{"id":40861,"date":"2018-02-14T10:07:08","date_gmt":"2018-02-14T13:07:08","guid":{"rendered":"http:\/\/caririemacao.com\/1\/?p=40861"},"modified":"2018-02-14T10:07:08","modified_gmt":"2018-02-14T13:07:08","slug":"febre-amarela-os-enigmas-que-a-ciencia-ainda-nao-consegue-explicar","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.caririemacao.com\/1\/2018\/02\/14\/febre-amarela-os-enigmas-que-a-ciencia-ainda-nao-consegue-explicar\/","title":{"rendered":"Febre amarela: os enigmas que a ci\u00eancia ainda n\u00e3o consegue explicar"},"content":{"rendered":"<p>A at\u00e9 agora inexplic\u00e1vel explos\u00e3o de casos de\u00a0febre amarela\u00a0em regi\u00f5es onde o v\u00edrus era pouco atuante h\u00e1 d\u00e9cadas trouxe um desafio para sa\u00fade p\u00fablica brasileira. At\u00e9 o momento, n\u00e3o se sabe quais os fatores que influenciaram esta dispers\u00e3o do v\u00edrus. Nem por qual motivo os mosquitos da zona urbana, como o\u00a0<em>Aedes aegypti,<\/em>\u00a0ainda n\u00e3o o transmitem, mesmo tendo a capacidade para isso.<\/p>\n<p>&#8220;N\u00e3o \u00e9 a primeira vez que a febre amarela se desloca. De tempos em tempos, h\u00e1 surtos fora da \u00e1rea amaz\u00f4nica. Mas o que vemos \u00e9 que ao longo dos \u00faltimos 20 anos ela vem descendo. Neste ano, o surto de 2018 \u00e9 continuidade daquele que\u00a0teve in\u00edcio em 2016 em Minas Gerais, com um impacto muito grande em 2017&#8221;, explica Rivaldo Ven\u00e2ncio,\u00a0<span lang=\"pt-BR\" xml:lang=\"pt-BR\">coordenador de Vigil\u00e2ncia em Sa\u00fade e Laborat\u00f3rios da\u00a0<span class=\"st\">Funda\u00e7\u00e3o Oswaldo Cruz<\/span>\u00a0(Fiocruz). &#8220;O v\u00edrus n\u00e3o desce sozinho. Ou ele desce por meio do deslocamento dos primatas ou por meio de pessoas que moram nas florestas e descem para o Sudeste. Muitas vezes, elas est\u00e3o com uma infec\u00e7\u00e3o sem sintomas ou com manifesta\u00e7\u00f5es cl\u00ednicas sutis e n\u00e3o sabem que est\u00e3o doentes&#8221;, continua Ven\u00e2ncio.<\/span><\/p>\n<p>A febre amarela \u00e9 uma doen\u00e7a end\u00eamica da regi\u00e3o amaz\u00f4nica (ou seja, que circula naturalmente nesta regi\u00e3o). Por isso, ela j\u00e1 faz parte da rotina de vacina\u00e7\u00e3o. Com a ampla cobertura vacinal, a popula\u00e7\u00e3o do Norte est\u00e1 quase toda protegida e s\u00e3o poucos os casos da doen\u00e7a que atualmente acontecem por ali. Por isso,os 353 casos confirmados no pa\u00eds no ultimo ano at\u00e9 a \u00faltima quarta-feira, aconteceram no Sudeste (com exce\u00e7\u00e3o de um ocorrido no Distrito Federal). O padr\u00e3o \u00e9 semelhante ao do ano anterior, quando 777 casos da doen\u00e7a foram confirmados, 764 no Sudeste.<\/p>\n<p>No Sudeste e no litoral do pa\u00eds, como a doen\u00e7a n\u00e3o \u00e9 end\u00eamica, a popula\u00e7\u00e3o estava pouco vacinada. Por isso, houve uma explos\u00e3o de casos e a\u00a0desesperada corrida a postos de sa\u00fade\u00a0em busca da vacina. Em 2016, o ressurgimento do v\u00edrus nesta parte do Brasil causou o maior surto da doen\u00e7a das \u00faltimas d\u00e9cadas.<\/p>\n<p>Pesquisadores procuram entender o que poderia ter mudado este padr\u00e3o de infesta\u00e7\u00e3o e porque ele ganhou esta velocidade nos \u00faltimos dois anos. &#8220;H\u00e1 pesquisas que estudam se o aquecimento global estaria mexendo com o habitat dos primatas. Outras falam sobre a amplia\u00e7\u00e3o da fronteira agr\u00edcola do pa\u00eds para \u00e1reas do Norte e Centro-oeste n\u00e3o cultivadas antes ou onde a cria\u00e7\u00e3o de gado foi substitu\u00edda pelo plantio de soja e milho, que usam agrot\u00f3xico. Isso causa uma movimenta\u00e7\u00e3o gigantesca de um ecossistema que estava quieto por muitos anos e a natureza d\u00e1 a resposta&#8221;, destaca o coordenador de vigil\u00e2ncia da Fiocruz.