{"id":76965,"date":"2018-12-16T13:03:14","date_gmt":"2018-12-16T16:03:14","guid":{"rendered":"http:\/\/www.caririemacao.com\/1\/?p=76965"},"modified":"2018-12-16T13:03:14","modified_gmt":"2018-12-16T16:03:14","slug":"bolsonaro-tera-de-concluir-transposicao-e-definir-gestao-da-agua","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.caririemacao.com\/1\/2018\/12\/16\/bolsonaro-tera-de-concluir-transposicao-e-definir-gestao-da-agua\/","title":{"rendered":"Bolsonaro ter\u00e1 de concluir transposi\u00e7\u00e3o e definir gest\u00e3o da \u00e1gua"},"content":{"rendered":"<p>Mais de 2.000 km ap\u00f3s a sua nascente, o rio S\u00e3o Francisco se aproxima da eleva\u00e7\u00e3o da chapada do Araripe, que se entende do Cear\u00e1 a Pernambuco. Diante do obst\u00e1culo, o rio forma uma ba\u00eda, faz uma curva \u00e0 direita e, nesse sentido, margeia Bahia, Sergipe e Alagoas at\u00e9 se encontrar com o mar.Assim, o rio conhecido como o da integra\u00e7\u00e3o nacional deixa de percorrer o semi\u00e1rido, \u00e1rea de forte desigualdade social e baixos \u00edndices de desenvolvimento humano.<\/p>\n<p>\u00c9 nessa regi\u00e3o, no munic\u00edpio de S\u00e3o Jos\u00e9 de Piranhas (PB), onde as \u00e1rvores da caatinga s\u00e3o muito secas e a terra levanta uma nuvem de poeira a cada ve\u00edculo que passa, que mora o agricultor Francisco dos Santos, 33.<\/p>\n<p>Com uma cisterna em casa, abastecida a cada 20 dias, ele espera que a obra de transposi\u00e7\u00e3o do S\u00e3o Francisco alivie a seca que o obriga a ir ao Maranh\u00e3o e ao Par\u00e1 em busca de empregos tempor\u00e1rios.<\/p>\n<p>Ele conta que gostaria de usar a \u00e1gua do S\u00e3o Francisco, cujo leito passa a 180 km dali, para plantar tomate, alface e coentro e vend\u00ea-los na feira.<\/p>\n<p>Implantar de fato a transposi\u00e7\u00e3o do S\u00e3o Francisco \u00e9 o principal desafio do futuro presidente Jair Bolsonaro (PSL) no combate \u00e0 seca. \u200b<\/p>\n<p>O projeto foi pensado por d. Pedro 2\u00ba, mas a obra s\u00f3 foi iniciada no governo Lula (PT), em 2005. No in\u00edcio da constru\u00e7\u00e3o, falava-se de um conjunto de at\u00e9 700 km de canais, ao custo de R$ 4,5 bilh\u00f5es (R$ 9,55 bilh\u00f5es a pre\u00e7os corrigidos pela infla\u00e7\u00e3o).<\/p>\n<p>A obra chega ao fim de 2018 com 477 km, ao custo de R$ 11,7 bilh\u00f5es. Quando estiver pronta, deve beneficiar cidades de Pernambuco, Cear\u00e1, Para\u00edba e Rio Grande do Norte.<\/p>\n<p>A transposi\u00e7\u00e3o j\u00e1 deveria ter sido entregue e os motivos dos atrasos s\u00e3o muitos: de falhas de projeto a desist\u00eancias de empreiteiras e investiga\u00e7\u00f5es por desvio de verbas.<\/p>\n<p>O primeiro passo para entregar a transposi\u00e7\u00e3o \u00e9 finalizar os dois eixos principais. H\u00e1 dois canais, com represas e esta\u00e7\u00f5es de bombeamento que captam a \u00e1gua do S\u00e3o Francisco e a interiorizam por caminhos diferentes, enchendo a\u00e7udes e regularizando rios sert\u00e3o afora.<\/p>\n<p>O primeiro canal, o Eixo Leste, foi inaugurado em 2017 pelo presidente Michel Temer (MDB). Ele parte de Floresta (PE), atravessa Pernambuco e, logo ao chegar \u00e0 Para\u00edba, abastece o a\u00e7ude Po\u00e7\u00f5es, onde as \u00e1guas seguem por rios. Assim, o S\u00e3o Francisco consegue abastecer Campina Grande (PB), a 300 km do seu leito.<\/p>\n<p>Ainda em est\u00e1gio de pr\u00e9-opera\u00e7\u00e3o, o Eixo Leste pode beneficiar 4,5 milh\u00f5es de pessoas em 168 munic\u00edpios.