est\u00e1 em jogo<\/h3>\n<p>Quando um neg\u00f3cio quebra numa capital, o dono volta a ser empregado. D\u00f3i, mas d\u00f3i nele. No semi\u00e1rido n\u00e3o h\u00e1 esse colch\u00e3o. Muitos jovens sequer conseguem a primeira carteira assinada, n\u00e3o t\u00eam est\u00e1gio e n\u00e3o t\u00eam quem lhes diga que a universidade p\u00fablica \u00e9 poss\u00edvel. Ali, quando o neg\u00f3cio quebra, quebra a casa, o sustento dos pais e o estudo dos filhos. A persist\u00eancia que o Sudeste l\u00ea como hero\u00edsmo \u00e9, na origem, aritm\u00e9tica: n\u00e3o desistir \u00e9 a \u00fanica conta que fecha.<\/p>\n<h3>Seis que j\u00e1 deram fruto<\/h3>\n<p>O veterin\u00e1rio casou-se cedo, sem condi\u00e7\u00f5es de pagar o aluguel de uma casinha, e saiu de s\u00edtio em s\u00edtio oferecendo o servi\u00e7o sem cobrar. Desconfiaram dele, porque o que \u00e9 de gra\u00e7a n\u00e3o presta. Veio o primeiro cliente, que chamou o segundo. Foi guardando e comprando casinhas na avenida principal. Duas d\u00e9cadas depois, tem mais de trinta im\u00f3veis, um shopping center e continua atendendo animal.<\/p>\n<p>O casal da farm\u00e1cia se conheceu como empregado, aprendeu o neg\u00f3cio por dentro e abriu o pr\u00f3prio. Descobriu que o maior comprador da regi\u00e3o n\u00e3o era o fregu\u00eas, era a prefeitura. Hoje atua em cinco munic\u00edpios, abastece vinte farm\u00e1cias, tem os filhos nas melhores universidades e segue atr\u00e1s do balc\u00e3o.<\/p>\n<p>O menino do picol\u00e9 aprendeu as f\u00f3rmulas na adolesc\u00eancia e quebrou mais de uma vez. Na pandemia percebeu que quem passou anos colocando massa em f\u00f4rma e desenformando em escala sabe fazer pr\u00e9-moldado. Trocou a mat\u00e9ria-prima e manteve o m\u00e9todo. Hoje \u00e9 multimilion\u00e1rio, entrou na caprinocultura e prepara a segunda opera\u00e7\u00e3o em Petrolina.<\/p>\n<div class=\"post-ad post-ad--paragraph-8\" data-paragraph=\"8\">\n<div class=\"post-ad__divider post-ad__divider--top\">\n<p>O vaqueiro mal terminou o ensino m\u00e9dio e passou a vida cuidando de boi dos outros. Viu na vaquejada uma economia, e n\u00e3o um passatempo. Ergueu o primeiro parque da regi\u00e3o, depois um dos melhores, passou a ter os pr\u00f3prios animais de corrida e convenceu munic\u00edpios vizinhos a montar um circuito, criando calend\u00e1rio onde s\u00f3 havia evento avulso. Hoje tem fazendas, gado e sociedades.<\/p>\n<p>Outro abriu um restaurante que fracassou e um segundo que apenas empatou as contas. Enquanto isso, constru\u00eda casas para alugar e aprendia a vender ao poder p\u00fablico. Vive de tr\u00eas fontes independentes. Quem quebra uma vez nunca mais apoia o peso do corpo numa perna s\u00f3.<\/p>\n<p>E h\u00e1 a mulher que come\u00e7ou repassando a terceiros um trator que ela pr\u00f3pria havia alugado. N\u00e3o tinha ativo: tinha a percep\u00e7\u00e3o de que havia demanda n\u00e3o atendida. Veio o primeiro caminh\u00e3o, o segundo, o terceiro, depois m\u00e1quinas pr\u00f3prias. Hoje comanda uma das maiores locadoras de equipamentos do sert\u00e3o pernambucano, constru\u00edda muito antes do mandato de prefeita que hoje exerce.