{"id":35173,"date":"2017-12-17T00:52:24","date_gmt":"2017-12-17T03:52:24","guid":{"rendered":"http:\/\/caririemacao.com\/1\/?p=35173"},"modified":"2017-12-17T00:52:24","modified_gmt":"2017-12-17T03:52:24","slug":"geracao-pode-viver-menos-que-os-pais-porque-nao-sabe-comer","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.caririemacao.com\/1\/2017\/12\/17\/geracao-pode-viver-menos-que-os-pais-porque-nao-sabe-comer\/","title":{"rendered":"Gera\u00e7\u00e3o pode viver menos que os pais porque n\u00e3o sabe comer"},"content":{"rendered":"<div class=\"default\">\n<p>&#8220;Olha s\u00f3, a arvorezinha! \u00c9 o br\u00f3colis! Cheira, sente o gosto!&#8221;<\/p>\n<p>Sentadas em roda a pedido da nutricionista Mariana Ravagnolli, as oito crian\u00e7as de menos de dois anos pegam o br\u00f3colis, amassam, p\u00f5em na boca. A &#8220;arvorezinha&#8221;, assim como outras verduras e legumes, n\u00e3o era parte da rotina alimentar de muitas delas.<\/p>\n<p>As crian\u00e7as est\u00e3o no Centro de Recupera\u00e7\u00e3o e Educa\u00e7\u00e3o Nutricional (Cren) da Vila Jacu\u00ed, extremo leste de S\u00e3o Paulo, para tratamento de desnutri\u00e7\u00e3o &#8211; elas simplesmente n\u00e3o vinham ingerindo nutrientes o bastante para se desenvolverem at\u00e9 de chegarem ali, seja por comerem pouco ou por comerem mal.<\/p>\n<p>Karina, de um ano e oito meses, frequenta o local diariamente h\u00e1 um ano. Era um dos casos mais agudos. &#8220;Quando chegou aqui, ela mal se mexia no beb\u00ea conforto&#8221;, conta Ravagnolli \u00e0 BBC Brasil.<\/p>\n<p>Hoje, com apenas seis quilos, a menina ainda \u00e9 pequenina para sua idade &#8211; nessa mesma faixa et\u00e1ria, a maior parte das meninas pesa pelo menos 10,5 quilos, de acordo com a tabela de refer\u00eancia da Organiza\u00e7\u00e3o Mundial da Sa\u00fade. Mas agora Karina tem energia. Ela experimenta o br\u00f3colis e passeia pela sala, oferecendo-o aos amigos.<\/p>\n<p>&#8220;Ela evoluiu muito em desenvolvimento. At\u00e9 aparece de vez em quando com aqueles arranh\u00f5es de quem cai enquanto brinca&#8221;, conta Ravagnolli.<\/p>\n<p>A &#8220;aula&#8221; de br\u00f3colis \u00e9 uma das estrat\u00e9gias do Cren para educar o paladar dos cerca de 80 beb\u00eas, crian\u00e7as e adolescentes atendidos no local, que \u00e9 conveniado \u00e0 Prefeitura de S\u00e3o Paulo. Trata-se da oficina semanal de texturas e sabores, em que os menorzinhos podem cheirar, tatear e provar alimentos in natura que n\u00e3o costumavam estar no seu card\u00e1pio.<\/p>\n<p>A ideia \u00e9 justamente reduzir a resist\u00eancia deles a comidas que, embora nutritivas, podem causar estranheza ao paladar.<\/p>\n<p>Pelos corredores do Cren passeiam desde crian\u00e7as muito franzinas, como Karina, at\u00e9 outras que est\u00e3o claramente acima do peso, como Beatriz, que aos quatro anos j\u00e1 sofre com bullying na escola por conta da obesidade. Tanto Karina quanto Beatriz est\u00e3o, segundo par\u00e2metros m\u00e9dicos, desnutridas.