<\/p>\n<p>O segundo canal, ainda em obras, \u00e9 o Eixo Norte, o maior deles. Ele tem capacidade para abastecer 7,1 milh\u00f5es de pessoas e 223 cidades.<\/p>\n<p>O Eixo Norte parte da cidade de Cabrob\u00f3 (PE) e segue por 260 km at\u00e9 chegar a represas, hoje vazias, na Para\u00edba. Dali, a \u00e1gua abastece rios que chegam ao Rio Grande do Norte. O eixo est\u00e1 com 97% de suas obras prontas e deve ser entregue no in\u00edcio de 2019.<\/p>\n<p>Bolsonaro ter\u00e1 a oportunidade de inaugur\u00e1-lo e acenar \u00e0 regi\u00e3o do pa\u00eds onde obteve menor vota\u00e7\u00e3o. Faltar\u00e1 ainda terminar a segunda fase da transposi\u00e7\u00e3o, com mais cinco ramais secund\u00e1rios (s\u00f3 um est\u00e1 em obras).<\/p>\n<p>Outro desafio ser\u00e1 incentivar os governos estaduais a fazer estruturas para receber a \u00e1gua dos canais principais, de modo que a \u00e1gua da obra federal chegue \u00e0s cidades.<\/p>\n<p>O Cear\u00e1, por exemplo, tem obras avan\u00e7adas de um conjunto de canais pr\u00f3prios que partem de uma das represas da transposi\u00e7\u00e3o federal. Dali, levam a \u00e1gua a regi\u00f5es como a do Cariri. Um desses canais abastece tamb\u00e9m um rio seco que des\u00e1gua no reservat\u00f3rio de Fortaleza.<\/p>\n<p>Ao longo do Eixo Norte, Pernambuco e Para\u00edba n\u00e3o t\u00eam projetos pr\u00f3prios. Os estados privilegiaram obras no Eixo Leste e agora come\u00e7am a pensar em como aproveitar a \u00e1gua bombeada.<\/p>\n<p>Entretanto, a conclus\u00e3o da obra civil ainda n\u00e3o \u00e9 suficiente para encher as represas no semi\u00e1rido. Isso porque, segundo especialistas ouvidos pela Folha, \u00e9 muito fr\u00e1gil o arranjo institucional que une o governo federal, os governos dos quatro estados envolvidos e as entidades locais.<\/p>\n<p>Definir melhor esse desenho \u00e9 o segundo desafio de Bolsonaro, e exigir\u00e1 articula\u00e7\u00e3o com governadores de partidos que formam oposi\u00e7\u00e3o na esfera federal.<\/p>\n<p>\u201cImagine que a obra da transposi\u00e7\u00e3o \u00e9 uma cabe\u00e7a. Mas, sem intelig\u00eancia, essa cabe\u00e7a n\u00e3o vai a lugar nenhum\u201d, compara o ex-secret\u00e1rio de recursos h\u00ed\u00addricos do Minist\u00e9rio da Integra\u00e7\u00e3o Nacional e hoje consultor R\u00f4mulo Macedo.<\/p>\n<p>Para se ter uma ideia do tamanho da tarefa, a transposi\u00e7\u00e3o tem autoriza\u00e7\u00e3o para captar 26,4 mil litros de \u00e1gua por segundo (na soma dos dois eixos). O volume equivale a 43% do consumo administrado pela Sabesp (companhia paulista de saneamento) da Grande SP.<\/p>\n<p>Caso a represa de Sobradinho, que fica logo antes dos pontos de capta\u00e7\u00e3o no rio, esteja cheia (com pelo menos 94% do volume), o bombeamento pode chegar a 114 mil litros por segundo, quase o dobro do utilizado em SP.<\/p>\n<p>Hoje a opera\u00e7\u00e3o est\u00e1 nas m\u00e3os da federal Codevasf (Companhia de Desenvolvimento dos Vales do S\u00e3o Francisco e do Parna\u00edba), entidade que cria e mant\u00e9m projetos de irriga\u00e7\u00e3o na bacia do rio S\u00e3o Francisco.<\/p>\n<p>Quem acompanha de perto a companhia tem d\u00favidas sobre a sua capacidade de tocar a empreitada. O departamento voltado para a transposi\u00e7\u00e3o conta com 27 profissionais. Trabalhos operacionais, diz o governo federal, ser\u00e3o feitos por terceirizadas.<\/p>\n<p>\u201cA opera\u00e7\u00e3o e a manuten\u00e7\u00e3o t\u00eam que ser de ponta, sabendo quando se deve bombear a \u00e1gua e em quais circunst\u00e2ncias, para que n\u00e3o se tenha desperd\u00edcio e para que a \u00e1gua n\u00e3o chegue cara na ponta, ao consumidor\u201d, afirma Macedo.