{"id":51590,"date":"2018-05-20T10:38:20","date_gmt":"2018-05-20T13:38:20","guid":{"rendered":"http:\/\/caririemacao.com\/1\/?p=51590"},"modified":"2018-05-20T10:38:20","modified_gmt":"2018-05-20T13:38:20","slug":"crise-tirou-170-mil-jovens-da-faculdade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.caririemacao.com\/1\/2018\/05\/20\/crise-tirou-170-mil-jovens-da-faculdade\/","title":{"rendered":"Crise tirou 170 mil jovens da faculdade"},"content":{"rendered":"<p>O aumento expressivo do desemprego entre os jovens durante os anos de crise n\u00e3o preocupa apenas pela queda na renda das fam\u00edlias. Ele se reflete na forma\u00e7\u00e3o. Mais de 170 mil brasileiros, com idades de 19 a 25 anos, abandonaram a gradua\u00e7\u00e3o s\u00f3 no ano passado e tiveram de adiar o sonho de ascender socialmente pelos estudos.<\/p>\n<p>Na fila do seguro-desemprego, Miguel J\u00fanior, de 23 anos, admitia que a faculdade de Engenharia ficaria para depois. Filho de uma empregada dom\u00e9stica, ele dependia do emprego em um centro de distribui\u00e7\u00e3o de medicamentos para pagar os estudos, mas o corte de funcion\u00e1rios come\u00e7ou h\u00e1 dois meses. \u201cJ\u00e1 escolhi a faculdade, mas preciso fazer uma poupan\u00e7a antes de come\u00e7ar o curso. O que mais tenho s\u00e3o amigos que tiveram de parar a faculdade na metade, quando a crise apertou.\u201d<\/p>\n<p>A desist\u00eancia n\u00e3o cresce apenas em anos de crise, mas esse movimento havia sido bem menor em anos anteriores, segundo dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domic\u00edlios (Pnad) Cont\u00ednua, do IBGE, compilados pela consultoria LCA. A m\u00e9dia do aumento do estoque de estudantes que tiveram de abandonar seus cursos de gradua\u00e7\u00e3o era de cerca de 5% ao ano, entre 2013 e 2016.<\/p>\n<p>Essa evas\u00e3o aumentou 47,8% entre 2016 e o ano passado, acompanhando o movimento de fechamento dos postos de trabalho e a redu\u00e7\u00e3o da oferta de financiamento estudantil.<\/p>\n<p>\u201cIsso tamb\u00e9m tem a ver com o aumento da oferta do ensino superior e com o maior acesso \u00e0s universidades nos anos anteriores \u00e0 crise. A evas\u00e3o \u00e9 naturalmente grande, mas em 2017 foi pior pelas restri\u00e7\u00f5es de emprego e de renda\u201d, avalia o economista Cosmo Donato, da LCA.<\/p>\n<p>\u201cO aumento da evas\u00e3o faz todo o sentido, tamb\u00e9m pela redu\u00e7\u00e3o da oferta do Fies (programa de financiamento estudantil) nesse per\u00edodo. O que a gente chama de restri\u00e7\u00e3o de cr\u00e9dito para os estudantes foi muito grande nos anos de crise, sem financiamento e, vendo a renda da fam\u00edlia diminuir, o jovem acaba n\u00e3o tendo uma outra sa\u00edda.\u201d<\/p>\n<p>Com a eros\u00e3o das contas p\u00fablicas, o governo tamb\u00e9m restringiu o acesso ao Fies. Em 2017, foram 98,9 mil contratos. Esse n\u00famero tem ca\u00eddo desde 2014, quando foram 732,7 mil.<\/p>\n<p><strong>Intervalo.\u00a0<\/strong>Um outro agravante \u00e9 que muitos chefes de fam\u00edlia perderam o emprego durante a crise \u2013 quase 2 milh\u00f5es deles deixaram o mercado formal em tr\u00eas anos. Os mais jovens n\u00e3o tinham os estudos necessariamente pagos pelos pais, mas muitos deles foram for\u00e7ados a entrar no mercado de trabalho mais cedo para ajudar no or\u00e7amento da fam\u00edlia.