<\/p>\n<p>O Centro de Informa\u00e7\u00e3o em Sa\u00fade Silvestre da funda\u00e7\u00e3o busca descobrir desde o ano passado quais altera\u00e7\u00f5es ambientais podem ter provocado a dispers\u00e3o atual da doen\u00e7a. S\u00e3o analisados 7.200 par\u00e2metros para isso. A bi\u00f3loga Marcia Chame, coordenadora do programa, afirma que os surtos fora da Amaz\u00f4nia est\u00e3o relacionados com fragmentos de matas muito pequenos, refor\u00e7ando o argumento da correla\u00e7\u00e3o do aumento da doen\u00e7a com a degrada\u00e7\u00e3o ambiental.<\/p>\n<p>Outros cientistas tamb\u00e9m analisam como o surgimento de uma linhagem moderna do v\u00edrus pode ter ajudado neste novo padr\u00e3o de dispers\u00e3o da doen\u00e7a. Esta nova linhagem surgiu no final da d\u00e9cada de 1970, provavelmente em Trinidad e Tobago, afirma uma pesquisa conjunta dos Laborat\u00f3rios de Aids e Imunologia Molecular, de Biologia Molecular de Flaviv\u00edrus, de Mosquitos Transmissores de Hematozo\u00e1rios e de Gen\u00e9tica Molecular de Microrganismos da Fiocruz. Segundo os pesquisadores, ela foi a respons\u00e1vel pelo recente surto, que come\u00e7ou em 2016 em Minas Gerais.<\/p>\n<h3>Mosquitos<\/h3>\n<p>Todos os casos ocorridos no pa\u00eds s\u00e3o do tipo silvestre da doen\u00e7a, transmitido dentro de \u00e1rea de mata nativa pelos mosquitos\u00a0<em>Haemagogus<\/em>\u00a0e\u00a0<em>Sabethes<\/em>. Este tipo de inseto prefere as copas das \u00e1rvores para a reprodu\u00e7\u00e3o e, por isso, pica preferencialmente macacos, se alimentando de seu sangue. O homem, quando se infecta, \u00e9 por\u00a0<em>acidente,<\/em>\u00a0porque entrou na \u00e1rea de mata e o mosquito desceu para se alimentar por n\u00e3o ter alimento na parte de cima da \u00e1rvore. O ciclo urbano da doen\u00e7a \u00e9 transmitido por outros mosquitos. O principal deles \u00e9 o\u00a0<em>Aedes aegypti,<\/em>\u00a0que tamb\u00e9m espalha dengue, chikungunya e zika. O ciclo urbano, apesar da forte presen\u00e7a deste mosquito na cidade, n\u00e3o acontece desde 1942 no pa\u00eds.<\/p>\n<p>Isso tamb\u00e9m se transformou em um outro enigma para os cientistas. Por que at\u00e9 agora, mesmo com tantos casos de febre amarela silvestre em \u00e1reas pr\u00f3ximas a grandes metr\u00f3poles, ainda n\u00e3o surgiram casos do tipo urbano da doen\u00e7a? O\u00a0<em>Aedes<\/em>\u00a0teria perdido a compet\u00eancia para transmitir a doen\u00e7a? Estaria com a capacidade esgotada por conta de tantos outros v\u00edrus competindo por um \u00fanico hospedeiro? Outra pesquisa da Fiocruz comprovou que quatro esp\u00e9cies de mosquito, dois deles urbanos, sendo um o\u00a0<em>Aedes<\/em>, podem, sim, transmitir a doen\u00e7a. Eles foram infectados em laborat\u00f3rio com sangue com v\u00edrus e os cientistas puderam comprovar que o v\u00edrus chegava \u00e0 saliva de boa parte dos mosquitos. Quando o mosquito pica, ele cospe em sua\u00a0<em>v\u00edtima<\/em>\u00a0saliva<em>,<\/em>\u00a0que possui\u00a0 subst\u00e2ncias analg\u00e9sicas e anticoagulantes que o ajudam a n\u00e3o ser notado. \u00c9 neste momento que part\u00edculas do v\u00edrus s\u00e3o injetadas na corrente sangu\u00ednea.