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m \u00e9 preciso saber quem pagar\u00e1 pelo bombeamento da \u00e1gua. Isso porque a transposi\u00e7\u00e3o \u00e9 uma opera\u00e7\u00e3o custosa que atender\u00e1 cidades em regi\u00f5es mais pobres.<\/p>\n<p>Jerson Kelman, ex-presidente da ANA (Ag\u00eancia Nacional de \u00c1guas) e da Sabesp (companhia paulista de \u00e1gua), diz que o financiamento da opera\u00e7\u00e3o \u00e9 crucial para o sucesso da transposi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u201cN\u00e3o se atrelou o desejo pela \u00e1gua nos estados com o compromisso firme do pagamento da opera\u00e7\u00e3o do sistema. O compromisso foi feito, mas foi um ato pol\u00edtico. Se o governo n\u00e3o atentar para a sustentabilidade [econ\u00f4mica] dessa estrutura, vai se deteriorar.\u201d<\/p>\n<p>O risco de que, sem o custeio devido, a obra vire um elefante branco \u00e9 percebido tamb\u00e9m por R\u00f4mulo Macedo. \u201cUma obra hidr\u00e1ulica tem que funcionar sempre. Sen\u00e3o, ela se degrada. Ainda mais sob o sol do Nordeste\u201d, analisa.<\/p>\n<p>Quando o assunto \u00e9 pagar pelo recebimento da \u00e1gua, os estados \u00e9 que s\u00e3o respons\u00e1veis. Podem arcar com esses custos, diluindo-os em suas despesas, ou repass\u00e1-los ao consumidor da \u00e1gua, por meio de contas mensais.<\/p>\n<p>Para Kelman, o primeiro modelo \u00e9 equivocado, pois fica excessivamente preso \u00e0 gest\u00e3o fiscal. O risco \u00e9 ainda maior na atual fragilidade financeira que vivem Rio Grande do Norte e Para\u00edba. \u201cA opera\u00e7\u00e3o n\u00e3o pode depender de recursos fiscais. Se for assim, vai faltar a gasolina para o caminh\u00e3o que leva o \u00f3leo at\u00e9 uma bomba, vai faltar de tudo.\u201d<\/p>\n<p>Para ele, a melhor solu\u00e7\u00e3o \u00e9 a segunda, que visa cobrar os custos de quem utiliza a \u00e1gua. O problema \u00e9 que, se o repasse ao consumidor n\u00e3o for feito de maneira que proteja as popula\u00e7\u00f5es mais pobres, a falta de \u00e1gua continuar\u00e1 presente na vida do sertanejo.<\/p>\n<p>Esse \u00e9 o temor do agricultor Isaquiel de Souza, 43, morador de uma vila rural de Cajazeiras (PB). Os R$ 357 vindos do Bolsa Fam\u00edlia s\u00e3o praticamente a \u00fanica renda da fam\u00edlia de quatro membros.<\/p>\n<p>Como muitos vizinhos que convivem com po\u00e7os de \u00e1gua salobra (impr\u00f3pria para consumo e at\u00e9 para lavar roupas), Isaquiel est\u00e1 ansioso pela chegada do S\u00e3o Francisco \u00e0 proximidade de sua casa e pensa em plantar feij\u00e3o e hortali\u00e7as.<\/p>\n<p>Mas ele teme o pre\u00e7o da conta. \u201cEu j\u00e1 pago R$ 60 de conta de luz. Se vier outra conta dessa, \u00e9 imposs\u00edvel pagar.\u201d<\/p>\n<p>Por isso, Kelman argumenta que a cobran\u00e7a deveria recair sobre os moradores de \u00e1reas urbanas beneficiadas pela seguran\u00e7a h\u00eddrica. S\u00f3 assim o modelo teria sustentabilidade financeira para custear o funcionamento ininterrupto das esta\u00e7\u00f5es de bombeamento.<\/p>\n<p>J\u00e1 quem vive no campo poderia se beneficiar da transposi\u00e7\u00e3o quando a eventual cheia do Sobradinho enchesse os a\u00e7udes pelo sert\u00e3o. \u201cEsse agricultor, seja pequeno ou grande, poder\u00e1 aumentar o valor agregado da sua lavoura, trocando o plantio do feij\u00e3o pelo de frutas, ajudando a desenvolver a regi\u00e3o, com a devida orienta\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica e a garantia da \u00e1gua\u201d, analisa.