{"id":85832,"date":"2019-02-19T17:43:45","date_gmt":"2019-02-19T20:43:45","guid":{"rendered":"http:\/\/www.caririemacao.com\/1\/?p=85832"},"modified":"2019-02-19T17:43:48","modified_gmt":"2019-02-19T20:43:48","slug":"mulheres-nordestinos-e-populacao-de-baixa-escolaridade-sao-a-cara-do-desalento-do-brasil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.caririemacao.com\/1\/2019\/02\/19\/mulheres-nordestinos-e-populacao-de-baixa-escolaridade-sao-a-cara-do-desalento-do-brasil\/","title":{"rendered":"Mulheres, nordestinos e popula\u00e7\u00e3o de baixa escolaridade s\u00e3o a cara do desalento do Brasil"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Os desalentados \u2013 aqueles que desistiram de procurar emprego \u2013 j\u00e1 est\u00e3o em todos os estratos da sociedade brasileira. Mas uma an\u00e1lise detalhada dos n\u00fameros mostra que um grupo de pessoas tem sido mais afetado pela crise do mercado de trabalho. Se o perfil desse contingente pudesse ser tra\u00e7ado, ele seria o de uma mulher nordestina de baixa escolaridade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O perfil do desalentado foi tra\u00e7ado pela consultoria Plano CDE, com base nos \u00faltimos dados divulgados pela Pesquisa Nacional por Amostra de Domic\u00edlios (Pnad) cont\u00ednua. No ano passado, a quantidade de pessoas que desistiu de procurar emprego chegou a 4,7 milh\u00f5es \u2013 o equivalente \u00e0 popula\u00e7\u00e3o da Costa Rica.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Existem v\u00e1rias causas que podem levar um trabalhador para o quadro de desalento. Esse fen\u00f4meno pode ocorrer porque a pessoa desiste de procurar emprego por falta de oportunidade ou pelo fato de n\u00e3o se sentir estimulada a entrar no mercado em per\u00edodos de crise. Tamb\u00e9m h\u00e1 fatores n\u00e3o ligados diretamente ao desempenho da atividade econ\u00f4mica: muitas mulheres deixam de buscar trabalho quando n\u00e3o h\u00e1 vagas em creches ou escolas para os filhos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">N\u00e3o \u00e0 toa, do total de desalentados do pa\u00eds, 54,31% s\u00e3o do sexo feminino, enquanto os homens respondem por 45,69%. &#8220;Na maioria dos casos, a mulher acaba ficando presa \u00e0s atividades dom\u00e9sticas&#8221;, diz o diretor-executivo da consultoria Plano CDE, Maur\u00edcio Prado.Perfil de desalento por sexoDados em %45,6945,6954,3154,31MasculinoFeminino051015202530354045505560Fonte: Plano CDE, com base nos dados da Pnad<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">H\u00e1 seis anos morando em S\u00e3o Paulo, Maria do Carmo, de 29 anos, tem quatro filhos \u2013 tr\u00eas est\u00e3o na escola, mas a menina de cinco anos ainda n\u00e3o. Natural de Sergipe, ela deve tentar uma vaga na rede p\u00fablica em abril. At\u00e9 l\u00e1, desistiu de buscar emprego para cuidar da filha. &#8220;S\u00f3 consigo sobreviver porque recebo Bolsa Fam\u00edlia e pela ajuda de outras pessoas. D\u00e1 para fazer pouca coisa (com o dinheiro), mas j\u00e1 \u00e9 alguma coisa&#8221;, diz Maria, moradora de Parais\u00f3polis, zona sul da capital paulista.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Sem perspectiva no curto prazo, Maria diz que espera voltar a limpar casas de fam\u00edlias. Foi esse o primeiro emprego dela em S\u00e3o Paulo. &#8220;Quando trabalhava em casa de fam\u00edlias, conseguia ganhar at\u00e9 um sal\u00e1rio m\u00ednimo.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No recorte por anos de estudo, o desalento est\u00e1 concentrado entre aqueles os trabalhadores com ensino fundamental incompleto. Esse grupo de brasileiros \u00e9 respons\u00e1vel por 40,6% do total de desalentados no pa\u00eds. As menores taxas s\u00e3o observadas na popula\u00e7\u00e3o que, pelo menos, chegou ao ensino superior. &#8220;O desalento alto \u00e9 problem\u00e1tico em v\u00e1rios sentidos&#8221;, afirma o diretor da FGV Social, Marcelo Neri, respons\u00e1vel pelo estudo. &#8220;A pobreza, por exemplo, \u00e9 duplamente afetada pelo quadro desalento&#8221;, diz.Perfil dos desalentados por