<\/p>\n<p>\u00c9 o desafio do Brasil do s\u00e9culo 21: a desnutri\u00e7\u00e3o \u00e9 um mal causado tanto pela falta de comida na mesa quanto pela m\u00e1 alimenta\u00e7\u00e3o, em uma \u00e9poca em que crian\u00e7as est\u00e3o desde cedo expostas a salgadinhos, produtos l\u00e1cteos artificiais e a\u00e7ucarados, bolachas recheadas e outras guloseimas ultraprocessadas que s\u00e3o usadas como substitutas de alimentos &#8211; mas que n\u00e3o suprem necessidades nutricionais.<\/p>\n<p>&#8220;\u00c9 o que chamamos de furac\u00e3o da desnutri\u00e7\u00e3o: um problema com muitas causas&#8221;, explica Ravagnolli.<\/p>\n<p>&#8220;Temos desde fam\u00edlias desestruturadas, que n\u00e3o d\u00e3o conta de cuidar das crian\u00e7as como elas precisam ou n\u00e3o t\u00eam dinheiro para alimentos saud\u00e1veis, at\u00e9 fam\u00edlias bem organizadas, mas sem informa\u00e7\u00f5es, ou que moram ao lado de um mercadinho onde se vendem v\u00e1rias &#8216;besteiras&#8217;, mas precisam pegar um \u00f4nibus para chegar \u00e0 feira para comprar verduras.&#8221;<\/p>\n<p>O resultado \u00e9 que o Cren chega a atender casos em que as crian\u00e7as sofrem, ao mesmo tempo, de anemia (car\u00eancia de nutrientes essenciais como ferro e zinco) e de colesterol alto (causado, muitas vezes, pela ingest\u00e3o excessiva de alimentos gordurosos).<\/p>\n<p>Vulnerabilidade<br \/>\nDados de 2016 do Minist\u00e9rio da Sa\u00fade indicam que 7% da popula\u00e7\u00e3o brasileira est\u00e1 desnutrida e 20% sofre de obesidade.<\/p>\n<p>O esfor\u00e7o de d\u00e9cadas contra a desnutri\u00e7\u00e3o infantil fez com que o Brasil fosse elogiado pela Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas (ONU) em 2010, quando foram apresentados dados compilados do per\u00edodo entre 1989 e 2006 (e que ser\u00e3o atualizados em pesquisa a ser publicada no ano que vem). Nesse per\u00edodo, caiu de 7,1% para 1,8% o percentual de crian\u00e7as de at\u00e9 5 anos com baixo peso para idade; e com baixa altura, de 19,6% para 6,8%.<\/p>\n<p>\u00c9 nessa idade, por\u00e9m, que, se necess\u00e1rias, as interven\u00e7\u00f5es s\u00e3o cruciais.<\/p>\n<p>A desnutri\u00e7\u00e3o na inf\u00e2ncia causa, al\u00e9m do aumento da mortalidade e da recorr\u00eancia de doen\u00e7as infecciosas, preju\u00edzos que podem ter impacto na vida toda, como atrasos no desenvolvimento psicomotor, mau desempenho escolar e menor produtividade ao chegar \u00e0 idade adulta.<\/p>\n<p>A obesidade tamb\u00e9m tem efeitos duradouros: crian\u00e7as acima do peso t\u00eam mais risco de desenvolver diabetes, hipertens\u00e3o e doen\u00e7as cardiovasculares, entre outros males.<\/p>\n<p>No ritmo atual, calcula-se que o Brasil ter\u00e1 11,3 milh\u00f5es de crian\u00e7as obesas at\u00e9 2025 &#8211; \u00e9 quase o tamanho da popula\u00e7\u00e3o da cidade de S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<p>&#8220;Pela primeira vez na hist\u00f3ria, as crian\u00e7as t\u00eam uma expectativa de vida menor que a de seus pais por conta de uma alimenta\u00e7\u00e3o inadequada&#8221;, afirma Ravagnolli, referindo-se a estudos internacionais que preveem que a obesidade infantil possa criar uma gera\u00e7\u00e3o de jovens adultos doentes.<\/p>\n<p>Uma das formas de prevenir isso \u00e9, segundo especialistas, educar o paladar das crian\u00e7as desde cedo.