<\/p>\n<p>&#8220;O mosquito tem compet\u00eancia para transmitir o v\u00edrus. Mas o ciclo urbano n\u00e3o est\u00e1 ocorrendo. Por que? Isso \u00e9 o que todo mundo est\u00e1 se perguntando&#8221;, afirma a entomologista Dinair Couto Lima, pesquisadora do Laborat\u00f3rio de Mosquitos Transmissores de Hematozo\u00e1rios da Fiocruz e uma das autoras da pesquisa. Segundo ela, uma das hip\u00f3teses para que a transmiss\u00e3o urbana ainda n\u00e3o tenha acontecido \u00e9 que o controle do Aedes nas cidades, apesar de problem\u00e1tico, est\u00e1 mais controlado. Com uma popula\u00e7\u00e3o de mosquitos menor, a transmiss\u00e3o pode estar controlada. &#8220;As pessoas se vacinando tamb\u00e9m criam uma barreira muito importante&#8221;, destaca ela.<\/p>\n<p>Rivaldo Ven\u00e2ncio tamb\u00e9m destaca que o per\u00edodo de viremia (quando o v\u00edrus est\u00e1 no sangue do homem e pode transmiti-lo para um mosquito n\u00e3o infectado, continuando a cadeia de transmiss\u00e3o) \u00e9 muito pequeno no caso da febre amarela. &#8220;O v\u00edrus fica entre um e dois dias na corrente sangu\u00ednea. O da\u00a0<span class=\"st\">chikungunya, por exemplo, fica entre sete e oito dias&#8221;, destaca ele. &#8220;A febre amarela silvestre n\u00e3o deixar\u00e1 de existir, pois n\u00e3o tem como acabar com o ciclo entre o macaco e mosquito. Por isso \u00e9 importante vacinar a popula\u00e7\u00e3o urbana, para que ela seja mantida em um n\u00edvel sustentado entre os humanos. A tend\u00eancia \u00e9 que a m\u00e9dio prazo, entre quatro a cinco anos, todo o Brasil seja \u00e1rea de vacina\u00e7\u00e3o, inclusive nestas \u00e1reas onde hoje a vacina n\u00e3o \u00e9 aplicada na rotina. Esporadicamente vai haver algu\u00e9m que n\u00e3o se vacinou e corre o risco&#8221;, conclui ele.<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A at\u00e9 agora inexplic\u00e1vel explos\u00e3o de casos de\u00a0febre amarela\u00a0em regi\u00f5es onde o v\u00edrus era pouco atuante h\u00e1 d\u00e9cadas trouxe um desafio para sa\u00fade p\u00fablica brasileira. At\u00e9 o momento, n\u00e3o se sabe quais os fatores que influenciaram esta dispers\u00e3o do v\u00edrus. Nem por qual motivo os mosquitos da zona urbana, como o\u00a0Aedes aegypti,\u00a0ainda n\u00e3o o transmitem, mesmo tendo a capacidade para isso. &#8220;N\u00e3o \u00e9 a primeira vez que a febre amarela se desloca. De tempos em tempos, h\u00e1 surtos fora da \u00e1rea amaz\u00f4nica. Mas o que vemos \u00e9 que ao longo dos \u00faltimos 20 anos ela vem descendo. Neste ano, o surto de 2018 \u00e9 continuidade daquele que\u00a0teve in\u00edcio em 2016 em Minas Gerais, com um impacto muito grande em 2017&#8221;, explica Rivaldo Ven\u00e2ncio,\u00a0coordenador de Vigil\u00e2ncia em Sa\u00fade e Laborat\u00f3rios da\u00a0Funda\u00e7\u00e3o Oswaldo Cruz\u00a0(Fiocruz). &#8220;O v\u00edrus n\u00e3o desce sozinho. Ou ele desce por meio do deslocamento dos primatas ou por meio de pessoas que moram nas florestas e descem para o Sudeste. Muitas vezes, elas est\u00e3o com uma infec\u00e7\u00e3o sem sintomas ou com manifesta\u00e7\u00f5es cl\u00ednicas sutis e n\u00e3o sabem que est\u00e3o doentes&#8221;, continua Ven\u00e2ncio. A febre amarela \u00e9 uma doen\u00e7a end\u00eamica da regi\u00e3o amaz\u00f4nica (ou seja, que circula naturalmente nesta regi\u00e3o). Por isso, ela j\u00e1 faz parte da rotina de vacina\u00e7\u00e3o. 