<\/p>\n<p>O professor do Insper Sergio Firpo lembra que os n\u00fameros da Pnad apontam que os filhos com escolaridade baixa t\u00eam participa\u00e7\u00e3o maior no mercado de trabalho, e que a desocupa\u00e7\u00e3o cresceu mais durante a crise entre os chefes de fam\u00edlia que t\u00eam baixa ou m\u00e9dia escolaridade.<\/p>\n<p>\u201cOs jovens de fam\u00edlias com pais de baixa escolaridade tiveram chances maiores de serem afetados pela crise, porque s\u00e3o mais facilmente empurrados para o mercado de trabalho do que os adolescentes de fam\u00edlias mais ricas\u201d, diz Firpo.<\/p>\n<p>Justamente na faixa entre 19 e 25 anos, que costuma ser composta por uma m\u00e3o de obra pouca qualificada, mesmo a volta ao mercado de trabalho \u00e9 mais complicada, diz Donato. \u201cUm chefe de fam\u00edlia pode voltar a ter carteira assinada, ganhando menos. O jovem tende a voltar com renda menor e, na maioria das vezes, informal.\u201d<\/p>\n<p>O rendimento real entre esses brasileiros quase n\u00e3o variou de 2016 a 2017, segundo a LCA, com aumento de 0,1% \u2013 enquanto nas faixas et\u00e1rias mais velhas, a alta foi de 1,1% a 4,7%.<\/p>\n<p><strong>Momento dif\u00edcil.\u00a0<\/strong>O sonho de Walas dos Reis, de 29 anos, de abrir uma empresa para administrar e assessorar a carreira de cantores est\u00e1, por enquanto, adiado. Em 2015, no auge da crise, ele, que nas horas vagas tamb\u00e9m canta, toca viol\u00e3o e faz uma dupla sertaneja com o irm\u00e3o, teve de largar a faculdade de administra\u00e7\u00e3o em Vit\u00f3ria (ES), porque ficou desempregado. \u201cFiquei sem condi\u00e7\u00f5es de pagar o curso.\u201d Ele trabalhava como seguran\u00e7a e ganhava R$ 1.750. Gastava mais da metade com a faculdade.<\/p>\n<p>Sem op\u00e7\u00e3o, ele e o irm\u00e3o, que tamb\u00e9m abandonou a faculdade, embarcaram para S\u00e3o Paulo em fevereiro de 2017. A expectativa da mudan\u00e7a de cidade era arranjar um emprego na \u00e1rea de administra\u00e7\u00e3o e impulsionar a carreira art\u00edstica da dupla sertaneja Wallas e William.<\/p>\n<p>Mas n\u00e3o foi bem isso que conseguiu. \u201cColoquei curr\u00edculos em v\u00e1rias empresas, mas eles disseram que, como n\u00e3o conclu\u00ed o curso, n\u00e3o tenho como trabalhar na \u00e1rea.\u201d Na carreira art\u00edstica, o recome\u00e7o em S\u00e3o Paulo tamb\u00e9m foi dif\u00edcil.<\/p>\n<p>Nos \u00faltimos meses, ele se empregou como faxineiro num pr\u00e9dio, ganhando R$ 1.300. Alguns shows come\u00e7aram a aparecer. Reis diz que n\u00e3o tem vergonha de trabalhar como faxineiro para sobreviver. \u201cO Brasil est\u00e1 num momento dif\u00edcil para os jovens que n\u00e3o t\u00eam uma condi\u00e7\u00e3o financeira.\u201d<\/p>\n<p><strong>Situa\u00e7\u00e3o piorando.\u00a0<\/strong>Pouco antes de completar 20 anos, em dezembro do ano passado, Mauro Turpin optou por trancar o curso de publicidade e propaganda para refor\u00e7ar a equipe da empresa dos pr\u00f3prios pais. \u201cEles n\u00e3o exigiram, mas eu via que a situa\u00e7\u00e3o estava ficando cada vez pior. Queria ajudar nas contas.