{"id":60493,"date":"2018-08-08T09:08:19","date_gmt":"2018-08-08T12:08:19","guid":{"rendered":"http:\/\/caririemacao.com\/1\/?p=60493"},"modified":"2018-08-08T09:08:19","modified_gmt":"2018-08-08T12:08:19","slug":"negra-lesbica-e-periferica-juliane-morreu-por-ser-policial-dizem-ativistas-de-direitos-humanos-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.caririemacao.com\/1\/2018\/08\/08\/negra-lesbica-e-periferica-juliane-morreu-por-ser-policial-dizem-ativistas-de-direitos-humanos-2\/","title":{"rendered":"Negra, l\u00e9sbica e perif\u00e9rica, Juliane \u201cmorreu por ser policial\u201d, dizem ativistas de direitos humanos"},"content":{"rendered":"<p>Entidades de defesa dos direitos LGBT e dos direitos humanos lamentaram nesta ter\u00e7a-feira (7) o assassinato da policial militar Juliane dos Santos Duarte, 27. A soldado, que havia sido raptada por criminosos na comunidade de Parais\u00f3polis (zona sul de S\u00e3o Paulo) na semana passada, ficou cinco dias desaparecida at\u00e9 ter o corpo localizado na noite dessa segunda (6), em Jurubatuba, tamb\u00e9m na zona sul, a pouco mais de 8 km de onde havia sido levada.<\/p>\n<p>Jovem, negra, l\u00e9sbica e moradora da periferia (no caso, de S\u00e3o Bernardo do Campo, Grande S\u00e3o Paulo), Juliane teve o caso comparado \u00e0 da vereadora carioca Marielle Franco (PSOL) por uma rede de trabalhadores de seguran\u00e7a \u2013entre os quais, policiais militares, civis, federais e guardas civis\u2013 que atua na defesa dos direitos dos trabalhadores LGBT. Apesar das compara\u00e7\u00f5es, as entidades ouvidas pela reportagem, dizem que morreu por ser policial.<\/p>\n<p>Entidade que re\u00fane cerca de 60 mil associados em todo o pa\u00eds, a Renosp (Rede Nacional de Operadores de Seguran\u00e7a P\u00fablica LGBTI) acionou o Condepe (Conselho Estadual de Direitos da Pessoa Humana) para que o caso possa ser acompanhado de perto perante a Secretaria de Seguran\u00e7a P\u00fablica do Estado \u2013que chegara a oferecer, ontem, recompensa de R$ 50 mil por informa\u00e7\u00f5es que levassem ao paradeiro da policial. O corpo dela foi localizado em um carro abandonado.<\/p>\n<p>\u201cDesejamos aos amigos e familiares um alento no cora\u00e7\u00e3o e muita for\u00e7a para seguir adiante al\u00e9m de nos colocarmos \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o para ajudar no que for preciso, bem como para garantir que este crime seja devidamente investigado\u201d, assinou nota da entidade.<\/p>\n<p>Para o coordenador regional da Renosp, o soldado paulista Leandro Prior, h\u00e1 \u201cconvic\u00e7\u00e3o de que a motiva\u00e7\u00e3o para a morte de Juliane foi o \u00f3dio por ela ser PM\u201d.<\/p>\n<p>\u201cAcionamos o Condepe e tamb\u00e9m a Comiss\u00e3o Estadual de Diversidade Sexual para que eles acompanhem as investiga\u00e7\u00f5es desse caso e pressionem as autoridades. N\u00e3o queremos que este seja mais um caso Marielle\u201d, afirmou o policial.<\/p>\n<p>Marielle foi morta com quatro tiros na cabe\u00e7a, em mar\u00e7o deste ano, junto com o motorista Anderson Gomes. Ent\u00e3o com 38 anos e vereadora em primeiro mandato, era negra, l\u00e9sbica e criada no Conjunto da Mar\u00e9, zona norte do Rio. Ap\u00f3s 146 dias, o caso ainda n\u00e3o foi elucidado.<\/p>\n<p>Prior se disse incomodado com uma s\u00e9rie de relatos oriundos de outros militares e tamb\u00e9m de civis, nos \u00faltimos dias, sobre uma suposta imobilidade de grupos de defesa dos direitos humanos em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 policial. V\u00e1rios desses relatos, questionando a parcialidade dos grupos, t\u00eam sido feita nas redes sociais por civis, policiais e candidatos nas elei\u00e7\u00f5es de outubro.