<\/p>\n<p>O apelo do agroneg\u00f3cio e da ind\u00fastria pelas \u00e1guas do S\u00e3o Francisco, por\u00e9m, \u00e9 o que assusta quem est\u00e1 abaixo dos pontos de capta\u00e7\u00e3o rio.<\/p>\n<p>\u201c\u00c9 preciso saber para quem a \u00e1gua da transposi\u00e7\u00e3o vai. Se vai para a produ\u00e7\u00e3o de camar\u00e3o para exporta\u00e7\u00e3o ou o polo industrial de Fortaleza, n\u00e3o faz sentido\u201d, defende Almacks Silva, secret\u00e1rio da C\u00e2mara Consultiva Regional do Subm\u00e9dio S\u00e3o Francisco, organiza\u00e7\u00e3o civil que participa de decis\u00f5es sobre o rio.<\/p>\n<p>Silva \u00e9 receoso com a sa\u00fade do S\u00e3o Francisco, h\u00e1 anos prejudicado pelo uso explorat\u00f3rio das \u00e1guas, ocupa\u00e7\u00e3o indevida das margens e fen\u00f4menos clim\u00e1ticos extremos. Ap\u00f3s seis anos de seca no Nordeste, a represa de Sobradinho tem hoje 28% da capacidade e tem de liberar seu m\u00ednimo hist\u00f3rico de \u00e1gua.<\/p>\n<p>A ANA afirma que a \u00e1gua que ser\u00e1 retirada do rio para a transposi\u00e7\u00e3o \u00e9 apenas 5% do m\u00ednimo hist\u00f3rico que passa pela represa de Sobradinho.<\/p>\n<p>\u201cEst\u00e3o falando em transposi\u00e7\u00e3o, mas, sem a conserva\u00e7\u00e3o n\u00e3o existe transposi\u00e7\u00e3o vi\u00e1vel\u201d, argumenta Silva. A recupera\u00e7\u00e3o de toda a bacia do S\u00e3o Francisco \u00e9, assim, mais um desafio do pr\u00f3ximo governo.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Mais de 2.000 km ap\u00f3s a sua nascente, o rio S\u00e3o Francisco se aproxima da eleva\u00e7\u00e3o da chapada do Araripe, que se entende do Cear\u00e1&hellip; <\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":9769,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"sfsi_plus_gutenberg_text_before_share":"","sfsi_plus_gutenberg_show_text_before_share":"","sfsi_plus_gutenberg_icon_type":"","sfsi_plus_gutenberg_icon_alignemt":"","sfsi_plus_gutenburg_max_per_row":"","footnotes":""},"categories":[50,11],"tags":[],"class_list":["post-76965","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-destaque","category-politica"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.caririemacao.com\/1\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/76965","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.caririemacao.com\/1\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.caririemacao.com\/1\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.caririemacao.com\/1\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.caririemacao.com\/1\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=76965"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.caririemacao.com\/1\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/76965\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":76966,"href":"https:\/\/www.caririemacao.com\/1\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/76965\/revisions\/76966"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.caririemacao.com\/1\/wp-json\/wp\/v2\/media\/9769"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.caririemacao.com\/1\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=76965"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.caririemacao.com\/1\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=76965"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.caririemacao.com\/1\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=76965"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}