\u201d<\/p>\n<p>Inicialmente, os dois anos de estudo de Mauro iriam servir para estruturar uma nova estrat\u00e9gia de marketing da empresa, composta por uma f\u00e1brica de bijuterias e uma loja. Entretanto, com o corte de funcion\u00e1rios, em poucos dias o estudante passou a ser o \u201cfaz-tudo\u201d da loja, transitando pela fun\u00e7\u00e3o de vendedor e idas ao cart\u00f3rio.<\/p>\n<p>A parceria come\u00e7ou a se desgastar: \u201cO trabalho n\u00e3o estava sendo o que eu queria\u201d. Ap\u00f3s tr\u00eas meses longe das salas de aula e sem experi\u00eancia pr\u00e9via no mercado, Mauro tentou procurar est\u00e1gios na \u00e1rea, mas descobriu que antes precisava voltar para a faculdade. \u201cPor sorte, os pais de uma amiga t\u00eam uma ag\u00eancia de publicidade, e ela me indicou para uma vaga.\u201d<\/p>\n<p>A vaga n\u00e3o \u00e9 com carteira assinada \u2013 ele mesmo ainda n\u00e3o tirou o documento \u2013 e trabalha oito horas di\u00e1rias, ganhando pouco mais de R$ 1 mil. O jovem pretende retornar aos estudos no segundo semestre de 2018.<\/p>\n<p>Apesar de n\u00e3o ser registrado, ele valoriza a vaga. \u201cUma coisa que nunca gostei \u00e9 de depender dos meus pais. \u00c9 bom ter controle da minha vida.\u201d<\/p>\n<p><strong>Sonhos distantes.\u00a0<\/strong>A pior parte de deixar o emprego de j\u00f3quei e tratador de cavalos foi se despedir dos animais. \u201cEu tinha o emprego que eu pedi a Deus\u201d, lembra Genilson da Silva, de 25 anos, demitido do J\u00f3quei Clube de S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<p>Ele lembra que sempre, desde pequeno, tinha o sonho de cuidar de animais. A baixa estatura e peso o ajudaram a se qualificar para a profiss\u00e3o. \u201cPensei em ser veterin\u00e1rio ou trabalhar em um haras. Crio um cavalo em casa, o Fa\u00edsca. Ele hoje \u00e9 uma das minhas principais fontes de renda. Depois dele, ainda arranjei mais quatro.\u201d<\/p>\n<p>Genilson, que aprendeu a montar aos dez anos, s\u00f3 se arrepende de ter deixado os estudos de lado. \u201cO meu sonho atual \u00e9 terminar o ensino m\u00e9dio. Com estudo j\u00e1 \u00e9 dif\u00edcil arrumar um emprego, imagina na minha situa\u00e7\u00e3o.\u201d<\/p>\n<p>Sem trabalho fixo, Genilson tira parte da renda alugando os cavalos para eventos, como anivers\u00e1rios e desfiles, al\u00e9m de oferecer passeios de charrete. O custo de manuten\u00e7\u00e3o \u00e9 de R$ 250 por m\u00eas, al\u00e9m do aluguel.<\/p>\n<p>Com o or\u00e7amento curto, ele decidiu tentar a vaga que aparecer. \u201cApesar de ainda sonhar com outro emprego em que possa cuidar de bichos\u201d, conta, ao se candidatar a limpador de vidros de edif\u00edcios. \u201cSonhar longe, a gente sempre sonha. Mas parece que at\u00e9 os sonhos ficaram mais distantes agora.\u201d<\/p>\n<p><strong>CARIRI EM A\u00c7\u00c3O<\/strong><\/p>\n<p>Com Estad\u00e3o\/Foto: Reprodu\u00e7\u00e3o Internet<\/p>\n<p>Leia mais not\u00edcias em\u00a0<a href=\"http:\/\/www.caririemacao.com\/\">caririemacao.com<\/a>, siga nossa p\u00e1gina no\u00a0<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/CaririEmAcao\/?ref=aymt_homepage_panel\">Facebook<\/a>,\u00a0<a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/cariri_em_acao\/?hl=pt-br\">Instagram<\/a>\u00a0e <a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/channel\/UCAptA0jQuYQy8vMhLt2m4qg\">Youtube<\/a>\u00a0e veja nossas mat\u00e9rias, v\u00eddeos e fotos. 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