<\/p>\n<p>\u201cExiste uma cobran\u00e7a muito grande em rela\u00e7\u00e3o aos defensores de direitos humanos sobre o amparo deles aos policiais, mas, se a gente n\u00e3o se movimenta e coloca em pr\u00e1tica essa insatisfa\u00e7\u00e3o, de que adianta reclamar?\u201d, questionou Prior. \u201cOs direitos humanos servem a qualquer um. E eu, mesmo, como policial, tive apoio no momento em que mais precisei deles\u201d, defendeu.<\/p>\n<p>O soldado se referiu ao epis\u00f3dio recente em que ele, gay assumido, passou a receber amea\u00e7as de morte e press\u00f5es para que deixasse a corpora\u00e7\u00e3o depois de ter sido filmado, de farda e sem seu conhecimento, dando um selinho de despedida em outro homem em um vag\u00e3o no metr\u00f4 em S\u00e3o Paulo. Prior buscou ajuda no Condepe, que, junto com a Ouvidoria da PM, levou o caso \u00e0 Corregedoria da PM, onde as amea\u00e7as s\u00e3o investigadas. \u201cAcredito que h\u00e1 muita desinforma\u00e7\u00e3o. Os direitos humanos acolhem a todos, desde que a v\u00edtima seja um ser humano. Mas precisam ser acionados\u201d, finalizou.<\/p>\n<p>Morte de PM \u00e9 \u201cataque a todos que defendem os direitos humanos\u201d, diz conselho<\/p>\n<p>Em nota, o Condepe destacou que o caso de Juliane \u201cfaz parte de um contexto de crescente viol\u00eancia urbana e inseguran\u00e7a p\u00fablica\u201d e lamentou a situa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u201cO ataque contra uma jovem servidora da seguran\u00e7a p\u00fablica \u00e9 um ataque contra o Estado de Direito e contra todos que defendem a legalidade, a Justi\u00e7a e os Direitos Humanos\u201d, afirmou, no texto, o advogado Ariel de Castro Alves, integrante do Condepe. \u201cOs policiais que atuam corretamente no exerc\u00edcio de suas fun\u00e7\u00f5es s\u00e3o fundamentais defensores de direitos humanos\u201d, observou Alves, que ainda colocou a entidade \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o da fam\u00edlia da policial e de amigos dela \u201cvisando cobrar e acompanhar uma r\u00e1pida elucida\u00e7\u00e3o do crime.\u201d<\/p>\n<p>O advogado ponderou ainda a import\u00e2ncia de as for\u00e7as policiais atuarem \u201ccom respeito e regularidade\u201d durante as investiga\u00e7\u00f5es em Parais\u00f3polis como forma de \u201ca pol\u00edcia poder contar com a confian\u00e7a e o apoio dos moradores da regi\u00e3o\u201d a fim de esclarecer o crime. \u201cComo defensores de direitos humanos, defendemos principalmente o direito \u00e0 vida e lutamos contra qualquer forma de viol\u00eancia, injusti\u00e7a e discrimina\u00e7\u00e3o\u201d, finalizou a nota.<\/p>\n<p>Sou da Paz v\u00ea \u201cperversidade com o policial\u201d<\/p>\n<p>Entidade com foco em seguran\u00e7a p\u00fablica e direitos humanos, o Instituto Sou da Paz tamb\u00e9m lamentou a morte de Juliane e a contextualizou em um cen\u00e1rio em que o PM \u00e9 treinado para agir como se estivesse \u201cna trincheira de uma guerra\u201d.<\/p>\n<p>\u201cO pa\u00eds teve mais de 62 mil mortes violentas registradas em 2016 [\u00faltimo levantamento da entidade], e nenhuma vida vale mais que outra\u201d, avaliou o diretor-executivo do Sou da Paz, Ivan Marques. \u201cO assassinato de Juliane \u00e9 mais um caso brutal que a gente lamenta, sobretudo por ela ter sido morta por sua condi\u00e7\u00e3o de policial\u201d, destacou.