anos de escolaridadeDados em %8,338,3340,640,610,8110,8110,8210,8223,3123,312,412,413,723,72Menos de 1 ano de estudoFundamental incompletoFundamental completoM\u00e9dio incompletoM\u00e9dio completoSuperior incompletoSuperior completo051015202530354045Fonte: Plano CDE, com base na Pnad Cont\u00ednua<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Nordeste \u00e9 o mais afetado<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Os n\u00fameros detalhados do perfil de quem n\u00e3o trabalha ou procura emprego deixam evidente como, al\u00e9m de grupos espec\u00edficos, algumas regi\u00f5es do pa\u00eds s\u00e3o mais afetadas do que as outras. O Nordeste, por exemplo, \u00e9 respons\u00e1vel por 60% do desalento brasileiro, embora nem 30% da popula\u00e7\u00e3o brasileira more na regi\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&#8220;O Nordeste \u00e9 uma regi\u00e3o com menos oportunidades. Basicamente em algumas \u00e1reas n\u00e3o h\u00e1 perspectiva de ter um emprego&#8221; diz Prado, da Plano CDE.Desalentados por regi\u00e3oEm % do total do pa\u00edsNorte: 11,21Nordeste: 61,44Sul: 19,85Sudeste: 4,58Centro-Oeste: 3,67Fonte: Plano CDE, com base em dados da Pnad Cont\u00ednua<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Moradora de Ibura, zona sul do Recife, Fernanda Rocha da Costa, de 25 anos, decidiu trocar a busca por um emprego pelos estudos depois de ver a sua carreira frustada. Bacharela em hist\u00f3ria, ela nunca conseguiu atuar em sua \u00e1rea de forma\u00e7\u00e3o, por causa da falta de oportunidades. Com a demiss\u00e3o, em 2017, decidiu mudar radicalmente seus planos de carreira.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&#8220;Comecei a trabalhar cedo, numa empresa de fardamentos, e parei para fazer a faculdade. Cheguei a fazer pesquisa na universidade e, quando conclu\u00ed, fui parar numa empresa de telemarketing, de onde fui demitida\u201d, afirma Fernanda. \u201cTentei muito voltar ao mercado, mas como n\u00e3o apareceram oportunidades, um ano depois, conversei com meus pais e eles apoiaram minha decis\u00e3o de estudar para fazer um concurso p\u00fablico.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" width=\"25\" height=\"17\" data-src=\"http:\/\/www.caririemacao.com\/1\/wp-content\/uploads\/2019\/02\/image-18.jpeg\" alt=\"\" class=\"wp-image-85833 lazyload\" src=\"data:image\/svg+xml;base64,PHN2ZyB3aWR0aD0iMSIgaGVpZ2h0PSIxIiB4bWxucz0iaHR0cDovL3d3dy53My5vcmcvMjAwMC9zdmciPjwvc3ZnPg==\" style=\"--smush-placeholder-width: 25px; --smush-placeholder-aspect-ratio: 25\/17;\" \/><\/figure>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" data-src=\"https:\/\/s2.glbimg.com\/4VTnxc8xoVGvMVbaceqX2GCwYRQ=\/0x0:1280x853\/984x0\/smart\/filters:strip_icc()\/i.s3.glbimg.com\/v1\/AUTH_59edd422c0c84a879bd37670ae4f538a\/internal_photos\/bs\/2019\/E\/D\/FppbFYT3eBerlxD3GaMg\/fernanda-desalento-1-.jpeg\" alt=\"Ap\u00f3s demiss\u00e3o, Fernanda mudou planos de carreira \u2014 Foto: Aldo Carneiro\/Pernambuco Press\" src=\"data:image\/svg+xml;base64,PHN2ZyB3aWR0aD0iMSIgaGVpZ2h0PSIxIiB4bWxucz0iaHR0cDovL3d3dy53My5vcmcvMjAwMC9zdmciPjwvc3ZnPg==\" class=\"lazyload\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ap\u00f3s demiss\u00e3o, Fernanda mudou planos de carreira \u2014 Foto: Aldo Carneiro\/Pernambuco Press<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Iniciando a carreira no mercado de trabalho, o desemprego foi mais r\u00e1pido que a possibilidade de Fernanda de criar recursos para se sustentar no per\u00edodo em que passa se dedicando apenas aos estudos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&#8220;Era tudo muito frustrante, porque eu me cadastrava em sites, ia a entrevistas, mas nada aparecia. O campo de trabalho para uma bacharela em hist\u00f3ria \u00e9 basicamente pesquisa e isso era ainda mais complicado. Em maio de 2018 conversei com meus pais e eles toparam me ajudar. N\u00e3o sei at\u00e9 quando vou ficar assim, vai depender muito do andar das coisas. Seja financeiramente, em casa, ou mesmo da situa\u00e7\u00e3o do pa\u00eds&#8221;, diz.