<\/p>\n<h3>O que eles t\u00eam em comum<\/h3>\n<p>Ningu\u00e9m come\u00e7ou do zero. Todos dominavam o of\u00edcio antes de serem donos. O veterin\u00e1rio sabia curar, o menino sabia a f\u00f4rma, o vaqueiro sabia o boi, ela sabia o que custava alugar uma m\u00e1quina porque pagava por isso todo m\u00eas. Capital n\u00e3o tinham. Compet\u00eancia tinham, e ningu\u00e9m chamava aquilo de capital, nem eles.<\/p>\n<p>O cr\u00e9dito n\u00e3o vem do banco, vem do fiado. Sem bir\u00f4 e sem garantia real, o que garante \u00e9 o nome na pra\u00e7a. Reputa\u00e7\u00e3o ali n\u00e3o \u00e9 marketing: \u00e9 acesso a dinheiro. Por isso o veterin\u00e1rio trabalhou de gra\u00e7a no in\u00edcio. N\u00e3o estava perdendo receita, estava fazendo dep\u00f3sito.<\/p>\n<p>E todos enxergaram a lacuna porque estavam dentro dela. Um viu que faltava confian\u00e7a, n\u00e3o pre\u00e7o. Outro viu quem comprava em volume. Outro viu que f\u00f4rma \u00e9 f\u00f4rma. Outro viu que faltava calend\u00e1rio. \u00c9 a pesquisa de mercado mais barata que existe e n\u00e3o exige diploma: exige prestar aten\u00e7\u00e3o enquanto se paga a conta.<\/p>\n<h3>Ningu\u00e9m foi embora<\/h3>\n<p>Todos reinvestiram onde nasceram. Compraram terra e tijolo na rua em que cresceram, contrataram vizinhos e ergueram estrutura que a cidade n\u00e3o tinha. Isso inverte a hist\u00f3ria que o Brasil conta sobre o Nordeste h\u00e1 um s\u00e9culo, aquela em que o final feliz do sertanejo \u00e9 a passagem s\u00f3 de ida. O \u00eaxito n\u00e3o serviu de passaporte de sa\u00edda, serviu de decis\u00e3o de ficar. \u00c9 disso que falo quando falo em riqueza que vem do sert\u00e3o: a que nasce ali e permanece.<\/p>\n<h3>O que n\u00e3o se pode esconder<\/h3>\n<p>Seis hist\u00f3rias de \u00eaxito n\u00e3o provam que o sert\u00e3o d\u00e1 certo. Provam que \u00e9 poss\u00edvel. Milhares rodaram os mesmos povoados, compraram no mesmo fiado, tentaram tr\u00eas vezes e n\u00e3o levantaram, e a diferen\u00e7a nem sempre foi m\u00e9rito. Reconhecer isso muda a pergunta. Ela deixa de ser por que eles conseguiram e passa a ser por que \u00e9 preciso tanto talento, tanta queda e tanta dor para conseguir no semi\u00e1rido o que, em outros lugares deste pa\u00eds, se consegue com um empurr\u00e3o inicial, cr\u00e9dito acess\u00edvel e uma escola que funcione.<\/p>\n<p>S\u00e3o hist\u00f3rias como essas que re\u00fano em meu livro A riqueza que vem do sert\u00e3o, hoje em prepara\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Enquanto ningu\u00e9m responde, seguem eles resolvendo sozinhos. Numa ca\u00e7amba de picape, num balc\u00e3o de farm\u00e1cia, num parque de vaquejada. Fazendo, na aridez, o que muita gente n\u00e3o faz com tudo \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>Por In\u00e1cio Feitosa<\/strong><\/p>\n<p>In\u00e1cio Feitosa \u00e9 empres\u00e1rio, consultor e educador. CEO da TED \u2013 Neg\u00f3cios e Empreendimentos, presidente do Instituto IDR e fundador do Instituto IGEDUC.<\/p>\n<p>Foi diretor do SENAI Pernambuco e secret\u00e1rio de Educa\u00e7\u00e3o Profissional e Juventude do Recife. Advogado e mestre em Educa\u00e7\u00e3o pela UFPE, \u00e9 autor de \u201cO Poder das Mulheres Empreendedoras\u201d e prepara o livro \u201cA riqueza que vem do sert\u00e3o\u201d.