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Pesquisadores procuram entender o que poderia ter mudado este padr\u00e3o de infesta\u00e7\u00e3o e porque ele ganhou esta velocidade nos \u00faltimos dois anos. &#8220;H\u00e1 pesquisas que estudam se o aquecimento global estaria mexendo com o habitat dos primatas. Outras falam sobre a amplia\u00e7\u00e3o da fronteira agr\u00edcola do pa\u00eds para \u00e1reas do Norte e Centro-oeste n\u00e3o cultivadas antes ou onde a cria\u00e7\u00e3o de gado foi substitu\u00edda pelo plantio de soja e milho, que usam agrot\u00f3xico. Isso causa uma movimenta\u00e7\u00e3o gigantesca de um ecossistema que estava quieto por muitos anos e a natureza d\u00e1 a resposta&#8221;, destaca o coordenador de vigil\u00e2ncia da Fiocruz. O Centro de Informa\u00e7\u00e3o em Sa\u00fade Silvestre da funda\u00e7\u00e3o busca descobrir desde o ano passado quais altera\u00e7\u00f5es ambientais podem ter provocado a dispers\u00e3o atual da doen\u00e7a. S\u00e3o analisados 7.200 par\u00e2metros para isso. 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Mosquitos Todos os casos ocorridos no pa\u00eds s\u00e3o do tipo silvestre da doen\u00e7a, transmitido dentro de \u00e1rea de mata nativa pelos mosquitos\u00a0Haemagogus\u00a0e\u00a0Sabethes. Este tipo de inseto prefere as copas das \u00e1rvores para a reprodu\u00e7\u00e3o e, por isso, pica preferencialmente macacos, se alimentando de seu sangue. O homem, quando se infecta, \u00e9 por\u00a0acidente,\u00a0porque entrou na \u00e1rea de mata e o mosquito desceu para se alimentar por n\u00e3o ter alimento na parte de cima da \u00e1rvore. O ciclo urbano da doen\u00e7a \u00e9 transmitido por outros mosquitos. O principal deles \u00e9 o\u00a0Aedes aegypti,\u00a0que tamb\u00e9m espalha dengue, chikungunya e zika. O ciclo urbano, apesar da forte presen\u00e7a deste mosquito na cidade, n\u00e3o acontece desde 1942 no pa\u00eds. Isso tamb\u00e9m se transformou em um outro enigma para os cientistas. Por que at\u00e9 agora, mesmo com tantos casos de febre amarela silvestre em \u00e1reas pr\u00f3ximas a grandes metr\u00f3poles, ainda n\u00e3o surgiram casos do tipo urbano da doen\u00e7a? O\u00a0Aedes\u00a0teria perdido a compet\u00eancia para transmitir a doen\u00e7a? Estaria com a capacidade esgotada por conta de tantos outros v\u00edrus competindo por um \u00fanico hospedeiro? Outra pesquisa da Fiocruz comprovou que quatro esp\u00e9cies de mosquito, dois deles urbanos, sendo um o\u00a0Aedes, podem, sim, transmitir a doen\u00e7a. Eles foram infectados em laborat\u00f3rio com sangue com v\u00edrus e os cientistas puderam comprovar que o v\u00edrus chegava \u00e0 saliva de boa parte dos mosquitos. Quando o mosquito pica, ele cospe em sua\u00a0v\u00edtima\u00a0saliva,\u00a0que possui\u00a0 subst\u00e2ncias analg\u00e9sicas e anticoagulantes que o ajudam a n\u00e3o ser notado. \u00c9 neste momento que part\u00edculas do v\u00edrus s\u00e3o injetadas na corrente sangu\u00ednea. &#8220;O mosquito tem compet\u00eancia para transmitir o v\u00edrus. Mas o ciclo urbano n\u00e3o est\u00e1 ocorrendo. Por que? Isso \u00e9 o que todo mundo est\u00e1 se perguntando&#8221;, afirma a entomologista Dinair Couto Lima, pesquisadora do Laborat\u00f3rio de Mosquitos Transmissores de Hematozo\u00e1rios da Fiocruz e uma das autoras da pesquisa. Segundo ela, uma das hip\u00f3teses para que a transmiss\u00e3o urbana ainda n\u00e3o tenha acontecido \u00e9 que o controle do Aedes nas cidades, apesar de problem\u00e1tico, est\u00e1 mais controlado. Com uma popula\u00e7\u00e3o de mosquitos menor, a transmiss\u00e3o pode estar controlada. &#8220;As pessoas se vacinando tamb\u00e9m criam uma barreira muito importante&#8221;, destaca ela. Rivaldo Ven\u00e2ncio tamb\u00e9m destaca que o per\u00edodo de viremia (quando o v\u00edrus est\u00e1 no sangue do homem e pode transmiti-lo para um mosquito n\u00e3o infectado, continuando a cadeia de transmiss\u00e3o) \u00e9 muito pequeno no caso da febre amarela. &#8220;O v\u00edrus fica entre um e dois dias na corrente sangu\u00ednea. 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