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Um estudo conduzido pelo Banco Mundial no ano passado com jovens pernambucanos identificou tr\u00eas raz\u00f5es que ajudam a explicar porque o desalento \u00e9 t\u00e3o alto no Nordeste. Pelo levantamento, as pessoas deixam de procurar emprego por falta de aspira\u00e7\u00e3o, inabilidade de transformar a vontade de voltar ao mercado de trabalho em a\u00e7\u00f5es pr\u00e1ticas, e dificuldade para lidar com barreiras externas, como falta de transporte p\u00fablico seguro para se locomover.Perfil do desalentado por condi\u00e7\u00e3o no domic\u00edlioDados em %29,5729,5723,3823,3837,4437,449,619,61Pessoa respons\u00e1velC\u00f4njuge ou companheiroFilho (a) e enteado (a)Outros0510152025303540<strong>Pessoa respons\u00e1vel<\/strong><br><strong>29,57<\/strong><br>Fonte: Plano CDE, com base em dados da Pnad Cont\u00ednua<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&#8220;O desalento \u00e9 um capital humano que n\u00e3o est\u00e1 sendo utilizado. \u00c9 um experi\u00eancia e escolaridade que podem ser empregados no mercado, mas ficam de foram, sendo passiveis de deprecia\u00e7\u00e3o&#8221;, afirma o professor do Insper e especialista em mercado de trabalho, Sergio Firpo.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Em busca de estabilidade<\/h2>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" width=\"25\" height=\"17\" data-src=\"http:\/\/www.caririemacao.com\/1\/wp-content\/uploads\/2019\/02\/image-19.jpeg\" alt=\"\" class=\"wp-image-85834 lazyload\" src=\"data:image\/svg+xml;base64,PHN2ZyB3aWR0aD0iMSIgaGVpZ2h0PSIxIiB4bWxucz0iaHR0cDovL3d3dy53My5vcmcvMjAwMC9zdmciPjwvc3ZnPg==\" style=\"--smush-placeholder-width: 25px; --smush-placeholder-aspect-ratio: 25\/17;\" \/><\/figure>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" data-src=\"https:\/\/s2.glbimg.com\/0pWYZfHMozeTwA9S1HFh08C6S04=\/0x0:1280x853\/1008x0\/smart\/filters:strip_icc()\/i.s3.glbimg.com\/v1\/AUTH_59edd422c0c84a879bd37670ae4f538a\/internal_photos\/bs\/2019\/o\/i\/EIjyDPTgqkI7zmlnEqLw\/jonas-desalento-1-.jpeg\" alt=\"Jonas deixou emprego para estudar \u2014 Foto: Aldo Carneiro\/Pernambuco Press\" src=\"data:image\/svg+xml;base64,PHN2ZyB3aWR0aD0iMSIgaGVpZ2h0PSIxIiB4bWxucz0iaHR0cDovL3d3dy53My5vcmcvMjAwMC9zdmciPjwvc3ZnPg==\" class=\"lazyload\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Jonas deixou emprego para estudar \u2014 Foto: Aldo Carneiro\/Pernambuco Press<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A hist\u00f3ria de Jonas \u00e9 marcada em diversas frentes pela frustra\u00e7\u00e3o com o trabalho. Sua m\u00e3e desenvolveu um quadro de Alzheimer, agravado por uma depress\u00e3o por n\u00e3o conseguir mais emprego depois de ser demitida. Segundo ele, o controle financeiro que ele teve durante toda a vida o permitiu pedir a pr\u00f3pria demiss\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&#8220;Trabalho h\u00e1 mais de 20 anos e de carteira assinada devo ter uns seis. Com a poss\u00edvel reforma da previd\u00eancia, o trabalho privado nunca me permitiria ter qualidade de vida. Ou eu estudava ou trabalhava, e ningu\u00e9m sabe o dia de amanh\u00e3. Hoje, me sustento com o que guardei durante esse tempo trabalhando. N\u00e3o tenho cart\u00e3o de cr\u00e9dito e s\u00f3 gasto as contas de luz, \u00e1gua e um preparat\u00f3rio para concursos&#8221;, diz.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Jonas decidiu deixar o emprego em 2017 e passou um ano tentando voltar ao trabalho. Ele chegou a distribuir curr\u00edculos e a ser entrevistado por algumas empresas. &#8220;N\u00e3o era poss\u00edvel conciliar nenhum emprego com meus estudos, porque eu queria algo no hor\u00e1rio comercial, das 7h \u00e0s 17h, por exemplo. Meu plano \u00e9 fazer concursos de tribunais, para que, no futuro, eu tenha estabilidade&#8221;, diz.<br><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Os desalentados \u2013 aqueles que desistiram de procurar emprego \u2013 j\u00e1 est\u00e3o em todos os estratos da sociedade brasileira. 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