<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Uma picape fora de linha, um moedor de cana na ca\u00e7amba, um megafone anunciando de rua em rua e um menino que m\u00f3i, serve e entrega na porta enquanto o pai recebe. Os dois voltaram quebrados de S\u00e3o Paulo e gastaram o que restou das economias no carro velho, na m\u00e1quina e na cana. Quem passa v\u00ea um caldo de cana ambulante. Eu vejo um neg\u00f3cio completo: marketing, produ\u00e7\u00e3o, log\u00edstica, venda e cobran\u00e7a no mesmo ato, sem intermedi\u00e1rio e sem aplicativo. Numa capital, seriam quatro departamentos e uma ag\u00eancia contratada. Ali s\u00e3o duas pessoas e uma ca\u00e7amba. N\u00e3o sei se vai dar certo. O neg\u00f3cio tem poucos meses, pode crescer, pode fechar, pode fechar e recome\u00e7ar. Mas a semente germinou, e a semente \u00e9 a parte dif\u00edcil. O que est\u00e1 em jogo Quando um neg\u00f3cio quebra numa capital, o dono volta a ser empregado. D\u00f3i, mas d\u00f3i nele. No semi\u00e1rido n\u00e3o h\u00e1 esse colch\u00e3o. Muitos jovens sequer conseguem a primeira carteira assinada, n\u00e3o t\u00eam est\u00e1gio e n\u00e3o t\u00eam quem lhes diga que a universidade p\u00fablica \u00e9 poss\u00edvel. Ali, quando o neg\u00f3cio quebra, quebra a casa, o sustento dos pais e o estudo dos filhos. A persist\u00eancia que o Sudeste l\u00ea como hero\u00edsmo \u00e9, na origem, aritm\u00e9tica: n\u00e3o desistir \u00e9 a \u00fanica conta que fecha. Seis que j\u00e1 deram fruto O veterin\u00e1rio casou-se cedo, sem condi\u00e7\u00f5es de pagar o aluguel de uma casinha, e saiu de s\u00edtio em s\u00edtio oferecendo o servi\u00e7o sem cobrar. Desconfiaram dele, porque o que \u00e9 de gra\u00e7a n\u00e3o presta. Veio o primeiro cliente, que chamou o segundo. Foi guardando e comprando casinhas na avenida principal. Duas d\u00e9cadas depois, tem mais de trinta im\u00f3veis, um shopping center e continua atendendo animal. O casal da farm\u00e1cia se conheceu como empregado, aprendeu o neg\u00f3cio por dentro e abriu o pr\u00f3prio. Descobriu que o maior comprador da regi\u00e3o n\u00e3o era o fregu\u00eas, era a prefeitura. Hoje atua em cinco munic\u00edpios, abastece vinte farm\u00e1cias, tem os filhos nas melhores universidades e segue atr\u00e1s do balc\u00e3o. O menino do picol\u00e9 aprendeu as f\u00f3rmulas na adolesc\u00eancia e quebrou mais de uma vez. Na pandemia percebeu que quem passou anos colocando massa em f\u00f4rma e desenformando em escala sabe fazer pr\u00e9-moldado. Trocou a mat\u00e9ria-prima e manteve o m\u00e9todo. Hoje \u00e9 multimilion\u00e1rio, entrou na caprinocultura e prepara a segunda opera\u00e7\u00e3o em Petrolina. O vaqueiro mal terminou o ensino m\u00e9dio e passou a vida cuidando de boi dos outros. Viu na vaquejada uma economia, e n\u00e3o um passatempo. Ergueu o primeiro parque da regi\u00e3o, depois um dos melhores, passou a ter os pr\u00f3prios animais de corrida e convenceu munic\u00edpios vizinhos a montar um circuito, criando calend\u00e1rio onde s\u00f3 havia evento avulso. Hoje tem fazendas, gado e sociedades. Outro abriu um restaurante que fracassou e um segundo que apenas empatou as contas. Enquanto isso, constru\u00eda casas para alugar e aprendia a vender ao poder p\u00fablico. Vive de tr\u00eas fontes independentes. Quem quebra uma vez nunca mais apoia o peso do corpo numa perna s\u00f3. E h\u00e1 a mulher que come\u00e7ou repassando a terceiros um trator que ela pr\u00f3pria havia alugado. N\u00e3o tinha ativo: tinha