<\/p>\n<p>Para Marques, policiais militares, sobretudo pra\u00e7as, \u201csofrem de uma vis\u00e3o da sociedade e deles pr\u00f3prios\u201d de que o PM \u00e9 \u201ca ponta de lan\u00e7a na defesa contra a criminalidade\u201d. \u201c\u00c9 uma vis\u00e3o que coloca o PM submetido ao risco de morte e absolutamente cruel com o servidor p\u00fablico, porque ningu\u00e9m pode estar mais disposto a morrer que outro e em uma situa\u00e7\u00e3o de \u2018trincheira na guerra contra a criminalidade\u2019; de \u2018n\u00f3s contra eles\u2019. Isso \u00e9 uma perversidade para o policial e s\u00f3 refor\u00e7a um ciclo de viol\u00eancia\u201d, definiu.<\/p>\n<p>\u201cEla morreu por ser policial\u201d, analisa F\u00f3rum de Seguran\u00e7a<\/p>\n<p>Com atividade semelhante \u00e0 do Sou da Paz, o F\u00f3rum Brasileiro de Seguran\u00e7a P\u00fablica tamb\u00e9m lamentou o assassinato da jovem policial e ponderou que, diferentemente de Marielle, em que policiais s\u00e3o investigados, no caso de Juliane, ela \u201cmorreu por ser policial\u201d.<\/p>\n<p>\u201cAmbos os casos s\u00e3o tr\u00e1gicos. No caso de Marielle o caso ganhou grande repercuss\u00e3o porque ela era uma vereadora rec\u00e9m-eleita, mas n\u00e3o penso que seja poss\u00edvel valorar uma vida ou outra, uma morte ou outra. Ambos os casos s\u00e3o a evid\u00eancia da barb\u00e1rie que vivemos no Brasil e que se expressa principalmente na morte de jovens, negros e perif\u00e9ricos, e no caso das duas, ainda mais minorias por serem mulheres e homossexuais\u201d, analisou a diretora-executiva do F\u00f3rum, Samira Bueno.<\/p>\n<p>\u201cO caso da Juliane, no entanto, \u00e9 diferente no sentido de que ela morreu por ser policial. \u00c9 sabido que policiais s\u00e3o v\u00edtimas privilegiadas do crime organizado, e que matar um policial pode ser inclusive um mecanismo de ascender numa fac\u00e7\u00e3o\u201d, acrescentou Samira.<\/p>\n<p>\u201cNesse cen\u00e1rio em que vivemos hoje, em que a pol\u00edtica p\u00fablica e a intelig\u00eancia s\u00e3o negligenciadas, e o Estado opera na l\u00f3gica da vendeta, os policiais da ponta, especialmente pra\u00e7as da PM, ficam ainda mais vulner\u00e1veis\u201d, ressaltou.<\/p>\n<p>Samira lembrou que, h\u00e1 alguns anos, o F\u00f3rum fez uma pesquisa sobre a vitimiza\u00e7\u00e3o de policiais.<\/p>\n<p>\u00c0 \u00e9poca, disse, \u201ca maioria deles respondeu que n\u00e3o se deslocava de casa para o trabalho de farda e que evitavam usar transporte p\u00fablico\u201d. \u201cNo fundo o que est\u00e1 por tr\u00e1s dessas respostas \u00e9 justamente o medo de ser alvo\u201d, definiu.<\/p>\n<p>Em m\u00e9dia, 70% dos policiais assassinados no Brasil morrem fora de servi\u00e7o \u2013 caso de Juliane, que estava em um bar, com amigos, em sua primeira noite de f\u00e9rias da PM.<\/p>\n<p>\u201cFalamos de um caso de extrema gravidade, mas que n\u00e3o pode e n\u00e3o deve ser discutido na l\u00f3gica direita versus esquerda, movimentos de direitos humanos versus o resto. Estamos falando da urg\u00eancia de se pensarem pol\u00edticas de enfrentamento \u00e0 criminalidade e de desestrutura\u00e7\u00e3o do crime organizado que priorizem a investiga\u00e7\u00e3o e que valorizem o policial \u2013n\u00e3o d\u00e1 para continuar fazendo mais do mesmo e querer se promover com a trag\u00e9dia alheia\u201d, pediu a especialista.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Uol\/Foto:Arquivo Pessoal<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Entidades de defesa dos direitos LGBT e dos direitos humanos lamentaram nesta ter\u00e7a-feira (7) o assassinato da policial militar Juliane dos Santos Duarte, 27. 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