<\/p>\n<p>&#8220;A alfabetiza\u00e7\u00e3o do paladar \u00e9 uma das coisas mais importantes a se ensinar \u00e0s crian\u00e7as em seus primeiros tr\u00eas anos&#8221;, diz \u00e0 BBC Brasil Maria Paula de Albuquerque, gerente m\u00e9dica do Cren.<\/p>\n<p>&#8220;A introdu\u00e7\u00e3o alimentar, quando os beb\u00eas completam seis meses, \u00e9 uma janela de oportunidades e dificuldades.&#8221;<\/p>\n<p>Caretas e cuspes: como lidar?<br \/>\n\u00c9 nessa fase que muitos pais se descabelam tentando oferecer alimentos saud\u00e1veis em meio a caretas e cuspes &#8211; rea\u00e7\u00f5es, ali\u00e1s, que s\u00e3o normais, uma vez que os beb\u00eas est\u00e3o se adaptando aos novos sabores e texturas.<\/p>\n<p>&#8220;\u00c9 um per\u00edodo dif\u00edcil mesmo, em que n\u00f3s, pais, sentimos ang\u00fastia quando as crian\u00e7as n\u00e3o comem&#8221;, admite Ravagnolli. &#8220;Mas \u00e9 importante n\u00e3o for\u00e7ar a comida, justamente para n\u00e3o fazer com que o momento da refei\u00e7\u00e3o seja algo ruim.&#8221;<\/p>\n<p>O principal, nessa fase, \u00e9 ofertar o m\u00e1ximo poss\u00edvel de alimentos saud\u00e1veis, de diferentes grupos &#8211; carboidrato, prote\u00edna animal, frutas, legumes, verduras e feij\u00f5es &#8211; e tamb\u00e9m diferentes texturas.<\/p>\n<p>Recomenda-se n\u00e3o transformar tudo em uma sopa de liquidificador, justamente para n\u00e3o perder essa diversidade de sabores.<\/p>\n<p>Acima de tudo, \u00e9 preciso armar-se de paci\u00eancia: n\u00e3o \u00e9 porque a crian\u00e7a pequena recusou ou cuspiu uma vez que ela n\u00e3o vai gostar daquele alimento em particular.<\/p>\n<p>&#8220;Para a crian\u00e7a aceitar um alimento, ela pode precisar prov\u00e1-lo at\u00e9 15 vezes&#8221;, explica Albuquerque. &#8220;\u00c9 bom repetir esse alimento em formas diversificadas &#8211; por exemplo, o espinafre cru, depois refogado, depois em creme ou em uma torta.&#8221;<\/p>\n<p>Um erro comum \u00e9, diante da recusa da crian\u00e7a ao alimento saud\u00e1vel, os pais substitu\u00edrem por produtos processados de mais f\u00e1cil aceita\u00e7\u00e3o &#8211; ou &#8220;engrossarem&#8221; o leite dos pequenos com a\u00e7\u00facar ou farinhas l\u00e1cteas.<\/p>\n<p>&#8220;\u00c9 aquele al\u00edvio de &#8216;pelo menos a crian\u00e7a comeu algo&#8217;, mas \u00e9 melhor que ela n\u00e3o coma nada do que vicie seu paladar ao sal e ao a\u00e7\u00facar dos alimentos processados&#8221;, diz Ravagnolli.<\/p>\n<p>&#8220;E precisamos deixar de lado aquele h\u00e1bito de que &#8216;a crian\u00e7a precisa limpar o prato ou n\u00e3o vai ter sobremesa&#8217;. Isso s\u00f3 refor\u00e7a que a comida saud\u00e1vel \u00e9 ruim e a sobremesa \u00e9 legal. N\u00e3o podemos querer que todas as crian\u00e7as comam em igual quantidade &#8211; elas precisam aprender (as sensa\u00e7\u00f5es) da fome e da saciedade.&#8221;<\/p>\n<p>&#8216;Neofobia alimentar&#8217;<\/p>\n<p>As crian\u00e7as e adolescentes atendidos nas duas unidades do Cren (nos bairros paulistanos da Vila Jacu\u00ed e da Vila Mariana) n\u00e3o passaram, em geral, por esse processo de alfabetiza\u00e7\u00e3o do paladar e muitas vezes sofrem do que a m\u00e9dica Maria Paula de Albuquerque chama de &#8220;neofobia alimentar&#8221;: uma dificuldade com novos alimentos, uma vez que foram pouco expostas a eles.