a percep\u00e7\u00e3o de que havia demanda n\u00e3o atendida. Veio o primeiro caminh\u00e3o, o segundo, o terceiro, depois m\u00e1quinas pr\u00f3prias. Hoje comanda uma das maiores locadoras de equipamentos do sert\u00e3o pernambucano, constru\u00edda muito antes do mandato de prefeita que hoje exerce. O que eles t\u00eam em comum Ningu\u00e9m come\u00e7ou do zero. Todos dominavam o of\u00edcio antes de serem donos. O veterin\u00e1rio sabia curar, o menino sabia a f\u00f4rma, o vaqueiro sabia o boi, ela sabia o que custava alugar uma m\u00e1quina porque pagava por isso todo m\u00eas. Capital n\u00e3o tinham. Compet\u00eancia tinham, e ningu\u00e9m chamava aquilo de capital, nem eles. O cr\u00e9dito n\u00e3o vem do banco, vem do fiado. Sem bir\u00f4 e sem garantia real, o que garante \u00e9 o nome na pra\u00e7a. Reputa\u00e7\u00e3o ali n\u00e3o \u00e9 marketing: \u00e9 acesso a dinheiro. Por isso o veterin\u00e1rio trabalhou de gra\u00e7a no in\u00edcio. N\u00e3o estava perdendo receita, estava fazendo dep\u00f3sito. E todos enxergaram a lacuna porque estavam dentro dela. Um viu que faltava confian\u00e7a, n\u00e3o pre\u00e7o. Outro viu quem comprava em volume. Outro viu que f\u00f4rma \u00e9 f\u00f4rma. Outro viu que faltava calend\u00e1rio. \u00c9 a pesquisa de mercado mais barata que existe e n\u00e3o exige diploma: exige prestar aten\u00e7\u00e3o enquanto se paga a conta. Ningu\u00e9m foi embora Todos reinvestiram onde nasceram. Compraram terra e tijolo na rua em que cresceram, contrataram vizinhos e ergueram estrutura que a cidade n\u00e3o tinha. Isso inverte a hist\u00f3ria que o Brasil conta sobre o Nordeste h\u00e1 um s\u00e9culo, aquela em que o final feliz do sertanejo \u00e9 a passagem s\u00f3 de ida. O \u00eaxito n\u00e3o serviu de passaporte de sa\u00edda, serviu de decis\u00e3o de ficar. \u00c9 disso que falo quando falo em riqueza que vem do sert\u00e3o: a que nasce ali e permanece. O que n\u00e3o se pode esconder Seis hist\u00f3rias de \u00eaxito n\u00e3o provam que o sert\u00e3o d\u00e1 certo. Provam que \u00e9 poss\u00edvel. Milhares rodaram os mesmos povoados, compraram no mesmo fiado, tentaram tr\u00eas vezes e n\u00e3o levantaram, e a diferen\u00e7a nem sempre foi m\u00e9rito. Reconhecer isso muda a pergunta. Ela deixa de ser por que eles conseguiram e passa a ser por que \u00e9 preciso tanto talento, tanta queda e tanta dor para conseguir no semi\u00e1rido o que, em outros lugares deste pa\u00eds, se consegue com um empurr\u00e3o inicial, cr\u00e9dito acess\u00edvel e uma escola que funcione. S\u00e3o hist\u00f3rias como essas que re\u00fano em meu livro A riqueza que vem do sert\u00e3o, hoje em prepara\u00e7\u00e3o. Enquanto ningu\u00e9m responde, seguem eles resolvendo sozinhos. Numa ca\u00e7amba de picape, num balc\u00e3o de farm\u00e1cia, num parque de vaquejada. Fazendo, na aridez, o que muita gente n\u00e3o faz com tudo \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o. Por In\u00e1cio Feitosa In\u00e1cio Feitosa \u00e9 empres\u00e1rio, consultor e educador. CEO da TED \u2013 Neg\u00f3cios e Empreendimentos, presidente do Instituto IDR e fundador do Instituto IGEDUC. Foi diretor do SENAI Pernambuco e secret\u00e1rio de Educa\u00e7\u00e3o Profissional e Juventude do Recife. 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