<\/p>\n<p>&#8220;S\u00e3o crian\u00e7as com uma dieta mon\u00f3tona e pobre&#8221;, explica ela. &#8220;Por isso, fazemos oficinas l\u00fadicas, para aumentar esse repert\u00f3rio, fazer uma aproxima\u00e7\u00e3o afetiva com o alimento.&#8221;<\/p>\n<p>Para as crian\u00e7as mais velhas, o processo inclui, al\u00e9m do manuseio dos alimentos, a prepara\u00e7\u00e3o. Durante a visita da BBC Brasil, um grupo de cerca de dez adolescentes estava reunido em volta ao fog\u00e3o para preparar um empad\u00e3o de legumes.<\/p>\n<p>As crian\u00e7as chegam ao Cren com quadro de desnutri\u00e7\u00e3o identificado em consultas nas Unidades B\u00e1sicas de Sa\u00fade ou pelo pr\u00f3prio centro em visitas a comunidades carentes. A m\u00e9dia de espera para atendimento \u00e9 de um m\u00eas e meio na unidade da Vila Mariana e de dois meses e meio na Vila Jacu\u00ed.<\/p>\n<p>O diagn\u00f3stico principal se d\u00e1 n\u00e3o pelo peso, mas sim pela baixa estatura &#8211; detalhe que pode fazer a doen\u00e7a passar despercebida, uma vez que os pais \u00e0s vezes acham que a crian\u00e7a \u00e9 apenas baixinha, e n\u00e3o desnutrida.<\/p>\n<p>&#8220;\u00c9 uma doen\u00e7a invis\u00edvel, com um diagn\u00f3stico muitas vezes tardio&#8221;, explica Albuquerque. &#8220;Temos fam\u00edlias em que a desnutri\u00e7\u00e3o est\u00e1 indo para a terceira gera\u00e7\u00e3o. E n\u00e3o \u00e9 aquela desnutri\u00e7\u00e3o africana (de crian\u00e7as esqu\u00e1lidas), ent\u00e3o n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o impactante aos olhos. Mas tem consequ\u00eancias grav\u00edssimas para a vida da crian\u00e7a. Compromete todo o seu desenvolvimento.&#8221;<\/p>\n<p>Mas, segundo Albuquerque, mesmo em fam\u00edlias em situa\u00e7\u00e3o de pobreza e vulnerabilidade \u00e9 poss\u00edvel promover mudan\u00e7as de longo prazo na alimenta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8220;Fizemos um acompanhamento (de alguns pacientes) depois de sete anos e muitos continuaram com os bons h\u00e1bitos alimentares ap\u00f3s a alta, mesmo sem terem sa\u00eddo da favela&#8221;, explica ela.<\/p>\n<p>&#8220;O crucial \u00e9 mudar a rela\u00e7\u00e3o com a comida. Isso passa pelo que a gente come, e como a gente come &#8211; a quantidade de comida, a qualidade e o h\u00e1bito de comer em fam\u00edlia, em um ambiente tranquilo.&#8221;<\/p>\n<\/div>\n<div>\n<p><strong>CARIRI EM A\u00c7\u00c3O<\/strong><\/p>\n<p><em>Com BBC\u00a0\/Foto: Google\u00a0\u00a0<\/em><\/p>\n<p><strong>Leia mais not\u00edcias em\u00a0<\/strong><a href=\"http:\/\/www.caririemacao.com\/\"><strong>caririemacao.com<\/strong><\/a><strong>, siga nossa p\u00e1gina no\u00a0<\/strong><a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/CaririEmAcao\/?ref=aymt_homepage_panel\"><strong>Facebook<\/strong><\/a>,<strong>\u00a0<\/strong><a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/cariri_em_acao\/?hl=pt-br\"><strong>Instagram<\/strong><\/a><strong>\u00a0e\u00a0<\/strong><a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/channel\/UCAptA0jQuYQy8vMhLt2m4qg\"><strong>Youtube<\/strong><\/a><strong>\u00a0e veja nossas mat\u00e9rias, v\u00eddeos e fotos. 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